#068 – 1 ano de pandemia no Brasil e um presidente genocida

Em 26 de fevereiro, completou-se 1 ano do primeiro caso confirmado de Covid-19 no Brasil. De lá para cá, fomos ao fundo do poço – e já batemos mais de 250 mil mortos. 

De lá para cá, o país registrou 1 caso a cada 3 segundos. Foram 1.200 diagnósticos por hora, segundo o Poder360 que lembrou ainda que estes números são em relação aos 10.390.461 casos de coronavírus registrados até as 18h da 5ª feira (25/02/2021). Nesse período, o Brasil teve uma pessoa hospitalizada com a doença a cada 50 segundos. Foram 754 mil internações registradas pela doença até as 12h de 20 de fevereiro, último dado disponível. 
Em meio a este caos, temos um governo negacionista e que continua fazendo pouco caso da pandemia.

No dia em que o Brasil chegou a 250 mil mortos, o presidente fez uma live questionando a eficácia do uso de máscaras e do isolamento social. Ele chegou a dizer de “efeitos colaterais das máscaras”. O presidente ainda jogou nas costas dos governadores e prefeitos toda a responsabilidade dos problemas do auxílio emergencial e do fechamento das cidades. Tá tudo aqui no UOL.

Ainda nesta live, o presidente citou uma pesquisa alemã para embasar o seu discurso dos problemas de usar máscara. Mas o G1 divulgou que, na verdade, se trata de uma enquete online de pesquisadores da Universidade de Witten/Herdecke, no estado alemão da Renânia do Norte-Vestfália, que serviria para formar um banco de dados para coletar relatos sobre o uso de máscaras em crianças.

O ministro da Saúde – dito como especialista em logística – conseguiu confundir Amazonas com Amapá no envio de vacinas: os caras enviaram 76 mil por engano ao Amapá sendo que era para o Amazonas. Parece piada, mas é a mais pura verdade. G1 contou.

Outra loucura vindo do presidente é sobre um spray israelense contra a Covid-19. Ele disse que vai pedir para a Anvisa aprovar com urgência. Mas esse remédio ainda está engatinhando nas pesquisas e nem há sequer resultados divulgados – nem da fase 1. Dá para entender um pouco mais no El País e na Folha de S.Paulo.

O Brasil esnobou todas as farmacêuticas que quiseram vender a vacina para nós e agora o Ministério da Saúde fechou um contrato sem licitação de R$ 1,6 bilhão para a compra de 20 milhões de doses da vacina Covaxin, da Índia, via uma empresa chamada Precisa Comercialização de Medicamentos Ltda. A Veja apontou três pontos que precisam ser pensados: primeiro que a a Covaxin ainda está na terceira fase de testes na Índia e não tem autorização para uso no Brasil; segundo que o preço de cada dose é mais alto do que o de outros fármacos; terceiro é que a Precisa está no centro de um escândalo de corrupção.

Diante deste 1º ano de caos, o Poder360 coletou as frases deprimentes do presidente durante este tempo. Você pode ler tudo aqui.

Você sabia que há países que não existem?


Estava zanzando pelo Twitter e cai em uma thread do De Olho no Front que falava sobre a UNPO, uma organização que representa países que não existem ou grupos que não se sentem representados nas nações onde estão.

Eu já tinha ouvido falar de algo parecido no futebol com a ConIFA, em inglês a Confederation of Independent Football Associations. Ela foi criada em 2013 e é sediada em Lulea, na Suécia. Em uma reportagem de 2015 do Verminosos por Futebol, a informação é que seriam 26 membros plenos com times como Darfur, Ilhas Chagos, Curdistão, Francônia, Padânia, Cascádia e muito mais. Mas de nações eu não conhecia.

A UNPO, em inglês, significa Organizações das Nações e Povos Não Representados e foi fundada em Haia em 1991 e, de acordo com o site oficial, trata-se de um “é um movimento e organização internacional estabelecido para dar poder às vozes de povos não representados e marginalizados em todo o mundo e para proteger seus direitos à autodeterminação”.

Ainda de acordo com o site oficial: “Os povos representados dentro dos membros da UNPO estão todos unidos por uma condição comum: eles não têm representação igual nas instituições de governança nacional ou internacional. Como conseqüência, sua oportunidade de participação no cenário nacional ou internacional é limitada e eles lutam para realizar plenamente seus direitos à participação civil e política e controlar seu desenvolvimento econômico, social e cultural. Em muitos casos, estão sujeitos às piores formas de violência e repressão”.

Seus membros são, em geral, organizações políticas que representam grupos “que não estejam devidamente representados na ONU”. Esses grupos, segundo o Estatuto da UNPO, precisam “ter a vontade de serem identificados como uma nação” e estar “vinculados a um patrimônio comum”.

