#055 – Entrevista exclusiva: Caio Cunha e Priscila Yamagami, novo prefeito e co-prefeita de Mogi das Cruzes

Caio e Priscila na entrevista coletiva logo depois do anúncio da vitória nas eleições.

Tive o prazer e a honra de conversar por 1 hora com o novo prefeito Caio Cunha e a sua vice (mas chamada de co-prefeita) Priscila Yamagami.

O Caio eu já conhecia da sua atuação política e das conversas pela cidade de Mogi.
A Priscila eu não conhecia e tive uma ótima impressão dela.

Durante esse tempo que passamos sentados em uma mesa no QG deles de campanha, falamos muito sobre o que eles acreditam conceitualmente e menos de propostas reais. Talvez alguns se decepcionem com isso porque alguns temas importantes ficaram de fora, como a questão da Secretaria de Verde e Meio Ambiente que ele pretende extinguir. Mas eu chequei e a informação veiculada no jornal Mogi News, segundo o Caio, é que “não é a extinção, é a readequação. Ter a secretaria não quer dizer que o tema é bem tratado no município. Fui do Partido Verde e faço parte do Raps (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), então sei da importância do tema. É apenas uma readequação administrativa”.

Muita gente me perguntou sobre os próximos secretários e as mudanças nas pastas.
Ao que tudo indica, fica o atual secretário Cláudio de Faria Rodrigues da Secretaria de Planejamento Urbano (e a de Obras deve se unir). Devemos ter mudanças nas pastas de Educação, Segurança, Transportes, Assistência Social e Esportes – mas tudo ainda sem nome. Na Saúde, o novo prefeito disse que gosta do trabalho do Dr. Henrique Naufel, mas segundo o Mogi News, Caio Cunha disse que tem outra pessoa como prioridade – e eu tive informações de que ele não vai continuar.

Temas importantes para mim como a atuação da GCM, as pessoas em situação de rua e as reintegrações de posse em Jundiapeba ficaram de fora por uma questão de feeling e tempo. Mas vou tentar trazer mais respostas para vocês.

Agradecer muito ao Caio e a Pri e também a Jú Nakagawa que organizou esse bate-papo para mim. Aproveitem!

A cidade de Mogi das Cruzes sempre teve o mesmo grupo político comandando há décadas. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), você gastou pouco mais de R$ 360 mil, um terço do que o então prefeito Marcus Melo (PSDB) gastou. O tucano tinha a máquina, os comissionados, o apoio de outros prefeitos. A pergunta que fica é: por que você ganhou?

Caio Cunha – Eu ganhei por causa das pessoas. Não tenho dúvidas de que não foi só o Caio e a Pri, entendeu? A gente, na verdade, representou um momento de mudança e nosso projeto se encaixou nesse sentimento. Pelo menos nos últimos 35 anos, nunca teve um projeto que representasse de fato uma oportunidade de mudança. Quando a gente fala que o nosso projeto tem a ver diretamente com as pessoas é porque de fato tem a ver com elas. A gente quer ouvir as pessoas e quer conectar elas. Para a gente estar nessa, a gente se colocou no lugar dessas delas e a gente faz parte dessas pessoas comuns que entenderam que, para mudar a política local e, principalmente, para ressignificar o conceito da nossa cidade que é conhecida como o “berço do Mensalão”, a gente tinha que ocupar esse espaço. Então, o que fez a gente ganhar: estar no momento certo, com o projeto certo e falando diretamente com as pessoas.

Por isso que você fala que “Mogi venceu”? Você não acha que foi o Caio? Eu lembro que assim que saiu o resultado e você foi carregado nas costas, as pessoas gritavam “Caio, Caio…” e você rapidamente corrigiu e começou a gritar “Mogi, Mogi…”. Você acha que a cidade venceu no que? O que a cidade vai ter de novo para, efetivamente, a cidade ter vencido?

