#070 – Dossiê 2022: Lula tá on e Bolsonaro se preocupa

Há uma sequência de dados e análises para você entender o atual cenário e muita coisa que envolve as próximas eleições.

Avaliação do governo Bolsonaro

Há algumas variações entre as pesquisas, mas todas dão o sentimento negativo maior do que o positivo. Comum a todas elas é o crescimento das avaliações negativas.

Ruim/péssimo
Atlas – 57% (+3% da pesquisa anterior)
XP/Ipespe – 45% (+3% da pesquisa anterior)
Exame/IDEIA – 46%

Ótimo/Bom
Atlas – 25% (-3% da pesquisa anterior)
XP/Ipespe – 30% (-1% da pesquisa anterior)
Exame/IDEIA – 28%
A Atlas divulgou a avaliação por temas (escolaridade, região, renda, religião…)
Ensino Superior é onde tem o maior índice de “ruim/péssimo”;”ótimo/bom” tem 26% tanto em Fundamental quanto Médio;
– Norte e Centro-Oeste são as regiões com maior “ótimo/bom”: 26% cada;
Nordeste tem o maior “ruim/péssimo” (61%), bem próximo do Sudeste (60%);
homens aprovam mais o governo do que as mulheres;
– está entre 35-44 anos o maior índice de “ótimo/bom”: 28%;
acima de 45 anos são os que mais desaprovam o governo (mais até que os jovens);
– maior índice de “ótimo/bom” entre R$ 2 mil e R$ 3 mil (28%), bem próximo de quem ganha entre R$ 3 mil e R$ 5 mil (26%) e acima de R$ 10 mil (26%);
– 36% dos evangélicos avaliam como “ótimo/bom” e 63% dos católicos como “ruim/péssimo”. Entre outras religiões, 64% avaliam negativamente;
– 50% dos que votaram em Bolsonaro avaliaram como “ótimo/bom”;
– 64% das pessoas que não comparecem nas eleições de 2018 avaliaram como “ruim/péssimo”;
-87% de quem votou branco ou nulo avaliou como “ruim/péssimo”.
“A avaliação positiva do presidente Jair Bolsonaro oscilou negativamente na margem de erro e atingiu o patamar de 28%. Já a avaliação negativa [ruim/péssimo] subiu 5 pontos percentuais, chegando a 46%. No contexto de baixa oferta de vacina e um vácuo de auxílio emergencial podemos afirmar que a avaliação presidencial, apesar do viés de baixa, segue estável e deve continuar dependendo fortemente dessas duas variáveis”
Maurício Moura, fundador do IDEIA, responsável pela pesquisa junto com a Exame
 

Coronavírus e vacinação

Aqui vamos pegar os dados divulgamos pela XP/Ipespe e Exame/IDEIA.
– 77% tem a certeza de que vão se vacinar; (XP/Ipespe);
– 72% acreditam que o presidente deveria ser vacinado publicamente para dar o exemplo; (Exame/IDEIA);
– 52% apontaram o presidente Bolsonaro como o culpado pela lenta vacinação. Outros 19% disseram serem os governadores – mais uma vez, um número bem próximo dos índices positivos de Bolsonaro. São os apoiadores do presidente; (Exame/IDEIA)-
– Interessante que 26% não sabem que são os culpados. (Exame/IDEIA)

“A maioria da população é a favor do presidente ser vacinado publicamente. Interessante notar que mesmo entre os apoiadores mais duros do presidente Bolsonaro essa percepção é majoritária. A lógica da opinião pública exposta nessa pesquisa aponta como natural que o presidente seja vacinado em público. Esse ato simbólico já foi parte do cardápio de centenas de lideranças mundiais e todas com efeito positivo para a imagem presidencial” Maurício Moura, fundador do IDEIA, responsável pela pesquisa junto com a Exame

Segundo a Exame/IDEA, 53% das pessoas são a favor do lockdown.
Outros 22% são contrários.
Não é coincidência que sejam números bem próximo dos índices de aprovação e reprovação do. Quem é contra o fechamento, apoia Bolsonaro – e vice-versa.

