#062 – #VaiTerGolpe?

O chicote estralou nos EUA – e foram os conspiracionistas que comandaram

Foto: Saul Loeb/Agence France-Presse — Getty Images

Toda a invasão do Capitólio nos Estados Unidos foi comandada e organizada por grupos da extrema-direita norte-americana. O importante aqui é lembrar que essas pessoas não são todas iguais – elas são diferentes entre si. Há grupos supremacistas brancos, nazistas, QAnons, negacionistas e por ai. O que une toda essa galera é o apoio ao presidente Donald Trump e tudo que envolve os seus pensamentos.

Durante todo a invasão, um homem ganhou destaque. Ele vestia uma grande roupa de pele e uma espécie de capacete com chifres. Trata-se de Q-Shamam e Q-Guy, um conspiracionista da extrema-direita de 32 anos e nascido no Arizona. Seu nome é Jake Angeli. Um fato que chamou muito a atenção foram as suas tatuagens – uma delas, que mostra triângulos entrelaçados, é o símbolo Viking de Valknut, uma referência ao wotanismo, uma ideologia valorizada pelos nazistas, segundo a Carta Capital.

Segundo informações da Carta Capital, em entrevista concedida à ORF (mídia pública austríaca) durante um comício no Arizona, o militante deu sua visão sobre a corrupção nos mais altos escalões dos governos: “Em todo o mundo, os países são ocupados por instituições bancárias centrais, que que emprestam dinheiro aos governos, o que lhes permite dominar todas as engrenagens socioeconômicas e geopolíticas do país”.

De acordo com Angeli, ainda, “bilhões de dólares estão sendo usados ​​para criar toneladas de bases subterrâneas, onde eles têm tecnologia de ponta ultrassecreta”.

“Eles sabem como criar energia infinita, uma tecnologia antigravidade, produzir a inércia e proporcionar avanços na clonagem e outras coisas malucas”, afirma. O nacionalista teme a criação de uma “nova ordem mundial” e diz ter encontrado essas descobertas por meio de pesquisas na internet.

Outro fato bastante marcante foi a morte de uma mulher durante a invasão – ao todo foram quatro pessoas. A primeira falecida a tiros foi Ashli Babbitt, de 35 anos, natural da Califórnia, veterana da Força Aérea norte-americana e seguidora dos QAnon. Babbitt serviu no Afeganistão e no Iraque, antes de participar de outros deslocamentos com a Guarda Nacional para o Kuwait e Qatar, disse o ex-marido Timothy McEntee.

De acordo com o Washington Post, antes de sua morte, ela usou as redes sociais para expressar apoio fervoroso ao presidente Trump e ecoar muitas das teorias de conspiração do presidente, como as falsas alegações de fraude eleitoral. “Nada vai nos parar! Eles podem tentar, tentar, tentar, mas a tempestade está aqui e está caindo sobre DC em menos de 24 horas”, disse Babbitt pelo Twitter. Em 7 de setembro, Babbitt postou uma foto dela mesma em um desfile de barcos pró-Trump com a hashtag “WWG1WGA“, uma referência ao slogan da QAnon, “Onde vamos um, vamos todos“.

O tuíte de Babbitt deixa claro a sua ligação com o movimento QAnon. Segundo os seguidores da conspiração, haverá um dia – chamado de “the storm” – que caberia ao presidente Trump desmascarar o grande acordo global de políticos, empresários, famosos, a imprensa e qualquer outra pessoa que seriam adoradores do Satanismo e da pedofilia. O pensamento Q diz que o presidente republicano, então, estaria travando uma guerra global e ele seria o grande salvador. (para entender um pouco mais, falei sobre a teoria na newsletter #039)

Desde que foi eleito, o presidente Trump nunca se distanciou desses movimentos negacionistas e extremistas – muito pelo contrário. Sempre buscou se aproximar e apoiar. Em novembro do ano passado, a republicana Marjorie Taylor Greene foi eleita para a Câmara dos Representantes pela Geórgia com um discurso abertamente Q e apoiada por Trump.