Caio – Eu acho que a gente rompeu com alguns grilhões. É o que você disse no começo: um grupo estava dominando a cidade. Eu não sei se é um grupo ou se é uma cópia constante da mesma coisa, da mesma forma, ou um conceito que sempre privilegia os mesmos e que sempre trabalhou em cima de alguns. Então agora, na verdade, o que a gente quer fazer e talvez essa seja a grande inovação é fazer o óbvio: a cidade é das pessoas e as pessoas estão espalhadas pela cidade. Elas não estão apenas na Vila Oliveira, elas não estão no Centro. E as pessoas são diferentes, com diversos credos, etnias, orientações sexuais diferentes, com tudo. Chegou a hora do cidadão mogiano ter voz, ser escutado e começar a protagonizar junto com a gente. Essa é a essência que eu carrego desde o começo.

E isso está totalmente ligado ao seu mote que é “Vamos Ocupar a cidade”. Como, de fato, essa ocupação entra na cidade? Você acha que é essa inversão de prioridades? Você acha que é investir no que nunca foi investido? Queria que você falasse como, de fato, o seu conceito político vai ocupar a cidade.

Caio – Acho que tem muito mais a ver com a forma do que no que fazer. A forma de ampliar o diálogo, de dar acesso, de conduzir a cidade priorizando as pessoas e não utilizando a máquina pública como balcão de negócio ou como plataforma de poder. Essa forma que a gente prega porque, ao contrário disso, essa forma que é um grande conceito da nossa inovação.

Priscila – Ai que eu acho que faz o sentido da co-prefeita. Sou muito da escuta. Onde eu estou, sou da escuta. Claro que não vou conseguiu ouvir os 450 mil pessoalmente. Gostaria, mas não vou dar conta. Eu poder, nesse papel de expectativa de que só quando o Caio for viajar, eu vou atuar, não. Enquanto ele está aqui presente, eu vou estar escutando as pessoas. Até alguém perguntou: “Pri, como vai ser o seu gabinete?”. Eu não quero gabinete. Eu quero rua. Eu tento trazer um posicionamento conceitual dele de que “vamos ocupar” como? A Pri está lá e eu quero esse papel.

A gente tem uma sensação de que político é muito longe e quando vocês falam em “ocupar”, isso aproxima demais.

O quão importante foi a presença da Pri para a vitória do projeto?

Priscila – A professora ela é por natureza acolhedora, maternal e é mulher e isso tem um peso. O momento é dessa chave virando..

Caio – A Pri, na verdade, veio com todos os elementos. Ela é muito completa. O fato de ser mulher, obviamente, que agrega muito, mas não foi exatamente por isso. Foi porque ela é. Pela história dela e pela questão do projeto. E vice sempre foi uma figura de barganha e, por isso, sempre foi muito decorativa. Como que foi a decisão da escolha? O grupo já estava falando organicamente dela e o lance de bater o martelo foi quando estava conversando com minha esposa e ela disse: “Caio, pensa agora: vamos supor que você morra ou que aconteça alguma coisa, quem que pode te substituir para dar continuidade?”. Na hora: a Priscila. Ela já está com a gente construindo isso. Embora eu esteja na frente mais visível, ela sempre esteve por perto e participando. A Pri veio, na verdade, com o lance da competência, da confiança, do propósito e do lance de ser mulher somou.

Como que vai funcionar a co-prefeita? O vice sempre foi um ícone na estante. Como que vai ser a sua função no dia a dia?

Priscila – O que eu puder ajudar, suprir, decidir junto, essa vai ser a minha função. Já estou recebendo as pessoas, conversando com lideranças, com segmentos que estão mais ligados a minha área e que eu posso contribuir. É muito de complementar ele. Estou aqui para servir o prefeito, as pessoas e fazer essa conjunção. E a gente se admira muito. A gente tem uma relação de confiança e de admiração e isso é muito importante. É fidelidade e lealdade. Eu quero ajudar! Precisa de mais um braço? Estou aqui!

Se a Pri está no projeto, ela entende muito como funciona a sua [Caio] cabeça e entende o propósito.

Priscila – Muitas vezes eu penso uma coisa e ele vai e faz. Eu penso: “Em algum momento eu falei isso para o Caio?”. Ou estou pensando uma coisa, ele vem e coloca isso. A gente tem uma sinergia muito legal.

Caio – A gente tem sinergia, mas a gente é diferente em diversos aspectos. Isso que é muito louco! As diferenças pra gente pouco importam. Na verdade, elas importam porque elas acabam agregando.