O interessante é que fizeram parte da UNPO países que já conseguiram reconhecimento internacional enquanto Estados. Foram os casos do Timor Leste, Palau e ex-repúblicas soviéticas como a Estônia, Letônia, Armênia e Geórgia. Hoje são mais de 40 membros entre ‘Estados não-reconhecidos’, minorias não-representadas e povos sem território autônomo – e que você pode ver no mapa abaixo.
Abaixo vou trazer três exemplos de países que compõe a UNPO

BALUCHISTÃO OCIDENTAL (Oriente Médio)
Em 1928, o Baluchistão Ocidental foi anexado pelo Irã no governo do Xá Reza Pahlavi, que assumiu o poder depois de um golpe militar apoiado pelos britânicos e que marcou o início de um Estado iraniano centralizado, onde a língua persa e a religião xiita ganharam destaque – deixando de lado os anseios do povo Baloch. Hoje são cerca de 4,8 milhões de pessoas vivendo na parte iraniana, outros 8/10 milhões no Paquistão e 500 mil no Afeganistão. No Irã, cabe ao Partido do Povo do Baluchistão (BPP) representar a população. A maioria dos Baloch no Irã são muçulmanos sunitas com pequenas minorias de xiitas e Zekri. A língua nacional é o balochi e a segunda língua mais falada é o brahui, uma língua de origem desconhecida com partes do persa. O povo Baloch que vive no país é privado de seus direitos culturais, sociais e econômicos, colocando-os assim ao status de cidadãos de terceira classe. Eles enfrentam discriminação em todas as esferas da vida, principalmente no que diz respeito à participação política e ao acesso ao mercado de trabalho. A disseminação da cultura e da língua Baloch foi declarada pelos governos centrais iranianos como um ato de traição ao Estado. Atualmente, o BPP faz parte do Congresso de Nacionalidades por um Irã Federal (CNFI) que une partido e organizações árabes, turcas, curdas e turcomanas para estabelecer uma república secular e democrática.
OROMO (África)
Oromo fica no Chifre da África e são cerca de 31 milhões de pessoas que falam o dialeto deste povo. Exceto por um número pequeno de pastores de terra que vivem no Quênia, todas as suas terras natais estão na Etiópia, onde provavelmente vivem cerca de 40% da população total. A base da economia é a agricultura, onde está 90% da população – e o principal produto é o café, assim como a mineração de platina, enxofre, minério de ferro, prata e sal. Há ainda centenas de fontes termais espalhadas pelo território, o que atrai turistas. Na parte política, a Frente de Libertação Oromo (OLF) atua desde 1973 com o objetivo de liderar a luta pela libertação nacional do seu povo e encerrar um século de opressão e exploração. A UNPO deixa claro em seu site que o objetivo da OLF é baseado no princípio democrático.
HMONG (Sudesta Asiático)
Os Hmong são um grupo indígena das regiões montanhosas do sul da China, Vietnã, Laos, Mianmar e Tailândia. Eles se distinguem da população do Laos por causa de sua etnia, língua escrita e falada, cultura e religião. De acordo com fontes do governo, os Hmong constituem o terceiro maior grupo étnico da República Democrática Popular do Laos (LPDR) – eles estão nas montanhas do norte do Laos, mas vale lembrar que o governo do país não reconhece o povo como indígena. Na Guerra do Vietnã, eles apoiaram o lado perdedor e, por isso, sofrem com a perseguição até hoje. Vivem com medo de serem presos e torturados, enquanto passam os dias na pobreza. Há ainda problemas ambientais relacionados a mineração de ouro, extração ilegal de madeira e a construção de barragens – e o governo acusa a etnia de causar os problemas, o que os forçam a sempre se mudarem de local. Porém, nações como o Vietnã e a Tailândia estão colaborando com o Laos para deter e repatriar os imigrantes Hmong. Essa cooperação também acontece com campanhas militares nas fronteiras dos países, visando, claro, as comunidades Hmong escondidas na selva. No país, há apenas um partido e, com isso, o Estado de Direito acaba sendo prejudicado no Laos. Há muitos limites às liberdades culturais e religiosas, especialmente para minorias étnicas e povos indígenas como os Hmong. De acordo com a UNPO, há violência militar contra os etnia, principalmente na zona especial de Xaisomboun. A Organização lembra ainda da necessidade de uma mediação internacional independente para permitir um diálogo dos Hmong com o governo do Laos.

Corrida espacial do século XXI

O mundo está tão caótico e o Brasil tão absurdo que mal conseguimos nos dar conta de um acontecimento histórico para a Humanidade: a Nasa pousou em Marte.

