#054 – Especial Eleições 2020

Em Mogi das Cruzes, Caio Cunha vence e desbanca mais de 20 anos do mesmo grupo político no poder

Com 58,39% ou 114.656 votos, o vereador do Podemos, Caio Cunha, é o novo prefeito de Mogi das Cruzes. É uma grande novidade para a cidade: o ex-prefeito Marcus Melo faz parte do mesmo grupo político e econômico que comanda a cidade há décadas. A eleição marca uma nova era na cidade.

Caio conseguiu mais que dobrar a sua quantidade de votos do 1º turno, onde ele teve 54.591 votos. Já Marcus Melo, cresceu menos de 200. Ao meu ver, esse crescimento se deve ao apoio declarado de outros candidatos que disputaram como o petista Rodrigo Valverde, 3º colocado e com mais de 33 mil votos, e o bolsonarista Felipe Lintz (PRTB), com quase 17 mil votos.

Também houve uma queda na quantidade de brancos e nulos. Juntos, eles somaram mais de 41 mil no 1º turno. Neste 2º turno ficam em cerca de 23 mil.

A sensação que ficou é que o mogiano realmente estava querendo algo novo e não queria mais a continuidade dos tucanos no poder.
 Em sua coletiva de imprensa, o Caio lembrou que a sua vice (a qual ele chama de co-prefeita) é a primeira mulher na história da cidade a ocupar o cargo. Disse ainda que vai governar para todos os mogianos e que seus secretários serão técnicos. Agradeceu o apoio de outros candidatos à Prefeitura que o apoiaram e a toda a sua militância. O novo prefeito lembrou ainda que a cidade quis renovação e que venceu o desejo da esperança.

O novo prefeito vai precisar enfrentar alguns desafios.

A Câmara é oposição. Mais da maioria dos vereadores apoiaram o ex-prefeito Marcus Melo. Caio disse que não acredita nessa divisão entre base do ex-prefeito e a dele – para Caio, os vereado precisam pensar no que é bom para a cidade, independente de como funcionaram às eleições. Mas sabemos que nem tudo é assim.

Revisão de contratos? Caio disse que fará isso e em todos. Isso vai mexer com o interesse de muitos empresários da cidade. Vejamos como ele vai lidar com isso.

Rodrigo Valverde e Felipe Lintz vão estar no governo? Essa é uma grande pergunta. Recentemente, vazaram alguns áudios em que o bolsonarista Lintz dizia já ter negociado algumas secretarias. Houve desmentidos, mas nada muito concreto. Sobre Rodrigo, vejamos o que pode acontecer. Ele não fechou às portas, mas disse que tem a possibilidade de trabalhar com o deputado federal Alencar Santana e a voltar a advogar.

O Bolsonarismo e a Esquerda em 2022: como tudo fica para a próxima eleição?

De tudo que neste 2020, acredito que alguns pontos precisam ser pensados:

A esquerda está viva
Depois dos baques recentes que os partidos de esquerda sofreram, o clima de raiva e ódio parece que vem se dissipando um pouco. Ele ainda não acabou, claro, basta ver as dezenas de fake news contra os candidatos de esquerda. Mas sinto que as pessoas estão menos anti-políticas e cansadas de embates duros entre adversários. Aquela brigaiada gigantesca parece que afastou o eleitor e a eleitora que quer, efetivamente, algo de melhor para a sua vida e a sua cidade.

Na Folha de S.Paulo deste domingo, uma reportagem muito boa da Carolina Linhares e Thiago Amâncio trouxe um pouco desse sentimento, quando comentou sobre as estratégias de campanha de Bruno Covas e Guilherme Boulos: “As duas equipes entenderam que quem grita perde – o negacionismo e a agressividade de candidatos bolsonaristas foram derrotados. A fórmula do sucesso, que fez Covas liderar toda a campanha e que foi adotada por Boulos, é a de minimizar ataques e pregar moderação e diálogo”.

O que tudo indica é que toda aquela sangria que vinha do antipetismo está estancada.

Outro ponto importante foi a mobilização das pessoas em prol das campanhas progressistas. Muita gente se engajou, seja nas redes ou nas ruas, para apoiar e fortalecer as candidaturas mais ligadas à esquerda.