Muito se fala na questão da renovação da Câmara. Você disse na sua coletiva de imprensa da vitória que você não acredita nessa divisão entre “base” e “oposição”, mas a gente sabe que é assim que funciona. Como vai ser a sua relação e o seu diálogo com a Casa para que eles atuem pelo bem da cidade e não no bem próprio?

Caio – Não vai ser uma coisa fácil. Existe um modelo já posto que é o mais cômodo. Mas eu acho que a Câmara hoje, por causa dessa renovação e de alguns players de peso terem saído, essa Câmara tem a oportunidade de mudar o conceito de atuação. Tem muita gente me procurando e falando: “Caio, a gente precisa definir quem vai ser o presidente da Câmara”. Desculpa, o BO é de vocês. Eu sei que é bom para a minha base, mas vocês têm autonomia para isso. Não posso impor. A grande mudança de mindset que talvez aconteça com o tempo é que eu quero que eles me fiscalizem e isso é importante pra mim. Quero que me critiquem, mas obviamente de forma construtiva, propositiva, com base e não falando qualquer coisa e nem para se promover. Acho que a Câmara pode ser uma grande parceira na Prefeitura e, ao mesmo tempo, manter a sua independência.

Você acha que a co-prefeita pode fazer essa interlocução com a Câmara?

Caio – Com certeza. A Pri, na verdade, a função dela é ser a minha extensão.

As pessoas falam muito de problemas na cidade. Qual você acha que é o problema que você mais precisa resolver? Qual você acha que seja o principal problema da cidade?

Caio – Seria muito imaturo da minha parte falar em resolver problemas. Acho que a gente tem que começar a resolver. Os problemas existentes são de décadas e um exemplo disso é a própria justiça social. Existe uma Mogi invisível. O lance, na verdade, é mais do que ser assistencialista. É dar oportunidade para que essas pessoas tenham acesso a um crescimento financeiro, intelectual e por ai vai, cada um de acordo com a sua história. Acho que a gente precisa começar esse processo de redução da injustiça social em Mogi que, na minha opinião, nunca foi feito. Essa é a verdade. Isso é fácil de resolver? Não é fácil de resolver. Outro problema sério e que a gente pode fazer muita coisa é que eu não quero que meu filho e seu filho precisem trabalhar fora da cidade. Mogi é uma cidade de meio milhão de habitantes. A gente precisa trazer novas empresas para cá e deixar a nossa cidade mais atrativa para que empregos sejam gerados aqui e a próxima geração não precise sair da cidade.

E como gerar emprego?

Caio – A nossa cidade já tem diversos atrativos pela sua localização, por exemplo, que é perto do aeroporto, das principais rodovias, do litoral e da capital. A gente tem duas universidades, fora as faculdades. A gente tem um capital humano incrível, tanto é que a gente exporta, todos os dias, gente para ir trabalhar em São Paulo. A grande questão é organizar o ambiente e fazer com que o seja favorável, tanto com incentivo fiscal quanto com diálogo. A Secretaria de Desenvolvimento Econômico é a secretaria de maior articulação da Prefeitura e que vai chegar no empresário, na faculdade e falar: “Você tem uma empresa tal? E precisa gerar qual tipo de profissional?” . Vou dar um exemplo da minha área: se você tem uma empresa de desenvolvimento de sistema, não adianta você estar desenvolvendo em dot.Net e o cara está formando em Phyton. A pessoa vai trabalhar em São Paulo! Ter essa sinergia é função da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e é tudo muito solto, só vai fazendo. É fundamental também ter a fomentação e a preparação do empreendedor mogiano. A cidade de Mogi tem uma veia empreendedora, mas a galera não sabe disso. As pessoas empreendem sem saber o que fazer, vai no tranco, e às vezes por causa disso ela acaba se dando mal.

Na Educação, você fala de ter aula de Empreendedorismo e de Educação Financeira. Teve uma polêmica recente sobre a “professora validaora”. Queria que vocês falassem como será a Educação daqui pra frente. 