“A maioria da população aprova o lockdown [53%]. Esse número é reflexo do delicado momento de saúde pública que o país atravessa. Na Europa, por exemplo, essa aprovação passa dos 66%. No Brasil, os segmentos mais favoráveis são os mais velhos, o Norte e faixas mais altas de renda e escolaridade. Além disso, há uma correlação positiva entre avaliar o governo ruim/péssimo e ser a favor do lockdown”
Maurício Moura, fundador do IDEIA, responsável pela pesquisa junto com a Exame

Vejamos alguns pontos levantados na pesquisa Atlas:
subiu 10% o número de pessoas com “muito medo” do surto da Covid-19: de 39% em fevereiro para 49% agora em março. Isso pode ser reflexo dos acontecimentos em Manaus, do atraso das vacinas, das imagens de muitos enterros e do colapso no sistema de saúde;
6 em cada 10 acham que a atuação de Bolsonaro é “ruim/péssima” no combate ao coronavírus – este é o maior valor desde o começo da pandemia. De fevereiro para agora, cresceu 8%;

Economia

Usaremos os dados da XP/Ipespe

6 em cada 10 pessoas acreditam que a economia brasileira está no caminho errado. Trata-se do maior índice desde dezembro de 2019. Este valor vem cresendo, continuamente, a partir do final de 2020;
caiu 8% o número de pessoas que acham que a chance de manterem seus empregos pelos próximos 6 meses é “muito grande + grande”. Aumentou 5% quem acha que a chance de manter o emprego é “pequena + muito pequena”. Ou seja: as pessoas estão mais em dúvida se estarão empregadas – elas estão com mais medo do desemprego;
de janeiro para cá, subiu 10% as pessoas que acreditam que as dívidas vão aumentar. Por outro lado caiu 8% quem acha que as dívidas vão diminuir;

Eleições 2022

Os dados são da Atlas e XP/Ipespe 
Primeiro ponto que veremos é a questão da mudança para o país (XP/Ipespe):
– 52% quer uma mudança total na forma como o Brasil está sendo administrado;
– 29% quer que mude um pouco, continuando algumas coisas e mudando outras;
– 15% quer continuar como está sendo administrado – mais uma vez, um número bem próximo das pessoa que apoiam o atual presidente.

O que os brasileiros esperam do próximo presidente?
– 35% disseram honestidade;
– 17% querem que ele seja preocupado com os mais pobres;
– 16% apontaram a competência;
– 12% falaram que o presidente precisa conhecer os problemas do país;
– somente 4% apontaram a necessidade de ser experiente;
– 1% disseram que ele precisa “representar o novo”

O brasileiro não quer mais essa questão do novo. Isso já era – caiu. Assim como a questão da experiência, de uma pessoa vivida na política e que sabe lidar com tudo. O cidadão está mais atento a quem vai olhar por quem mais precisa, por quem vai saber fazer e por quem vai fazer o certo.

Com a volta do ex-presidente Lula para o cenário, as pesquisas mostram que a disputa vai ficar mais centrada ele o petista e o atual presidente Bolsonaro.

Na Atlas, Bolsonaro aparece em 1º com 32,7% e Lula em 2º com 27,4%.
Na XP/Ipespe, Bolsonaro lidera com 25% e Lula vem depois com 17

Na Atlas, Bolsonaro variou de 34,5% em janeiro para 32,7% agora.
E Lula subiu de 22,3% para 27,4%.

Na XP/Ipespe, Bolsonaro subiu de 21% em fevereiro para 25% em março.
Já Lula, cresceu de 5% para 17%.

A Atlas nos dá a possibilidade de vermos quem são os eleitores de cada um:

Bolsonaro: homens evangélicos entre 25 e 44 anos, do Norte e Centro-Oeste com Ensino Médio e que ganham de R$ 2 mil a R$ 5 mil.

Lula: homens ou mulheres católicos entre 45 e 49 anos, do Nordeste com Ensino Fundamental e que ganham até R$ 2 mil.

Sérgio Moro: homens ou mulheres agnósticos/ateus e católicos acima de 60 anos, do Sudeste e Sul com Ensino Fundamental ou Superior e que ganham acima de R$ 5 mil.

Ciro Gomes: homens ou mulheres de outras religiões ou agnósticos/ateus entre 25 e 44 anos ou acima de 60, do Nordeste com Ensino Superior e que ganham acima acima de R$ 5 mil.

João Doria: entre 16 e 24 anos ou acima de 60 de outras religiões, do Norte com Ensino Fundamental e que ganham até R$ 2 mil ou acima de R$ 10 mil.

A XP/Ipespe fez uma análise de 1º turno dando os nomes dos candidatos (chamada de pesquisa estimulada).