A esquerda conseguiu ir bem em vários pontos. O grande desemprego de Boulos (SP), Manuela D’Ávila (Porto Alegre-RS), Marília Arraes (Recife-PE), Edmilson Rodrigues (Belém-Pará), João Coser (Vitória-ES) e Sarto (Fortaleza-CE) mostram que os partidos progressistas estão vivos. Porém, o grande lance disso tudo foi o apoio entre os partidos neste domingo e a chance real de uma Frente de Esquerda contra o Bolsonarismo em 2022.

Em São Paulo, por exemplo, a campanha do PSOL recebeu o apoio do PT, PDT, PCdoB e Rede. O ex-candidato petista Jilmar Tato comandou uma carreta sozinho pela zona sul de São Paulo; trajado com uma máscara do PT, ele pedia “vote 50”. Vale lembrar que Boulos colocou na TV vídeos do ex-presidente Lula, de Ciro Gomes, do governador Flávio Dino e da ex-ministra Marina Silva, tudo pedindo voto para ele.

Em Porto Alegre, as ex-candidatas Juliana Brizola (PDT) e Fernando Melchionna (PSOL) fortaleceram, e muito, a campanha do PCdoB com Manuela D’Ávila.

Um ponto que precisa ser levado em conta para a eleição de 2012 é a perda de protagonismo do PT no campo da esquerda. Os grandes nomes da ala progressista não são petistas. Os dois principais ícones são Boulos e Manu que fizeram campanhas sem a identidade da esquerda, com felicidade e esperança e bastante propositiva – ambas ainda sofreram muito com ataques. Fica o grande questionamento: o PT (e Lula, claro) vão deixar de lado o protagonismo e vão aderir a uma grande chapa contra o Bolsonarismo, mesmo que o candidato não seja petista? Vale lembrar que, nesta eleição, é a primeira vez desde e redemocratização que o PT não elege prefeito em nenhuma capital.

Pensando nisso e em todo o cenário, conseguimos ver a tamanha fragmentação da esquerda. Vários estados tiveram candidatos e candidatas de muitos partidos progressistas e, claro, o voto rachou e deu força para a direita. Como esse racha ser organizado e pensado em 2022?

Se a direita quer fazer uma frente ampla contra o presidente Bolsonaro com Doria, Mandetta, Maia, Huck e quem mais vier, a esquerda já tem braços fortes para também enfrentar o Bolsonarismo. O grande ponto é: quem será o candidato e se todos vão abaixar os egos e pensar no futuro do Brasil.

O Bolsonarismo sofreu um breque
Nas duas principais cidades do país, os dois candidatos apoiados pelo presidente sofreram muito.

No Rio de Janeiro, o atual prefeito Marcelo Crivella até foi para o 2º turno, entre trancos e barrancos. O pastor conseguiu segurar o voto evangélico, mas não teve força para ultrapassar essa barreira da religião. O ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) venceu com 64,07% e mais de 1,6 milhão de votos. Crivella não ganhou em nenhuma zona eleitoral.

Em São Paulo, a coisa foi muito feia para quem estava ao lado do presidente e para quem sempre esteve do lado da extrema-direita.

A começar por Celso Russomanno (Republicanos), o homem de Bolsonaro na capital. No começo de outubro, o candidato aparecia disparado nas pesquisas com quase 30% dos votos. De lá até a eleição, Russomanno despencou ladeira a baixo e terminou com 10% – um tremendo cavalo paraguaio e que passa por isso todas as vezes.

Destaque ainda para um dos maiores nomes do bolsonarismo em 2018, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL) que brigou com o presidente e seu grupo ideológico e tentou se colar mais com a ala Morista e Lavajatista de São Paulo. Com isso, ela teve 1,84% do total ou pouco mais de 82 mil votos.

Quem sai maior do que entrou entre os ligados à direita mais radical é o deputado estadual Arthur do Val (Patriota), o youtuber Mamãe Falei. Ele teve quase 10% da votação, cerca de 522 mil votos. Ao que tudo indica, ele se alinhou mais às pautas neoliberais em São Paulo, mas manteve seu discurso conservador sobre pautas morais e de costume.

No Brasil todo, o presidente Bolsonaro apoiou 13 candidatos à prefeitura. Desse total, menos da metade se elegeu. Ele perdeu em São Paulo, Belo Horizonte (MG), Recife (PE), Manaus (AM), Santos (SP), Sobral (CE), Cabo Frio (RJ), Cabedelo (PB) e Criciúma (SC). Em todos essas cidades, o presidente declarou, publicamente, o seu apoio.