Priscila – Antes não tinha diálogo e a gente já abriu esse canal para começarmos a trazer ideias novas. A gente tem start ups de Educação que podem vir. A gente tem muita solução já rolando em outras cidades e que aqui sempre foi fechado porque nunca teve uma vontade de fazer. Nem é uma questão financeira. Falta vontade de olhar o que está sendo feito ai fora.

Caio – O problema da Educação e da Saúde não é financeiro. É de gestão.

E essa questão da professora validadora?

Caio – Na nossa época, a gente ia para as nossas mães e pais e falava assim: “O pai o que é isso aqui?” Hoje, os meus filhos já não falam mais isso. Eles já falam: “O pai, você você viu que aconteceu isso, isso e isso? É assim mesmo?” Ou seja: eu não sou um detentor mais do conhecimento. Hoje as crianças não precisam só de alguém que passe o conhecimento, mas alguém que facilite com que elas aprendam e falem assim “isso aqui é assim, isso aqui é assado”. É como a mídia impressa que dá credibilidade para a notícia. A ideia, na verdade, é que a Educação precisa se inovar. A pandemia ela mostrou o quão atrasado a gente está na Educação. Ela veio para forçar uma retomada.

Priscila – Você tem os conteúdos de Harvard, USP, GV, Insper, todos ai dentro do celular. Hoje um aluno ele não precisa pagar uma universidade porque ele tem o conteúdo técnico aqui no celular. Só que o aluno tem esse conteúdo e essa informação, mas ele precisa transformar em conhecimento para poder aplicar onde for atuar. E o professor não vai apenas transferir conteúdo porque isso já está sendo feito via mídia. É de como destinar aquilo, fazer uma curadoria e uma validação na aplicação prática para a vida real. Isso traz muito mais as habilidades comportamentais que é um solucionador de problemas, por exemplo, e o professor vai te ensinar isso. Ele não vai só “1 + 1 é 2”. Não. Isso já está lá. Mas sim como você vai aplicar isso e esse é o papel do professor. É mais complexo e mais nobre. É pensamento crítico. A gente fala muito em doutrina partidária em sala de aula. Se você desenvolver o pensamento crítico do aluno pequeninino, você não doutrina esse cara porque ele vai questionar até o professor, o livro, o partido… Eu falo para os meus alunos: “Duvidem de mim!”. Você precisa ensinar o pensamento crítico desde pequeno e ai você não tem doutrina. “O lado direito fala assim, mas o esquerdo fala assim e se a gente juntar? Será que não dá um samba?”. Essas são habilidades comportamentais que o professor tem que se focar hoje.

Mas o quão possível é isso?

Caio – Não é uma loucura. É possível fazer!

Priscila – É possível na prática. Vou te dar um exemplo. Sala de aula e você obriga o aluno a ler um livro e ele faz uma resenha. Mas aí você traz um cliente e fala para o aluno que ele vai fazer o Plano de Comunicação Integrada desse cliente, ok? Ele vai partir para a prática sem o fundamento. Como ele fica? Em pânico. Ele vai buscar o fundamento para aplicar e aquilo está dentro do contexto dele: senso crítico, resolvedor de problemas, habilidades de gerenciar e coordenar equipes, comunicação… Você traz todas as habilidades comportamentais porque a técnica está no livro e no celular. Mas quem que faz essa baliza de colocar tudo isso junto dentro de um projeto? O professor!

E vocês querem colocar isso dentro da Secretaria de Educação?

Priscila – Eu já faço isso a muito tempo. Só que hoje, na rede, é muito assustador. Por isso tem que ir trabalhando em doses homeopáticas. O professor tem que ter essa habilidade porque muda todo o cenário. Isso tudo tem muito a ver quando a gente fala da ampliação do horário das creches, por exemplo. Você não vai depositar a criança e deixar ela 8, 9, 10 horas na creche. Você vai trazer esse tipo de atividade, de espaço e de comportamento para essas horas a mais. Isso muda o conceito de creche em qualidade e não em quantidade. Isso tudo você altera formação.

Caio – E a gente está correndo um risco, na verdade. A gente quer formar uma geração com uma massa crítica e, com isso, vai ser difícil dela engolir qualquer coisa. 

