#030 – Sim: estamos f*#@%!

Não teve como: o Brasil tornou-se o epicentro global da pandemia. Ao meu ver, tudo se deve a incompetência do governo federal. Não tem outra explicação além dessa: o presidente jogou completamente contra a vida das pessoas e fez pouco caso de um assunto de extremo perigo. O pior de tudo é que estávamos a frente das nações europeias e da China – o que poderia ter nos ajudado a planejar, organizar e salvar vidas. Mas não. O governo ficou xingando a imprensa, desmerecendo a doença, inventando crises e aparelhando o Ministério da Saúde. Eis que chegamos onde estamos: no topo da lista da Covid-19. Somos o 2º país em casos e em mortes.

Nesse cenário, está todo mundo nas ruas. A vida está normal. As pessoas, simplesmente, esqueceram de que há uma pandemia que mata quase mil pessoas por dia. Ao meu ver, a sociedade ligou o “foda-se”. A morte é algo tão próxima do brasileiro que, seja de Covid ou seja de bala perdida, vamos morrer, certo? Então, abre tudo e vamos para a rua. Esse deve ter sido o pensamento do cidadão. Há ainda um sentimento nacional de que tudo acontece com o vizinho, nada em nossa casa. Sempre é com o outro. Isso também faz o bloco ir para a rua. Por fim, temos o que, para mim, é o pior de tudo: nós normatizamos as mortes. Se morrer mil, 800 ou 500, morreu. A gente não se choca mais – como não nos chocamos com mais de 60 mil mortos por arma de fogo em um ano, com as cachinas nas favelas ou as crianças que carem de prédios de luxo. Simplesmente vivemos a vida como se nada tivesse acontecido – e hoje ainda “comemoramos” que não morreram mil e sim 800.

A boiadada tá na rua – e o boiadeiro continua tocando o gado diretamente do Planalto. Onde que isso tudo vai dar? Nem ideia.

O Bolsonarismo é fascista?

Temos ouvido muito que o presidente e sua turma são fascistas.

Para entendermos mais sobre o tema, sugiro a leitura do ensaio “Fascismo à brasileira” da Folha de S.Paulo desse domingo assinado por André Singer, Christian Dunker, Cicero Araújo, Felipe Loureiro, Laura Carvalho, Leda Paulani, Ruy Braga e Vladimir Safatle.

Os especialistas fazem uma comparação em como o Bolsonarismo atualiza, com particularidades históricas, discursos e estratégias da tradição fascista no país que remonta ao Integralismo de Plínio Salgado nos anos 30. As novidades, dessas vez, são o fundamentalismo religioso neopentecostal, a defesa da família patriarcal, o culto à violência e o ultraliberalismo econômico.

Segundo o historiador Robert Paxton, são estruturas das paixões que caracterizam o Fascismo: culto à violência e ao militarismo; a crença de que a salvação da pátria requer a eliminação dos inimigos internos por meio da mobilização permanente; o uso da identidade nacional através de uma concepção imunitária e agressiva de corpo social; obediência ao líder, percebido como uma encarnação da vontade nacional.

Você pode ler o texto aqui e completar ouvindo aqui o episódio “O que há de fascismo no Bolsonarismo” do Café da Manhã da Folha.

Imagem divulgada pelo jornal The Economista na matéria 
“Jair Bolsonaro ameaça a democracia brasileira”

Alguns gráficos para vermos como a nossa situação é bem complicada

Cresce o número de presos contaminados

Como todos sabem, o sistema penitenciário brasileiro é um dos maiores do mundo e, também, um dos piores. Em nossa newsletter #029 falamos bastante do atual momento das prisões brasileiras (leia clicando aqui).

Hoje trazemos informações da Covid-19 dentro das cadeias.

Segundo informações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a contaminação pelo novo coronavírus aumentou 800% de maio para junho – isso fez com que o órgão renovasse por mais três meses a recomendação para que magistrados considerem a soltura de presos, com substituição de pena.

Pelos dados do CNJ, em 1º de maio, eram 245 presos com Covid-19. Agora, segundo as informações do dia 12 de junho, o número subiu para 2.941. No site oficial do Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN), são 2.062 caos. Há ainda 760 casos suspeitos, de acordo com o Departamento.

Em maio, tinha sido registradas somente três mortes. Agora, segundo o DEPEN, já são 49 óbitos. A CNJ fala em 41.