Neste cenário, Bolsonaro tem 27% e Lula aparece com 25%.
Em terceiro aparece o ex-ministro Sérgio Moro com 10%.
Ciro Gomes vem depois com 9% e Luciano Huck com 6%.

O interessante é notarmos o crescimento tanto de Bolsonaro quanto de Lula:
as linhas sobem praticamente iguais. Isso nos mostra que a força de um, ergue o outro – os bolsonaristas temerem os lulistas e os lulistas temerem os bolsonaristas.
Quanto mais um fica forte, o outro também fica para correr atrás.
Consequência disso é o enfraquecimento dos demais candidatos.

Chegamos no 2º turno. E agora? Quem vence?

A Atlas diz que:

Bolsonaro perderia Mandetta (DEM), Ciro Gomes (PDT), Lula (PT) e Haddad (PT)
Bolsonaro venceria João Doria (PSDB), Marina Silva (Rede), Sérgio Moro (sem partido) e Luciano Huck (sem partido).

A XP/Ipespe já mostra um cenário mais favorável ao atual presidente.

Mas os números atuais são preocupantes para Bolsonaro: ele já não tem a grande vantagem que tinha anteriormente. A disputa está bem dura e há empate técnico.

Bolsonaro 41% x 40% Lula
Bolsonaro 40% x 36% Haddad
Bolsonaro 31% x 34% Sérgio Moro (35% não sabem/nenhum/branco/nulo)
Bolsonaro 37% x 32% Luciano Huck (30% não sabem/nenhum/branco/nulo)
Bolsonaro 39 x 37% Ciro Gomes
Bolsonaro 40% x 30% Guilherme Boulos (30% não sabem/nenhum/branco/nulo)
Bolsonaro 39% x 29% João Doria (32% não sabem/nenhum/branco/nulo)

Dentro de todo este cenário, precisamos analisar alguns outros pontos.

A começar pelas anulações dos processos contra o ex-presidente Lula e a prisão.
De acordo com a XP/Ipespe, 52% desaprovam e 40% aprovam.
Segundo a Atlas, 50,1% é favor da prisão do ex-presidente e 37,8% são contrários.

O segundo ponto é sobre o impeachment de Bolsonaro.
Segundo a Atlas, 55% é a favor – o maior número desde junho de 2020.
Outros 41% são contrários – já foram 48% em novembro, então mais do que os favoráveis.

O terceiro é sobre a imagem das pessoas sobre os presidentes brasileiros. (Atlas)
A maior imagem positiva é de Lula: 46% – seguido de FHC (36%) e Bolsonaro (35%).
A maior imagem negativa é de Collor: 80% – seguido de Dilma (64%) e Bolsonaro (60%).

Depois de tudo isso, precisamos refletir.

André Singer, professor de Ciência Políticada USP, e o responsável por cunhar o termo “lulismo” disse que, a volta do ex-presidente Lula é um “milagre da ressureição”. Para ele, “gosta-se ou não do passado de Lula, à esquerda ou à direita, o rol que lhe foi agora conferido é o de salvar a democracia“.

Singer lembra sobre os cenários atuais para a entrada de Lula na cena:

  • o Brasil se transformou no centro mundial da pandemia;
  • mais de 2 mil pessoas morrem todos os dias no país vítimas da Covid-19;
  • o governo demora para comprar a vacina;
  • a ineficiência do ministro da Saúde;
  • a recusa do presidente em promover o isolamento;
  • o crescimento econômico é pífio;

O professor lembra que, neste caos, bastava ter empatia e preocupação com o povo para que Lula entrasse, de vez, nas eleições de 2022 – e ele fez isso em seu discurso.

Singer fala que, a volta de Lula, “ergueu um dique de contenção temporário para Bolsonaro e suas loucuras de extrema-direita pós-moderna” e que agora, os ocupantes do Planalto, sabem que “não podem fazer qualquer coisa. Ficam limitados, o que é a essência da democracia moderna.

Manifestação pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (São Paulo – outubro de 2015)
[Foto – Pedro Chavedar]

Para completar os pensamentos de Singer, o colunista da Folha, Celso de Rocha de Barros fez um texto exaltando a polarização, tão criticada por muitos.

De cara, ele lembra: “Nos últimos três anos, o que chamamos de polarização foi o seguinte: de um lado, a extrema-direita. Do outro, ninguém”.