O robô explorador Perseverance pousou no planeta depois de uma viagem de sete meses e tem o objetivo de buscar vestígios de vida em um local onde já foi um lago há bilhões de anos. De acordo com os cientistas da Nasa, entre 3 e 4 bilhões de anos atrás, um lago onde hoje está a cratera de Jezero. Segundo os especialistas, há sedimentos no local que são parecidos com os encontrados na Terra.

Junto com o Perseverance, está o Ingenuity, um helicóptero de 1,8 kg com hélices que giram cerca de oito vezes mais rápido do que um helicóptero comum.

O nome do robô foi escolhido pelo estudante Alexander Mather do 7º ano da Virgínia. Sua sugestão foi escolhida entre 28 mil inscrições feitas por alunos do ensino fundamental e médio dos Estados Unidos. 
Imagem da descida do Perseverance. A “luz” mais forte é o robô e a outra é seu para-quedas.
(Foto: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona)
Imagem, de cima, do Perseverance em Marte. (Foto: NASA/JPL-Caltech/MSSS)
Primeira imagem de Marte transmitida pelo robô Perseverance. (Foto: Nasa)
O Perseverance (Foto: Nasa)
Aterrisagem do robô Perseverance (Foto: NASA/JPL-Caltech)
Borda da cratera Jezero (Foto: NASA/JPL-Caltech/MSSS/ASU)
As primeiras descobertas já começam a aparecer. Uma série de fotografias encontrou um poço profundo com 180 metros de diâmetro. As fotos foram analisadas por pesquisadores da Universidade do Arizona e perceberam uma “áspera parede a leste do fosso”, segundo o geofísico Ross Beyer. “O chão do poço parece ser de areia lisa e desce para sudeste” disse ele em uma reportagem do Tecmundo.

Para Beyer, agora é preciso saber se a fenda é isolada ou se está conectada a uma rede de túneis subterrâneos. A descoberta sacudiu a cabeça dos estudiosos. Há suspeitas da existência de vulcões antigos em Marte e há também a crença de grandes cavernas onde poderiam ser encontradas formas de vida – até mais evoluídas do que os humanos. 
A fenda encontrada em Marte. (Foto – Nasa)
Para os apaixonados pelo espaço, a Nasa liberou alguns conteúdos bem interessantes:
– vídeo do pouso em Marte, desde o momento de abertura do paraquedas até a o toque no solo marciano. É incrível!

– dois áudios do Planeta Vermelho. O primeiro já com o Perseverance em solo marciano, é possível ouvir os barulhos do robô e os sons ambientes. O segundo filtra o som do robô e mostra apenas o barulho natural do planeta.
E você sabe quem foi o “olho e ouvidos” do Perseverance durante toda a viagem?

Swati Mohan, uma indiana que foi para os Estados Unidos com 1 ano e foi a responsável por guiar e controlar as operações da missão. Coube a ela dar a notícia de que o robô estava em solo marciano. “Pouso confirmado. A Perseverance está segura na superfície de Marte, pronta para começar a procurar sinais de vidas anteriores” disse Mohan.
Mohan é interessada pelo espaço desde que viu o primeiro episódio de “Star Trek” na televisão, aos nove anos de idade. Ele descortinou a beleza e a extensão do universo. “Eu me lembro de pensar ‘quero fazer isso. Quero encontrar novos lugares lindos no universo”, disse em uma entrevista para a própria Nasa. “A vastidão do universo guarda muito conhecimento, e nós acabamos de começar a aprender”.

Ainda sim, ela pensou que se tornaria uma pediatra quando crescesse. Não foi até a sua primeira aula de física aos 16 anos que ela começou a considerar uma carreira na engenharia, que poderia permitir que seguisse seu sonho de infância de explorar o espaço.

Mohan estudou engenharia mecânica e aeroespacial na Cornell University, e fez mestrado e doutorado em aeronáutica e astronáutica no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Eventualmente, acabou aterrissando na Nasa.

Ela começou a trabalhar na missão Marte 2020 em 2013, e acabou se tornando a engenheira líder nas operações de guia, navegação e controle. Ela encabeçou o sistema de controle da missão, que ajuda a manter o rover na direção que ele precisa seguir.