Além disso, o presidente retuitava muita coisa Q, aplaudia e elogiava em seus comícios as pessoas apoiadoras do movimento e chegou a receber representantes na Casa Branca. Importante ressaltar que um dos maiores símbolos do Q é Michael Flynn, ex-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA e muito próximo de Trump. Matéria da CNN norte-americana repercutiu um vídeo postado por Flynn totalmente com a temática Q.

A fácil invasão deixa uma pulga atrás da orelha. Havia pouco policiamento? As forças de segurança facilitaram a ação? Muita gente comparou com o tratamento dado para os extremistas e os manifestantes do Black Lives Matter.

Há semanas os conspiracionistas pró-Trump estão comentando e se organizando nas redes sociais para estarem em Washington no dia do caos. De acordo com o site Axios, eles discutiam um ataque ora abertamente ora com termos vagos. Muitos extremistas pediam, explicitamente, que as autoridades fosse abduzidas ou executadas. 

Para os seguidores Q, a hora era perfeita, pois estavam recebendo o chamado constante do salvador Trump; era a hora do ajuste de contas com seus inimigos. Eles tinham a certeza que o presidente sabia que o momento certo era aquele para, segundo o Axios, “derrubar o martelo sobre seus inimigos”. Para os Q, o tempo estava acabando com a certificação da vitória de Joe Biden e, por isso, a data de 6 de janeiro se tornou o ponto focal de uma nova conspiração: seria naquele dia que Trump iria revelar as evidências de fraude eleitoral e invalidar a vitória democrata. Mas nada disso aconteceu.

O jornalista Evan Osnos contou, com maestria, como foi a entrada das pessoas no Capitólio. Texto primoroso na New Yorker.

Uma discussão que apareceu é se foi ou não golpe.
Em entrevista a BBC Brasil, o professor de governabilidade da Universidade Harvard, Steven Levitsky disse a invasão do Congresso foi uma resposta a “quatro anos de descrédito e deslegitimação da democracia” por parte do Partido Republicano e de Trump. Levitsky é coautor do livro Como as Democracias Morrem.

Levitsky descreveu a invasão do Capitólio por apoiadores de Trump como uma “tentativa de autogolpe”. Para ele, “a grande diferença entre esse autogolpe e os autogolpes na América Latina é que Trump foi completamente incapaz de obter o apoio dos militares” e “um presidente que tenta permanecer no poder ilegalmente sem o apoio dos militares tem poucas chances de sucesso“. Leia a entrevista completa.

Ao meu ver, hoje uma tentativa de caos social por parte de Trump. Ele sabia o que estava acontecendo e quis mostrar a sua força popular para o establishment. O presidente mostrou, com unhas e dentes de seus extremistas, que o Trumpismo está muito forte dentro do Partido Republicano e que ele consegue mobilizar uma grande força popular a partir de suas mentiras e loucuras. Se ele queria dar um golpe, eu não sei. Agora, pensando mais friamente, acredito que tudo foi um grande show de horrores como posicionamento dentro do xadrez político norte-americano.

O presidente Trump passou tanto do limite que o Twitter, Facebook e o Instagram bloquearam as contas do presidente. O G1 contou sobre isso.

Na revista piauí, uma reportagem fala sobre o fim da ilusão americana. Mesmo fracassada, a escalada autoritária de Trump inspira populistas no mundo – e abalada a tese do excepcionalismo americano de que não há golpe em inglês.

O que muita gente questionou foi a relação do ato com o Brasil – sabendo da paixão de Bolsonaro pelo Trump e da subserviência do nosso país com os norte-americanos. Ao meu ver, tem muita coisa pra gente se preocupar.

Acredito que os fatos acontecidos nos Estados Unidos podem ser inspirar a direita mais extremista brasileira – ligada ao Bolsonarismo – nos próximos anos. Símbolos deste movimento, como Olavo de Carvalho e Allan dos Santos, vivem nos Estados Unidos e têm ligações próximas com norte-americanos ligados a alt-right e aos grupos de ódio de lá.