Barros lembra que a possibilidade de Lula ser candidato e o seu discurso em São Bernardo “criaram, de fato, outro polo político além de Bolsonaro”.

O colunista faz uma análise sobre a direita que combate o atual presidente. Para ele, “Bolsonaro não quer uma direita que não seja extrema, que não seja a sua, e tem conseguido sabotar os esforços em construi-la”. Ele lembra que, desde o começo, Bolsonaro fez guerra contra o PSDB, desde o não apoio de Doria no 2º turno em São Paulo, passando pelo apoio contra o governador tucano no Rio Grande do Sul até a aliança com Romeu Zema (Novo) em Minas Gerais contra Anastasia. “Bolsonaro sabotou todos com sucesso. Expulsou a direita para o centro” disse Barros.

Ele lembra ainda do tal Centro que se tem construído com João Doria (PSDB), Luciano Huck (sem partido), Sérgio Moro (sem partido), Rodrigo Maia (DEM), Mandetta (DEM), Ciro Gomes (PDT), João Amoedo (Novo), entre outros. Para Barros, o grande problema é que a maior parte da base social e política desses candidatos aderiu ao Bolsonarismo “seja por ideologia , por suborno, interesse econômico ou por falta de confiança nas chances dos direitistas democráticos”. O que vai sobrar para essa turma? Criticar a chegada de Lula? Apoiá-lo? Ou continuar tentando ser a terceira via? Para ele, essas candidaturas não saem do jogo se Lula mantiver o bom momento – mas elas dependem agora mais do desempenho de Bolsonaro. “Se o presidente conseguir recuperar sua popularidade, a vida da oposição não petista fica mais difícil. Se Bolsonaro continuar caindo nas pesquisas, a carta ‘ou eu ou o PT’ troca de mãos” analisa.

Outro ponto bastante importante levantado por Barros é como o PT vai se comportar. Desde a saída da então presidente Dilma Rousseff, o partido se tornou oposição ferrenha aos demais presidentes. O que o PT precisa pensar é se ele “vai se mover para o centro à medida que Bolsonaro o esvazia pelo outro lado” diz o colunista. É uma possibilidade para o partido arrefecer o discurso, conversar com mais campos democráticos e voltar ao poder. “O caminho de volta ao centro não vai ser percorrido da noite para o dia, mas a ótima percepção do discurso e do pânico instaurado no bolsonarismo mostram que o espaço para o PT crescer para o centro está aberto”. A pergunta que fica é: teremos uma segunda Carta aos Brasileiros e um governo de coalização? Ou o PT vai apostar em suas bases e fazer um governo mais popular?

Manifestação pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (São Paulo – abril de 2015)
[Foto – Pedro Chavedar]
Manifestação pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (São Paulo – março de 2016)
[Foto – Pedro Chavedar]

Algo muito importante é o sentimento anti-petista e tudo que o envolve.

A Laja-Jato acabou quando chegou perto da direita – tanto é que Bolsonaro não moveu uma palha para melhorar a operação. Muito pelo contrário: ajudou a enterrar. Barros faz um lembrete: “Ninguém, nem uma única força política conservadora, nenhum empresário ou líder religioso conservador, rompeu com Bolsonaro porque ele destruiu a Lava Jato”.

O papo de comunismo, ditadura, Foro de São Paulo e todas essas loucuras não cabem mais. Esses argumentos morreram quando “Bolsonaro foi eleito com o apoio de toda, repito, toda a direita brasileira. Quem apoiou Bolsonaro no próprio país vai criticar apoio a Maduro no país dos outros em que termos?” lembra Barros.

Outro ponto lembrado por Barros são as relações do PT com outros países. Ele lembra das ligações intrínsecas do Bolsonarismo com o que há de menos democrático no planeta: Donald Trump (EUA), Matteo Salvini (Itália) Viktor Orbán (Hungria), Andrzej Duda (Polônia) e Mohammad Bin Salman (Arábia Saudita) – isso sem falar em caras como Olavo de Carvalho e Steve Bannon. Ou seja: o bolsonarismo tem ligações com pessoas bem autoritárias.

Por fim, Barros fala de um ponto crucial: nada da economia decolar. E por problemas do próprio governo. “Não há absolutamente nada, nos fracassos recentes da direita brasileira, que tenha sido causado por sabotagem da esquerda” diz o colunista.