Se pegarmos os vereadores que ele apoiou, foram 45 e apenas 10 se elegeram:
– Alexandre Aleluia (DEM) em Salvador (BA)
– Carlos Bolsonaro (Republicanos) no Rio de Janeiro
– Inspetor Alberto (PROS) em Fortaleza (CE)
– Jessicão (PP) em Londrina (PA)
– Marco Aurelio Filho (PRTB) em Recife (PE)
– Nikolas Ferreira (PRTB) em Belo Horizonte (MG)
– Pastor Junior Tércio (Podemos) em Recife (PE)
– Paulo Chuchu (PRTB) em São Bernardo do Campo (SP)
– Sonaira Fernandes (PRTB) em São Paulo
– Thiago Paes (DEM) em Garanhus (PE)

Tivemos ainda 78 candidatos que usaram Bolsonaro no nome de urna.
Apenas 1 foi eleito – o filho Carluxo.

O interessante é que poucos eram parentes do presidente.
O Carluxo, como já citado, e a ex-mulher Rogéria Bolsonaro concorreram para a Câmara dos Vereadors do Rio de Janeiro. Tiveram ainda dois primos: Marcelo Bolsonaro (DC), em Itu (SP), vice na chpaa de Capitão Dias (DC), e Marcos Bolsonaro, de Jaboticabal (SP), que disputou a prefeitura local pelo PSL e teve 4,01% ou 1.340 votos.

Algumas questões ficam para o presidente:
– O auxílio emergencial salvou a sua aprovação. E sem ele? Como fica?
– A economia não decola e Paulo Guedes já está fritado até pelo mercado.
– Os militares fazem cara de paisagem e fingem que nada é com eles.
– A ala radical está mais quieta, mas bem brava com a reaproximação do presidente com o Centrão (há até a possibilidade dele se filiar nesses partidos para concorrer em 2022). Como que fica essa milícia digital?

O Centro ganha espaço e cresce ainda mais
Ao que tudo indica, as pessoas não quiseram mais a raiva da direita conservadora e bolsonarista, mas também não foram para o lado oposto que é a esquerda.
Nem um extremo nem outro. Caminharam para o meio.
Logo, o Centro.

Partidos como o PP, Republicanos, PSD e DEM ganharam força.
Tanto a Câmara quanto o Senado são comandados pelo DEM.
O vice-governador de São Paulo é do DEM.
As conversas para 2022 são de uma chapa com Doria e os partidos de centro.
Há o boato que o presidente Bolsonaro se filie a algum partido de centro.

Capitais como Belo Horizonte, Campo Grande, Curitiba, Florianópolis e Salvador estão com esses partidos do centro, como PSD e DEM. 

Quem mais cresceu em número de prefeitos de 2016 para agora foi o DEM: 191%.
O PP também avançou bem: 187% a mais quando comparado com o ano anterior.

Quem ganha força neste contexto é a grande chapa que tem se falado contra o Bolsonarismo com nomes de centro-direita: João Doria, Rodrigo Maia, Henrique Mandetta, Sérgio Morro, Luciano Huck… São várias possibilidades e nenhuma, até agora, informação de quem seria o cabeça de chapa dessa turma.

O discurso é: nem a esquerda nem a extrema-direita. Nem PT nem o Bolsonarismo.
A grande questão é se as pessoas vão manter essa tendência do Centro para 2022. 

PP ficou com 685 cidades, 187 acima da eleição anterior.
Conseguiu ganhar nas capitais Rio Branco (AC) e João Pessoa (PB).
A maior força do partido estará no Nordeste, com 288 prefeituras.
Vale lembrar que o PP é do Centrão e tem o deputado Artur Lira como um dos maiores interlocutores da Câmara com o presidente Bolsonaro. Este grande crescimento do PP no Nordeste pode ajudar, e muito, o presidente nas eleições de 2022.

Já o DEM levou 464 cidades, 192 a mais quando comparada com 2016.
Desse total, foram 4 capitais – contra 1 no pleito anterior: o partido ganhou em Salvador (BA), Curitiba (PR), Rio de Janeiro (RJ) e Florianópolis (SC). 
A maior quantidade de prefeituras está no Sudeste: 163.

