#053 – Eleições em Mogi das Cruzes

Cidade terá 2º turno depois de 20 anos

Por aqui, o atual prefeito Marcus Melo (PSDB) ganhou com 42,29% ou 81.555 votos, seguido pelo vereador Caio Cunha (Podemos) com 28,31 ou 54.591. Atrás veio o petista e também vereado Rodrigo Valverde com 17,38%, a maior votação da história do partido na cidade. Tive a hora de participar dessa campanha histórica do PT-PSOL-UP.

Quero destacar algumas coisas sobre Mogi:

Mesmo grupo no poder há décadas. A cidade é comandada pelos mesmos e o atual prefeito faz parte disso. Ele foi apoiado pelo ex-prefeito Marco Bertaiolli (PSD), que foi apoiado pelo ex-prefeito Junji Abe e assim sucessivamente. Há um grupo político-econômico que dá as cartas na cidade.

As corrupções não colaram no prefeito. Recentemente, 5 vereadores foram presos e 1 ficou foragido acusados de corrupção. Os casos foram: contrato com o SEMAE, serviço de água e esgoto da cidade; contratos com a Secretaria de Saúde; e leis encomendadas para mudar o zoneamento de um bairro da cidade. Todos tiverem a assinatura do prefeito, mas ele sequer foi citado pelo Ministério Público e nem investigado. Houve ainda suspeitas durante a pandemia: compra de álcool em gel e máscara, construção de Hospital de Campanha e de túmulos. Vale ainda lembrar que todos os vereadores eram base do prefeito e apoiaram a sua reeleição. Nada disso serviu para derrubar os seus votos.

O Rodriguismo e o anti-petismo. Na campanha, a gente não sentia um anti-petismo gigantesco. Claro que havia e muita gente reclamava do PT. Mas era menor do que a gente esperava. Tanto é que sempre disse: o Rodriguismo é maior que o anti-petismo. Mas, na reta final, tanto os tucanos como a campanha do Caio começaram a bater no “PT NUNCA MAIS” e, ao que tudo indica, o mogiano ficou com medo de uma vitória do Partido dos Trabalhadores. 

A onda do Caio. Surfando exatamente nesse vácuo entre o PSDB e o PT, a campanha do vereador conseguiu pegar um corredor de terceira via – tanto é que no último programa de TV ele deixou claro: dividiu a tela e colocou os tucanos de um lado e os petistas de outro. Com isso, ele se tornou a terceira via. Além disso, o vereador tem uma massa de apoiadores fiel e muito orgânica. Ele consegue mobilizar uma galera rapidamente e sem muito questionamento – as pessoas apenas vão. Soma-se ainda o fato dele conseguir agregar uma classe média/alta que gosta do discurso e do posicionamento dele de diferente, outsider e conectado.

O Bolsonarismo não está morto em Mogi. O candidato bolsonarista à Prefeitura da cidade teve 8,8% ou 16,9 mil votos. É uma derrota com sabor de vitória. O jovem de 25 anos sempre esbravejou nas redes sociais e fazia um tumulto gigantesco na cidade – no próprio dia da eleição, viralizou um vídeo de uma grande confusão na porta de uma escola entre ele, um segurança e alguns cidadãos. Claro que ele usou isso para alavancar o nome dele nas redes sociais – e conseguiu. Porém, todo o barulho das redes, não o colocou no páreo para a disputa. O mesmo vale para os principais candidatos bolsonaristas da cidade: Silvério Nobre (Patriotas) teve 419 votos e a Prof. Sueli Lianza teve 281. Mas os 8% do Felipe são consideráveis e o colocariam como o vereador mais votado, disparado. Eu sempre achei que ele ia abdicar do Executivo e ia para o Legislativo, mas há ai por trás. Ele, por exemplo teve 8x mais votos que um candidato que concorreu em 2016 e teve 16x mais que o candidato do PDT.  

Mogiano está desacreditado. Foram mais de 88 mil abstenções, quase 30%. Tivemos ainda 16,50% entre brancos e nulos. Ou seja: quase metade da população não escolheu nenhum dos candidatos. Isso mostra o quanto os cidadãos não quiseram participar das eleições.

Agora o 2º turno vai colocar duas realidades bem diferentes.