Barros lembra ainda que “nada nos governos do PT ou em qualquer outro governo brasileiro se assemelha aos crimes cometidos por Bolsonaro durante a pandemia. Comparado à degeneração moral do bolsonarismo, todos os outros governos brasileiros resplandecem como eras de ouro”.

“Assim, a cartada ‘ou eu ou o PT’ de Bolsonaro começou a parar de funcionar. Diante da perspectiva de 300 mil brasileiros mortos pela pandemia até o final deste mês, das ameaças à democracia e da absoluta ineficiência do governo em todas as áreas, parte do público resolveer pagar para ver: ‘OK, Jair, se esses são os termos, então talvez seja a hora de volta a ouvir o que o PT tem a dizer'” comenta Barros.

Manifestação pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (São Paulo – março de 2015)
[Foto – Pedro Chavedar]

Por fim, queria deixar apenas alguns pontos para reflexão:

O quanto a pandemia vai complicar a vida do presidente Bolsonaro? As pessoas vão esquecer todo o caos que foi o país e vão mantê-lo no Planalto? Nos Estados Unidos, por exemplo, o caos envolvendo a Covid-19 foi muito responsável pela derrota do ex-presidente Donald Trump, ídolo de Bolsonaro. Pela primeira vez na história, um líder norte-americano não foi reeleito. Será que as pessoas não vão dar continuidade ao governo bolsonarista?

O que será mais forte: o anti-bolsonarismo ou o anti-petismo? Ao meu ver – e lendo alguns colunistas e analistas – a eleição de 2022 será pauta pelo anti-bolsonarismo. As pessoas estão chocadas com o atual governo e tudo que o envolve em relação a pandemia. E não estou falando em atos antidemocráticos, medidas autoritárias, ameaças à democracia – isso tudo e muito mais, infelizmente, é muito distante da grande maioria da população. Digo aqui da falta de vacina, ao pouco caso com os protocolos sanitários, as faltas de leitos nos hospitais, UTI lotadas… O presidente já está tentando jogar toda a culpa no colo do STF, governador e prefeitos. Mas muita coisa vai pra conta dele.

Uma oposição real e forte. É assim que enxergo a volta de Lula ao cenário político. Ninguém, nem a direita nem a esquerda, conseguiram ser uma oposição ferrenha ao governo Bolsonaro. O ex-presidente conseguiu em um discurso e poucos dias de ação.

A centro-direita acabou? A volta de Lula pode escantear a pretensão dessa galera de conseguir vencer o Bolsonarismo. Vale lembrar que nenhum nome emplacou em nenhuma pesquisa. Entre eles, também há muitos rachas: metade do Novo está com Bolsonaro; o DEM rachou entre quem está com Maia e quem está com ACM Neto/Bolsonaro; o PSDB briga entre os governadores de São Paulo e do Rio Grande do Sul; Huck e Moro não se decidem. A sensação é que cada um vai pensar em si e deixar a bomba para Lula.

A esquerda vai se unir em torno de Lula? A tal e tão sonhada Frente Ampla vai sair? Dificilmente o PT vai querer e permitir a perda do protagonismo da esquerda – Lula já disse que eles são o maior partido de esquerda da América Latina. Os demais partidos vão somar? O PSOL já sinalizou que pode abdicar de campanha própria e apoiar o PT. Como fica o PCdoB, vice na chapa de Haddad em 2018? E como fica Ciro Gomes e o PDT: vão fechar com Lula? Vai se unir a centro-direita? Vai lançar candidatura própria? A turma de Ciro é a grande dúvida de qual destino vai tomar.

O Centrão vai com quem? Não tenham dúvidas de que essa turma não vai se afundar com Bolsonaro. Assim que eles virem que o barco já era, eles pulam fora. Eles sempre fazem isso. A dúvida é: eles entrariam no barco comandado por Lula? O PT abraçaria essa galera que traiu o partido e tirou a Dilma do poder? Vale qualquer coisa para derrotar o Bolsonarismo? Ao custo de que seria feita essa aliança? São perguntas que precisam ser feitas e levadas em conta.

E o dito mercado: o que tem achado de Lula? Nos primeiros momentos, foi um Deus nos acuda: aumento do dólar e a Bolsa caindo forte. Mas depois tudo se acalmou. Tudo indica que foi apenas um choque, uma surpresa. Alguns nomes do mercado já dizem em entrevistas que não haveria problema em um novo governo Lula e até elogiam a era comandada pelo metalúrgico. O tal mercado também não dá ponto sem nó.