Priscila – Mas por que isso? É para ter um país competitivo. A burrice ela não é bacana. “Ah, mas o sistema quer a burrice?” Não! A gente não está mais competitivo mundialmente falando. Pega esses ninjas de análises de sistema que são nossos alunos: eles estão indo embora para o Canadá, Austrália, Estados Unidos… O país está perdendo. Está virando prejuízo econômico e posição geopolítica. A gente não está competitivo. A gente precisa dessas mentes. O que é o Vale do Silício, os EUA? É por grana, colocar mentes brilhantes da Índia, do Brasil, de outros países, e incentivar. Por que eles são tão bons? É tudo americano? Claro que não. A gente precisa mudar essa mentalidade e isso é desde pequeno. Para o professor, a gente não vai goela abaixo. Ele vai entender devagarinho. Lidar com professor é preciso essa habilidade, ainda mais em uma rede municipal que está há anos luz lá atrás, e você vai em doses homeopáticas, você vai trazendo para o projeto. É importante ainda a gente criar um elo de confiança entre a gestão pública e a liderança com o professor. Hoje não tem esse elo. Hoje eles jogam um contra o outro. A gente tem que acolher, abraçar e dizer “você está seguro. Vamos juntos”.

Caio – E acho que tudo está muito favorável. A pandemia proporcionou isso. Ela mexeu com todas as áreas. Com a religião, com as relações, com a Educação, com a economia, com tudo. É em um ambiente onde tudo está caótico, que é mais fácil você implantar algo novo. Eu não sei se você crê nisso, mas eu acredito na espiritualidade, que Deus deu a oportunidade pra gente fazer um negócio muito louco. Inclusive estourou esses pepinos dos vereadores presos para inclusive mexer na Câmara. Olha que coincidência maravilhosa: eu ser prefeito e os caras não estão na Câmara. 

Você tem uma questão religiosa que todo mundo sabe. Enquanto eleitor, não lembro disso ser um grande empecilho no seu mandato, mas a gente sabe que as pessoas se preocupam com isso. Eu queria que você falasse sobre o quão “irrisório” vai ser a sua religião em relação ao seu mandato e em como você vai se relacionar com os movimentos de matriz africana.

Caio –  Para mim, a religião não é irrisória. Para mim, é fundamental. Hoje sou o que sou pelo o que aprendi em ser um ser humano melhor por conta de Cristo. Odeio extremismo e odeio rótulo. Isso já me difere de muita gente e até isso é péssimo pra mim. Seria muito mais fácil, por exemplo, ser o cara gospel. Eu venceria eleições mais fáceis. Isso tudo é importante para mim porque tem a ver comigo e com a minha relação com Deus. Caio e Deus. Isso é muito íntimo e muito pessoal. Agora, eu sou prefeito de uma cidade diversa nas suas crenças, formas de cultura e de expressões religiosas. Naturalmente, eu tenho que respeitar todos. Você sabe que eu sou cristão não porque um dia eu falei pra você “olha, eu sou cristão, viu?”. Nunca fiz questão disso porque eu odeio rótulo. Prefiro que as pessoas descubram pelo o que eu sou e pelo que eu faço do que pelo rótulo. Algumas pessoas que tem título e tem rótulo e tem péssimos exemplos tanto na política quanto em outras áreas. Acho que religião é algo de muito cunho pessoal que não tem como dizer que isso interfere positivamente na minha gestão. É impressionante como as pessoas discutem mais o que tem menos na Bíblia e menos o que tem mais. A Bíblia é um livro recheado de respeito ao próximo, de amor, de união e Cristo pregou isso. A igreja evangélica, e até os católicos, pregam muito o que a Bíblia prega pouco. A coragem hoje ela está em quem traz esses extremos para uma mesa de centro. Da mesma forma que há um radicalismo religioso, há um radicalismo do movimento LGBT, afro e por ai vai. Na verdade, todos nós precisamos de uma desconstrução cultural para que haja o mínimo respeito. Da mesma forma que líderes do movimento LGBT, de forma proposital, provocaram que eu sou a favor da cura gay. Esse extremismo não é bom para ninguém.

Mas você pretende ter diálogo com os movimentos afro e LGBT?