Alguns partidos ganharam 1 prefeitura.
– Novo: Joinville (SC)
– PMB: Guapimirim (RJ)
– PTC: Pratinha (MG)
– DC: Bom Princípio do Piauí (PI)

O número histórico de abstençõesEsse foi um grande recado para os políticos: muita, mas muita gente mesmo sequer se deu ao trabalho de ir votar. Em Mogi das Cruzes, por exemplo, 31% de abstenção.

Na capital paulista, um terço não foi – são mais de 2,7 milhões de eleitores. Se somarmos os 273,2 mil votos em branco e 607 mil votos nulos, a quantidade dá mais do que o número de votos que o vencedor Bruno Covas teve. E o número veio aumentado nas últimas eleições: em 2004, a taxa de abstenção foi de 15%; depois subiu para 16% em 2008, para 18% em 2012 e 22% em 2016.

No Rio de Janeiro, a abstenção foi ainda maior: 35,45% – mais de 1,7 milhão de votos.

As pessoas estão cansadas da políticas e não se sentem mais representadas.

Mulheres e negros nas Prefeituras
Apenas 8 mulheres foram eleitas prefeitas na 96 cidades mais importantes do país, grupo que junta as capitais e os 70 municípios com mais de 200 mil eleitores onde é possível ter 2º turno.O número representa 8% de participação feminina no bloco. 

No Brasil inteiro, o percentual é de 12%.
Ou seja, a cada 100 prefeituras, 12 são comandadas por mulheres.
As mulheres vão comandar Bauru (SP), Praia Grande (SP), Contagem (MG), Juiz de Fora (MG), Ponta Grossa (PR), Uberaba (SD), Palmas (TO) e Caruaru (PE).

Quando vemos a questão racial, das 25 capitais brasileiras 8 terão prefeitos negros a partir de 2021. Nenhum se declara “preto”. São oito pardos. O número é o dobro do que foi registrado nas últimas eleições municipais, em 2016,

  • Em Aracaju, o prefeito Edvaldo Nogueira Filho (PDT – SE)
  • Em Boa Vista, o prefeito Arthur Henrique (MDB – RR)
  • Em Joao Pessoa, o prefeito Cicero De Lucena Filho (PRO – PB)
  • Em Maceió, o prefeito João Henrique Caldas (PSB – AL)
  • Em Manaus, o prefeito David Almeida (Avante – AM)
  • Em Rio Branco, o prefeito Tião Bocalom (PRO – AC)
  • Em Teresina, o prefeito Dr. Pessoa (MDB – PI)
  • Em Salvador, o prefeito Bruno Reis (DEM – BA)

Vejamos alguns mapas eleitorais

Brasil e suas cores

Bruno Covas venceu onde Bolsonaro ganhou.
E Boulos levou onde Haddad se deu melhor.

O mapa da esquerda é a da eleição deste domingo e o da direita é o das eleições para presidência em 2018. As cores mais fortes são, respectivamente, de Bruno Covas (mapa da esquerda) e Jair Bolsonaro (mapa da direita).
Ou seja: o eleitor bolsonarista foi junto com Covas contra a esquerda.

São Paulo e a predominância do azul tucano e dos partidos de centro-direita.
O PSDB domina o estado, mas tem a concorrência de partidos como o DEM e o MDB. Mas nada que tire o sono do governador João Doria.
Por outro lado, a esquerda praticamente não existe no estado. O PT ganhou em 4 cidades: Matão, Araraquara, Diadema e Mauá. O PDT conquistou 3: Mogi Mirim, Oriente e Assis. O PSOL levou em 1: Marabá Paulista. 

Rio de Janeiro é um retalho de cores.
Destaque para algumas cidades em branco onde a eleição está sob judice. Casos de Campos, Petrópolis, Magé, Duque de Caxias, entre outros.
Interessante a vitória do PSC em algumas cidades como Teresópolis, Rio Claro, Piraí, Italva, Cordeiro, Quatis e Itatiaia. A esquerda ganhou muito pouco. O PT ganhou apenas em Maricá. O PDT levou em Carmo, Cabo Frio, Niterói e Japeri. PSOL não levou em nada.

Partidos dos Trabalhadores (PT) espalhados pelo Brasil

PSDB x DEM

PP x MDB