Bolsonaro já dá sinais do que pode vir a acontecer em 2022.

Nesta quinta-feira, o presidente brasileiro comentou sobre o caso nos Estados Unidos e já fez um paralelo com as próximas eleições presidenciais no Brasil: “O pessoal tem que analisar o que aconteceu nas eleições americanas agora. Basicamente, qual foi o problema, a causa da crise toda. A falta de confiança mo voto. Então, lá, o pessoal voto e potencializaram o voto pelos correios por causa da tal da pandemia e houve gente lá que votou três, quatro vezes, mortos que votaram. Foi uma festa lá. Ninguém pode negar isso daí. Então, a falta desta confiança levou a este problema que está acontecendo lá. E que no Brasil, se tivermos o voto eletrônico em 22, vai ser a mesma coisa”.

O presidente sempre faz questão de lembrar que a sua eleição em 2018 também foi fraudada e que ele teria ganho no primeiro turno – mas até agora não apresentou prova alguma.

Todo este circo, principalmente para reaquecer as milícias bolsonaristas, já servem de combustível para o que pode vir a acontecer em 2022. E se Bolsonaro perder? Ele vai aceitar? Haverá alguma tentativa de ruptura institucional?

O jornal Metróples ouviu especialistas sobre o assunto
Para o  cientista político Julián Durazo-Herrmann, que dá aulas na Universidade do Quebéc em Montreal (UQAM), no Canadá, e pesquisa a política brasileira, a intensidade da influência da crise dos EUA nos países da vizinhança vai depender dos desdobramentos da quarta-feira de violência em Washington. “Apesar de ter começado o dia atiçando seus seguidores, Trump acabou numa posição defensiva, pedindo paz, mostrando um pouco de receio. Temos alguns cenários: ele vai manter o controle sobre essa militância e fazer uma oposição pesada ao presidente Joe Biden, nas ruas? Vai perder o controle e o movimento vai se esfarelar em vários grupos com lideranças armadas? O movimento vai perder força? Se não perder, Biden terá muito trabalho interno e, por consequência, menos condições de se dedicar à política externa. Isso pode levar a uma desorganização política e econômica do sistema interamericano, que já não é muito eficiente”, analisa.

Olhando mais especificamente para os trumpistas brasileiros, o professor de história da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Odilon Caldeira Neto avalia que eles saem empoderados dos episódios nos EUA. “A extrema direita brasileira tem se inspirado fortemente na norte-americana em estratégias de atuação e de discurso, na forma de agitação nas redes. Então ver esse movimento, que eles consideram um sucesso, inspira tendências do bolsonarismo”, afirma ele, que é coordenador de um grupo de estudos chamado Observatório da Extrema Direita.

De acordo com Caldeira Neto, o foco de atenção no Brasil não deve ser apenas na militância direitista permanentemente engajada, formada sobretudo por seguidores do escritor e guru Olavo de Carvalho. “O perigo de ver violência política tomando as ruas no Brasil poderia surgir no caso de uma eventual derrota de Bolsonaro na eleição de 2022. Nesse caso, essa inspiração golpista que os EUA colocaram em evidência poderia ajudar a mobilizar um contingente de caminhoneiros, de policiais militares e civis, de militares da ativa e da reserva… São grupos que podem ser cooptados pelo discurso de descrédito na eleição”, explica o estudioso.

Claro que esta consequência no Brasil já movimentou a política brasileira, ainda mais porque o presidente Bolsonaro não criticou a invasão.