O atual prefeito representa a continuidade. Ele prega isso em sua mensagem de campanha. Marcus Melo é cria de um ex-prefeito e quer manter o que está bom e melhorar o que está ruim – ele vai nessa linha em suas mensagens. Ele simboliza uma política mais tradicional e ligada as famílias clássicas da cidade. O tucano é bem tucano – lembra muito o modo do ex-governador Geraldo Alckmin. A favor dele há o fato de Mogi, no geral, ser uma cidade boa para se morar – tirando os rincões, claro. Mas, para quem está no centro e nos bairros ao redor, a vida funciona – ainda mais se compararmos com as demais cidades do Alto Tietê. A favor dele há ainda a máquina pública, os servidores, os empresários e todo o aparato de dezenas de partido coligados. Contra ele há um cansaço dessa política mais antiga, um governo cheio de suspeitas de corrupção e a sensação de um desejo de mudança.

O Caio Cunha representa uma nova via para a cidade. Ele tem uma massa de apoiadores que fazem barulho nas ruas e nas redes sociais. Sua Comunicação é outro ponto positivo: jovem, ativa e bem atuante; ele conseguiu criar uma rede conectada e rápida – bem no estilo tiktoker. Ele não o apoio dos dinossauros da política e isso pode ser bom para ele, se pensamos em uma questão de narrativa. Por outro lado, o candidato sempre foi base do atual prefeito – e até o apoiou na última eleição. Em determinando momento, ele rompe com o governo e vira oposição, mas há uma sensação na cidade de que ele não tem total legitimidade para ser contrário ao prefeito. Outros dois pontos que podem atrapalhar sua caminhada é sua religião evangélica (muita gente fica com o pé atrás) e a sua relação com a homossexualidade (um grande político do Podemos tentou emplacar a “cura gay”). 

Caio Cunha (Podemos), Felipe Lintz (PRTB), Fred Costa (PDT), Marcus Melo (PSDB), Michael Della Torre (PTC), Miguel Bombeiro (PROS) e Rodrigo Valverde (PT).
Agora os mogianos e mogianas vão ter que decidir se apertam 45 ou 19. Já há uma grande dúvida para onde vão, principalmente, os eleitores do petista Rodrigo Valverde.

Eles precisam escolher.
Valverde sempre foi um duro crítico do atual prefeito; o opositor direto do Marcus Melo. Com isso, fica difícil sua base votar no tucano

Por outro lado, o vereador Caio Cunha é evangélico, seu partido é o que mais está alinhado ao Bolsonarismo dentro da Câmara dos Deputados Federais e há polêmicas contra Caio quando o assunto é a homossexualidade e as mulheres.

Ou seja: a esquerda está entre a cruz e a espada.

Há ainda os votos do candidato Felipe Lintz, o candidato bolsonarista da cidade. Ele teve 8,8% e surpreendeu todo mundo. Ele já disse que pode apoiar o Caio Cunha, pois o Felipe é um ferrenho crítico do atual prefeito. Essa aproximação entre Felipe-Caio pode fazer colar, ainda mais, o selo bolsonarista na campanha do vereador.
A Câmara dos Vereadores teve 60% de gente nova. Mas houve renovação de fato?

Dos 23 vereadores eleitos, 14 não estavam no Legislativo no ano anterior. 

Não terão cadeira: Antonio Lino (PSD), Taubaté (PTB), Caio Cunha (Podemos), Carlos Evaristo (PSB), Claudio Miyake (PSD), Diegão (MDB), Chico Bezerra (PSB), Jean Lopes (PL), Rodrigo Valverde (PT), Mauro Araujo (MDB), Péricles Bauab (PL), Protássio Nogueira (PSDB) e Sado Sakai (PL).

O vereador mais eleito foi o Marcelo Brás do Sacolão (PSDB). Nascido em 82 em Pão de Açúcar (Alagoas), ele é dono de um sacolão muito forte na região periférica de Mogi das Cruzes. Ele teve 3.205 votos e, de acordo com o site do TSE, ele gastou R$ 1,8 mil. O atual prefeito doou para ele R$ 2 mil.

Dos mais vereadores mais votados, todos fazem parte da coligação de apoio do atual prefeito: 4 do PL (partido do vice), 3 do PSDB, 1 do PSD, 1 do Republicanos e 1 do MDB.
Duas novas candidaturas merecem destaque: a jovem Malu Fernandes (Podemos) e a experiente Inês Paz (PSOL).

A Malu é uma jovem de 20 e poucos anos cria dos grupos de renovação que pipocaram no país nos últimos tempos. A Inês é uma militante histórica da cidade e que, no começo dos anos 90, já fazia campanha e se elegia para a Câmara pelo PT. A Malu é do Podemos e a Inês o PSOL. Agora a Câmara conta com 3 mulheres – ambas somam-se a já vereadora Fernanda Moreno (MDB).

Pode parecer pouco, mas é um número considerável para a cidade.