Distrito Federal é quem mais tem casos confirmados: 775 ou 37,6% do total. Depois aparecem o Ceará (279 casos) e o Pará (230).

Quando vemos as mortes, São Paulo é o estado com o maior número: são 13, seguido por Rio de Janeiro (11) e Espírito Santo (5).

Conseguimos ver os dados do sistema penitenciário mundial.

Os Estados Unidos tem a maior massa carcerária do mundo e é quem mais tem casos. São 48 mil confirmados e 529 óbitos.

O Brasil também é o 2º do mundo quando analisamos os presos contaminados.

Vejamos agora a situação por continente.
Fonte: Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) do Governo Federal do Brasil

Qual o tamanho do Bolsonarismo dentro das polícias militares?

Desde sempre, bati na tecla de que o braço armado do Bolsonarismo é a Polícia Militar. São os policiais a ponça de lança do sistema opressor do presidente e cada vez mais alinhados à extrema-direita.

Um fato que passou um pouco despercebido mostra como a Polícia Militar de São Paulo está fechada com o presidente: o governador precisou trocar o comandante da ROTA pois ele era seu aliado e não seguidor do Bolsonarismo. A conversa é que a tropa não estava feliz com um comandante que não segue a cartilha do presidente da República. A UOL falou sobre isso.

Deixo duas reportagens interessantes sobre o tema:

1 – “Qual o tamanho do Bolsonarismo dentre das polícias militares” do Nexo.

2 – “Governo paulista tenta conter avanço do Bolsonarismo na Polícia Militar” do Estadão.

A polícia também está morrendo de Covid-19

Os estados de São Paulo e Rio de Janeiro triplicaram o caso de policiais mortos por Covid-19 em pouco mais de um mês, segundo números oficiais dos governos. São 43 vítimas registradas até 11 de junho, enquanto o total era de 12 até 3 de maio.

Em São Paulo, 17 policiais morreram vítimas da pandemia desde a crise de coronavírus. Até 3 de maio, o total era de 5 mortos, mais do que o triplo divulgado um mês e uma semana depois.O total de policiais afastados, segundo a SSP paulista, é de 1,8% do efetivo total. Antes, o afastamento atingia 0,7%, o que representa 810 profissionais.Segundo a Ponte Jornalismo, em consulta no Portal da Transparência de SP, são 116.466 policiais no estado, entre militares, civis e científicos. O percentual equivale a 2.096 pessoas afetadas pela doença, 158% a mais do que em maio.A situação no Rio de Janeiro é parecida em relação às mortes. Enquanto a PM, registrava 7 mortos no dia 3 de maio, o total subiu para 26 em 11 de junho, também mais do que triplicando.

Somados, os estados de São Paulo e Rio de Janeiro têm 3.751 policiais fora das ruas por terem contaminado ou suspeita de contraírem a Covid-19. O dado é parcial, pois faltam dados da Polícia Civil.

Leitura complementar

1 – Publicações falsas ou enganosas sobre remédios sem efeito comprovado contra Covid-19 são um terço das verificações do Comprova no último mês. Saiu na revista piauí.

2 – Ainda na revista piauí, Selma Inocência contou como foi o dia que ela precisou de um teste de Covid-19 em Moçambique, mas não conseguiu porque a elite do país tinha “sequestrado” a saúde pública. Há ainda o relato de Wagner Lacerda Santos, diretamente do Vietnã, e de como o país, colado na China, foi um dos que melhor se saíram durante a pandemia. Aqui.

3 – “Presidente do Brasil adota cura ‘cura’ não comprovada para a pandemia”. Artigo do The New York Times sobre o fetiche de Bolsonaro pela cloroquina.

4 – Matéria incrível da coluna Universa do UOL sobre o trabalho de Jaqueline Goes e Ester Sanino, as responsáveis pelas pesquisas da Covid-19 no Brasil.

5 – “Não se pode pensar a democracia real no Brasil se o racismo não for um ponto central”. Reportagem da Daniela Mercier no El País.  

6 – “Por que os brancos precisam ser antirracistas”. Lilia Schwarcz na Folha de S. Paulo desse domingo.

#fotodasemana

Como disse em seu Twitter o comentarista da ESPN Brasil, Gerd Wenzel:
“Deus e o Diabo na Terra do Sol”.

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