Caio – Como que eu não teria? Não posso nem dizer que eu sou obrigado. Isso faz parte da minha essência. Eu fui o vereador, embora não seja reconhecido por isso, que mais recebeu movimento afro e LGBT. Um exemplo é a cultura da congada que eu achava que era apenas ali da Festa do Divino, mas é um negócio muito gigantesco. A galera de Minas chama os caras para irem para lá. Como que a gente não tem que valorizar isso?

E a Cultura e o Esporte? Ela vem melhorando, mas como a gente descentraliza? Como a gente leva isso para as pessoas?

Caio – Ela melhorou em equipamento e no diálogo. Neste contexto, por isso que eu falo que a Educação é transversal. Para mim, Cultura e Esporte tem tudo a ver com Educação. Sou formado no esporte. Meu pai quebrou, eu estudava em escola particular e ia para uma escola pública. Ganhei uma bolsa por causa que eu jogava basquete. Foi no basquete que eu aprendi coletividade, liderança.. Eu era armador. Aprendi a liderar os caras e a montar cenário. O jiu jitsu me deu resiliência e disciplina. Isso faz parte da formação do indivíduo. E Cultura, para mim, é muito mais que equipamento e é muito, mas muito mais que entretenimento. A gente não pode admitir que a Cultura seja o show da Anitta. Faz parte. Isso é muito louco e legal. Mas não pode ser só isso. O hip hop, o maracatu, a história da imigração japonesa e da congada tem que estar na escola. Eu não aprendi isso na escola.

Você acha que é dar espaço? Oportunidade? Incentivar? Escola?

Priscila – É na escola. A Jú do canal Mogi Terra do Caqui ela levou para a Secretaria de Cultura e eles não deram a menor… Era um canal que abarcava todas as manifestações culturais e eles “Ah, mas não foi a gente que criou”. Precisa também deixar de lado a vaidade e essa coisa política não de ideias com bandeiras e não é isso. A gente não tem tempo pra vaidade. Quer colocar o nome do Caio, o meu, o de outro, põe. Faz! Isso precisa parar e isso impede muito que as coisas aconteçam na cidade. É uma nova forma de fazer. Todo mundo ganha.

O foco é Educação então né?

Caio – Aquele lance que a Educação que transforma o mundo é verdade. Mas por que a Educação transforma o mundo? Porque é muito mais fácil a gente ensinar e preparar uma criança que tem 5 ou 6 anos, ou 10 e 12 anos, do que chegar para o meu pai e o seu pai que tem 60 anos..

Priscila – A gente faz também. Mas o pequeno ele é uma esponja. É mais fácil.

Caio – Enquanto a gente está preparando a cidade para ter mais emprego e ter mais renda, a gente está preparando esse mogiano para daqui a 10 anos e ai ele vai ter o primeiro emprego. A gente quer adultos protagonistas, críticos e que estejam atendendo a demanda do mercado.

Quando vocês falam em ocupar…

Caio – Sou bastante criticado por isso, sabia? Tem um lance muito na esquerda…

O brasileiro e o mogiano não têm o costume de ocupar o espaço público e estar nesses locais é entendido como coisa de vagabundo – como ficar sentado em uma praça, por exemplo. Você entende esse “ocupar” como estar de fato nesses espaços?

Caio – Por que o maior centro de tráfico de drogas é no quintal da Prefeitura? Porque o espaço não é ocupado. Por que não ocupar aquele espaço com arte, com esporte e cultura? A gente tem espaço e equipamento para isso. O problema é que as pastas não se conversam. O Centro Cívico é administrado pelo Esporte, mas não tem conexão com a Cultura nem a Educação. Pega esse monte de ônibus parado e leva lá no Parque Centenário…

Priscila – E isso tudo é uma aula. Quando eu falo de acabar com a sala de aula que é o que eu acredito de verdade é que não precisa de parede. Você vai para o Parque Centenário, você tem uma baita de uma aula. A praça você vai ter aula. A criança vai aprendendo e não vai percebendo. É natural. Eu ocupei a vaga de vice. Dormi professora e acordei vice. 

Sobre a Covid: como vai ser nesta 2ª onda?