“Durante a fase de viagem da sonda em direção a Marte, nosso trabalho foi decifrar como estávamos orientados, garantir que a sonda estava apontada corretamente no espaço (painéis solares virados para o Sol, antena para a Terra), e manobrar a sonda para onde queríamos que ela fosse,” explicou Mohan em entrevista para a Nasa. “Durante a entrada, descida, e aterrissagem em Marte, o guia, o controle e a navegação determinam a posição da peça e comanda as manobras para ajudar no pouso seguro.”
(Foto – Bill Ingalls/NASA via Getty Images)

#MandaDicas

Série do Globoplay. Criada por Joseph Kay, a série canadense conta a história do médico Bash, um refugiado sírio que escapou da guerra em seu país e trabalha em um restaurante, mas, no fundo, ele é um grande médico. Depois de alguns acontecimentos, a medicina retorna para a sua vida. O legal é que o ator Hamza Haq, que interpreta Bash, chegou a cursar Medicina, mas deixou os estudos para focar na carreira de ator. Série bem legal e dinâmica que se passa dentro de um hospital e mostra muita coisa ligada ao psicológico de Bash – tanto de sua relação com a Síria e com sua irmã quanto com os pacientes.
Newsletter diária sobre negócios e tecnologia. Chega cedinho: umas 7h já tá na caixa de entrada. Eles têm uma baita curadoria desses temas. Um dos pontos mais interessantes, além do conteúdo, é a linguagem que eles usam: são meio satísticos e engraçados – usam um monte de gírias e uns GIFs mega divertidos. Leitura rápida e cheio de informação. Vale demais!
Podcast bem legal que fala sobre as consequências de se viver sob o governo das grandes empresas de tecnologia. Eles divulgam um programa a cada 15 dias e sempre são muito bons. O último foi sobre a relação tensa entre o Youtube e os canais de extrema direita que testam a democracia. Vale demais ouvir todos! Clique aqui

Leituras complementares

Apoio evangélico em 2022 indica Bolsonaro na ponta e entraves a Doria, Huck e PT. Pastores que marcharam junto com o governador de São Paulo agora dizem que o tucano perdeu moral com as igrejas. (Folha de S.Paulo)

No Youtube, ataques ao STF seguem no ar e somam mais de 2,1 milhões de visualizações (O Globo)

Mais partido do que Novo. De olho em 2022, Amôedo abre oposição tardia a Bolsonaro, e Novo racha antes de crescer. (revista piauí)

Clube Militar divulga nota sobre prisão de deputado bolsonarista, diz que brasileiros tem saudades da ditadura militar e que “a democracia que temos hoje no Brasil começou em 1964”. Questionaram ainda por que a liberdade de expressão só se aplica “em indivíduos de centro-esquerda” e questionou “por que os equipamentos do Adelio e de seus aliados não são periciados”. (Clube Militar)

Mais um militar no governo. Dessa vez será na Secretaria de Comunicação: Fábio Wajngarten, deverá deixar em breve e quem sabe será o almirante Flávio Augusto Viana Rocha, conhecido no governo como “Almirante Rocha”. (Poder360)

Dinheiro público banco a formação de missionários para evangelizar indígenas. Braço de uma das maiores universidades privadas do país tem verba do MEC e de programa de Michelle Bolsonaro para formar evangelizadores. (The Intercept)

Áudio revela ameaças e intimidação de advogada da Renova aos atingidos pelo desastre de Mariana. Após manifestação em linha férrea da Vale, advogada da Renova, fundação mantida pela Samarco, Vale e BHP Billiton, afirma que vai “dar o tom” em reunião com vítimas: “Não sou eu que estou falando, é o juiz dono do processo”, diz. (Agência Pública)

Israel e Palestina: desigualdade cruel na distribuição de vacinas (Médicos Sem Fronteiras)

“As mulheres Munduruku estão envenenadas por mercúrio e temos provas”, denuncia líder indígena. Mercúrio usado em garimpo ilegal de ouro contamina 99% de aldeias da etnia no Alto Tapajós, revela pesquisa coordenada por neurologista. (Repórter Brasil)

“Governo não cuidou, e agora temos que manter legado”, diz neto de último indígena Juma morto por Covid-19. (BBC Brasil)

“Sua raça é resistente à dor”: mulheres relatam racismo em atendimentos médicos. (AzMina)

Entre crânios e crimes, Ilana Casoy desvenda enigmas além do bem e do mal. Perfil incrível sobre uma das maiores – se não for a maior – escritora sobre criminologia do Brasil. (TAB UOL)

Como a CIA ajudou a popularizar o LSD enquanto tentava controlar nossa mente. (Jacobin)

‘Patria y vida’: por que música recém-lançada enfureceu governo de Cuba. Grupo de cantores criou uma música crítica ao governo e viralizou pelo país. (BBC)

Nudes na internet: 5% conhecem ou foram vítimas de vazamento (Poder360)

Mulheres invisíveis. Rejeitadas pela família e pela sociedade, transexuais em situação de rua relatam vida marcada pelo medo. (UNIVERSA UOL)

Arqueólogos identificam 48 ilhas construídas por indígenas na Amazônia da era pré-colonia. Pesquisadores do Instituto Mamirauá trabalham na identificação de estruturas encontradas em áreas de várzea no Amazonas; levantamento foi feito em 4 anos. Segundo o IPHAN, quase 400 sítios arqueológicos achados no estado estão registrados no cadastro nacional. (G1)

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