De acordo com o jornalista Valdo Cruz, as instituições brasileiras precisam começar a se preparar desde já para que a eleição presidencial de 2022 não ocorra no mesmo clima da americana, afinal o ambiente de hoje nos Estados Unidos é muito parecido com o brasileiro. Cruz ouviu um líder partidário da base aliada do governo e, segundo o político, tal como Donald Trump, o presidente Jair Bolsonaro costuma difundir acusações sem provas, muitas vezes sem bases na realidade e nos fatos, e incitar seus apoiadores a protestarem contra as instituições brasileiras, como Congresso e Judiciário. O jornalista contou ainda que, segundo um ministro do STF, o Brasil precisa parar de tratar como “normal fatos totalmente anormais”

Em seu blog, a jornalista Andrea Sadi disse que no discurso de de fontes do governo brasileiro ouvidas por ela, a invasão é “questão interna” dos EUA. De acordo com Sadi, no argumento interno do governo brasileiro, o episódio de ontem “só ocorreu” por conta da votação pelos correios nos EUA, o mesmo discurso de Donald Trump para não aceitar a derrota, ratificada pelo Congresso americano.

ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), divulgou uma nota e disse que a invasão deve colocar em “alerta” a democracia brasileira. “A violência cometida nesse início de 2021 contra o Congresso norte-americano deve colocar em alerta a democracia brasileira”, escreveu Fachin, que ainda lembrou das próximas eleições brasileiras. “Em outubro de 2022 o Brasil irá às urnas nas eleições presidenciais. Eleições periódicas de acordo com as regras estabelecidas na Constituição e uma Justiça Eleitoral combatendo a desinformação são imprescindíveis para a democracia e para o respeito dos direitos das gerações futuras”, disse o ministro. Para Fachin, “quem desestabiliza a renovação de poder” ou “falsamente confronta a integridade das eleições deve ser responsabilizado em um processo público e transparente”“A democracia não tem lugar para os que dela abusam”, disse.

Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, e Davi Alcolumbre (DEM-AP) também se posicionaram contra a invasão no Capitóilio.

Quem também se posicionou foi Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores.

#CapasDeJornais

#MandaDicas

Uma análise crua e perturbadora do fim das democracias em todo o mundo Democracias tradicionais entram em colapso? Essa é a questão que Steven Levitsky e Daniel Ziblatt – dois conceituados professores de Harvard – respondem ao discutir o modo como a eleição de Donald Trump se tornou possível. Para isso comparam o caso de Trump com exemplos históricos de rompimento da democracia nos últimos cem anos: da ascensão de Hitler e Mussolini nos anos 1930 à atual onda populista de extrema-direita na Europa, passando pelas ditaduras militares da América Latina dos anos 1970. E alertam: a democracia atualmente não termina com uma ruptura violenta nos moldes de uma revolução ou de um golpe militar; agora, a escalada do autoritarismo se dá com o enfraquecimento lento e constante de instituições críticas – como o judiciário e a imprensa – e a erosão gradual de normas políticas de longa data. Sucesso de público e de crítica nos Estados Unidos e na Europa, esta é uma obra fundamental para o momento conturbado que vivemos no Brasil e em boa parte do mundo e um guia indispensável para manter e recuperar democracias ameaçadas.
Neste livro, previsto para ser lançado em 14 de janeiro, o leitor vai conhecer o momento exato em que Trump foi avisado da ameaça representada pela Covid-19. Ao longo de sete meses, Bob Woodward gravou dezessete entrevistas com o então presidente ― num raro e detalhado vislumbre de sua mente. O jornalista mostra como membros do gabinete tentavam manter o país a salvo enquanto Trump desmantelava qualquer tentativa de decisão colegiada nos assuntos de segurança nacional.
O presidente dos EUA morre em um ataque a bomba durante o discurso do Estado da União, no Capitólio, e todos os outros membros do governo que estavam presentes também morrem. Tom Kirkman (Kiefer Sutherland), o secretário de Habitações e Desenvolvimento Urbano, funcionário público de mais alto escalão ainda vivo, vira presidente do dia para noite. Uma conspiração parece se desvelar ao seu redor e ele precisa proteger sua família enquanto descobre o que está acontecendo. São 3 temporadas e fim – a 4ª foi cancelada. É uma boa série da Netflix para entender como funciona o governo norte-americano e a politicagem entre os partidos.

#ChargesDaSemana