Caio – A nossa cidade não suporta um novo isolamento total. Acho que a gente leva uma vantagem porque a gente aprendeu com os profissionais da Saúde com essa fase que a gente está passando. As nossas decisões serão em cima de evidências e com equilíbrio em cima da saúde e da economia para não gerar um caos social. Eu falo por mim: não faço regime radical porque a hora que eu espanar, espano de vez. O que aconteceu? Quando você isola todo mundo, ninguém sai de casa e aquele terrorismo, olha hoje: a galera não respeita, já não existe mais pandemia. Não dá para radicalizar, mas tem que ter protocolos rígidos. A gente tem um grupo de especialistas com a gente já discutindo a questão da Educação Híbrida, por exemplo. É uma oportunidade para a gente mexer na Educação, por exemplo. A gente, na verdade, mais a Pri, já tem criado algumas formas de fortalecer o comércio local caso tenha alguma redução e como ele pode se superar. E isso não teve na cidade: fecha ai e acabou. Sem suporte nenhum.

Priscila – A gente precisa capacitar, trazer formação. Há outros canais, como as formas online, mas ai precisa ensinar. Não é só colocar um e-commerce. Precisa ensinar a fazer. Tem ainda o acesso ao crédito…

Caio – A gente está trazendo algo que eu ainda não sei quando vamos conseguir implantar que é o programa Mogi Supera, só que ele requer diversas questões jurídicas na cidade para implantar. É um programa sensacional e uma cópia do Niterói Supera e que nada mais é que um fundo de financiamento público para o micro e pequeno empreendedor a juros zero. A Prefeitura assume o risco para que esse cara tenha poder de se recuperar nesse período.

Priscila – Era o que eu falava no Conselho Municipal de Inovação: não adianta você dar o dinheiro e ele não saber fazer. Precisa dar o dinheiro e ensinar ele a fazer. Ai você fecha a roda.

+Mogi Ecotietê. Importante para o desenvolvimento da região de Cezar de Souza, geração de empregos, queda de congestionamento… Talvez seja difícil revogar esse contrato, mas você foi bem crítico ao projeto. Queria que você falasse sobre ele. Você quer rever? Dá para melhorar?

Caio – Você viu o projeto?

Não

Caio – Nem eu. Ele não existe. Ele é um memorial descritivo, justificativo e imagem em 3D. Ele não tem projeto executivo ainda. São 69 milhões de dólares e é muita grana. Minha crítica é: primeira coisa ele é muito mais um produto de marketing do que uma necessidade. Eu não sei se, de fato, ele resolve o problema de mobilidade de Cezar de Souza e Botujuru. Minha crítica também é a questão da crise financeira com o dólar nas alturas e a gente precisa ver porque já foi feito. Quando falam Ecotietê, legal. Mas você sabe porque estão fazendo aqueles parques? Por causa de uma compensação. Ele vai ferrar as matas ciliares e vai transpor o Rio Tietê. E quando a gente fala em recuperar o Tietê, a gente vai gerar um impacto ambiental ali. E ai falam que eu vou retirar a Secretaria do Verde e Meio Ambiente, mas a outra coisa ninguém está preocupado. Além de tudo isso, tem quem de fato essa obra vai beneficiar? A população de Cezar e do Botujuru ou a especulação imobiliária? Por que teve várias pessoas que compraram terrenos na região já sabendo que teria esse empreendimento?

Mas você acha que seria uma obra necessária?

Caio – Ai entra outra coisa que a gente precisa mudar. A cidade de Mogi ela vem sendo construída como um tecido de pet work: em retalhos. E isso é um problema e é por isso que tem enchente, falta de emprego, trânsito. Estão construindo um projeto de muito tempo que é praticamente uma cidade ali na Fazenda Rodeio. É muito grande. E qual o projeto viário para aquilo? O +Mogi Ecotietê não vai suprir. Será que esse projeto, de fato, ele vai suprir essa necessidade daqui um tempo? Não vai. Talvez quando construir, já vai ser desatualizado. Precisa, na verdade, melhorar a mobilidade de trem até Cezar? Não sei. Mas uma via rápida… A gente precisa, na verdade, fortalecer o transporte em massa para que as pessoas usem menos carros. A gente precisa valorizar os diversos modais e construir vias não como remendo, mas como alternativa futura que potencialize melhor o fluxo.