#075 – Você tem fome de que?

Em 2022, alguém vai se opor ao Lulismo e ao Bolsonarismo?

Ao que tudo indica, às eleições presidenciais de 2022 estão caminhando para uma disputa entre o ex-presidente Lula (PT) e o atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Como eu disse na newsletter passada (e se você não viu, clique aqui e leia), acredito que o embate vá ficar além dos dois nomes: será entre o anti-bolsonarismo e o anti-petismo.

Mas a disputa vai ficar apenas entre os dois? Não há uma possibilidade de uma terceira via que consiga aglutinar um monte de gente? Essa talvez seja uma grande pergunta para o momento e que muita gente anda se fazendo.

A tal terceira via viria de uma centro-direita que engloba muita gente. Fazem parte desse bolo todo: Ciro Gomes (PDT), os governadores João Doria (PSDB) e Eduardo Leite (PSDB), o apresentador Luciano Huck (sem partido), o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM), o ex-ministro Mandetta (DEM), o prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes (DEM), o dito mercado, alguns economistas e uma galera que usa o discurso “nem de direita nem de esquerda”.

O grande ponto é: o candidato dessa ala vai ter força para bater os oito anos de governo Lula ou a máquina bolsonarista? Será possível eleger uma pessoa fora dessa polarização política? Ele vai conseguir unir as forças de centro em torno de um nome só? “O centro é um espaço fragmentado, no qual nenhum nome se destaca de maneira especial. Acrescente-se mais um fato: ele é antagônico demais” disse Renato Dorgan Filho, analista e sócio do Instituto Travessia para o jornal Valor.

As pesquisas mostram que qualquer nome desses está muito mal – Ciro é o melhor com pouco mais de 10%. Mas, por exemplo, tucanos e caciques do DEM vão “se dobrar” a centro-esquerda de Ciro? A ver.

Essas mesmas pesquisas também mostram que o eleitor não tem um candidato que seja a alternativa a Lula e a Bolsonaro. Um levantamento do Instituto Travessa e divulgado pelo jornal Valor mostra que o centro tem espaço para disputar com os nomes da esquerda e da extrema-direita – de acordo com o jornal “há uma avenida sem nome”. Porém, ainda falta um candidato forte.

Segundo o resultado das pesquisas, em tese, há espaço para um nome de centro na disputa e isso se deve por dois motivos:  a grande massa de eleitores que ainda não definiu seu voto e, paralelamente, a grande rejeição tanto de Lula quanto de Bolsonaro.

Na pesquisa espontânea (quando o pesquisador não mostra nenhum nome), o principal nome deste bloco é o ex-ministro Sergio Moro com 6%, seguido de Ciro Gomes (PDT) com 2% e 1% para João Amoedo (Novo), João Doria (PSDB) e Luciano Huck. Eles fazem parte de um bloco indicado como “Outros” pelos eleitores. Quem lidera é o presidente Bolsonaro com 23%, seguido por Lula com 21%. Ponto importante aqui é quw 25% disseram não saber.

Quando os nomes foram apresentados, o cenário não mudou muito: o grande nome continua sendo do ex-ministro Sergio Moro (sem partido) com 10%, seguido de Ciro Gomes (PDT) com 8%, Luciano Huck (sem partido) com 5% e João Doria (PSDB) e João Amôedo (Novo) com 3% cada. Novamente eles fazem parte de um bloco indicado pelos entrevistados como “Outros” que representaram 35% – número bem significativo. Aqui, Bolsonaro também lidera, mas com 28%, empatado com o ex-presidente Lula.

Houve ainda uma terceira rodada onde só apareciam os nomes do Centro. Novamente, a liderança ficou com Moro (19%), seguido de Ciro (13%), Huck (11%), Maia (6%) e Doria (5%).

Para os analistas da pesquisa ouvidos pelo Valor, a primeira conclusão é que a polarização permanece. Segundo ponto é que tanto Bolsonaro quanto tem alto índice de rejeição: 45% e 42%, respectivamente. Terceiro é o alto índice apontado como “Outros”: 35%. “Esse é um número considerável e poderia colocar qualquer candidato direto no segundo turno” comentou ao jornal o cientista político Carlos Melo, da Insper.

E, claro, que ainda tem a fragmentação do centro, já citada. “É muito difícil que somente uma só pessoa consiga atrair a maior parte dos votos que hoje estão dispersos por esse amplo leque político. Mesmo porque não é fácil unir o eleitor do Moro ao de Ciro, assim como é bastante difícil conectar o de Ciro ao de Doria” comentou Melo no Valor.

Para o cientista político Antonio Lavareda, os candidatos do centro deveriam deixar as “conversas de bastidores e se expor à luz solar”. Segundo ele, “é preciso provocar o debate, mostrar as diferenças de ideias para fazer uma espécie de primárias desde já. Isso para que os eleitores conheçam os nomes que estão em jogo e definam quais têm as melhores condições de disputar o cargo. Se essa distinção demorar muito para ocorrer, pode ser tarde demais”.

Lavareda ainda lembrou que a centro-direita vem ganhando força nas últimas eleições, como as municipais de 2020.

A pesquisa da Travessia viu os pontos fortes e fracos de cada candidato.
São qualidades e defeitos apontados pelos eleitores
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– mais simpático: Huck (23%), Mandetta (21%) e Moro (13%). Amôedo e Luiza Trajano são os últimos com 2% cada;

– mais trabalhador: Mandetta (12%), Doria (11%) e Moro (11%). Amoêdo fecha a lista com 1%. 23% disse que nenhum;

– mais preparado: Doria (18%), Ciro (15%) e Mandetta (9%). Amoêdo é o último com 2%;

– mais inteligente: Ciro (24%), Doria (14%) e Moro (13%). Com 2% aparecem Eduardo Leite (governador do Rio Grande do Sul), Alexandre Kalil (prefeito de Belo Horizonte) e Luiza Trajano;

– mais honesto: Moro (31%), Mandetta (9%) e Amoêdo (9%). Rodrigo Maia teve zero;

– mais preparado para combater à corrupção: Moro (39%), Amoêdo (8%) e Mandetta e Ciro com 4% cada. Kalil e Maia zeraram. Nenhum foi apontado por 30%;

– mais preparado para resolver os problemas da saúde: Mandetta (28%), Doria (18%) e Ciro (8%);

–  mais preparado para resolver os problemas da educação: Ciro (19%), Huck (17%) e Moro (8%). Leite e Trajano tiveram 1% cada;

– mais preparado para resolver os problemas da segurança: Moro (14%), Ciro (9%) e Doria (9%). Nenhum foi apontado por 31%;

– mais preparado para gerar emprego e renda: Ciro (11%), Doria (9%) e Amoêdo (8%).

Diante deste cenário da centro-direita, temos Lula e Bolsonaro disputando o protagonismo. Uma pesquisa da Exame/IDEIA, divulgada em 23 de abril, mostra que o cenário continua piorando para o atual presidente e, por consequência, vem melhorando para o petista

52% dos entrevistados avaliaram o governo Bolsonaro como ruim/péssimo, maior índice desde o começo do seu mandato. Hoje já tem mais gente achando regular do que ótimo/bom: 24% contra 23%, respectivamente.

Quando a pesquisa perguntou se as pessoas aprovam ou desaprovam a maneira do presidente lida com o seu trabalho, 54% desaprovaram – um dos maiores índices de todo o governo. Outros 25% aprovaram.

“A avaliação ruim do presidente é consequência de três fatores. O primeiro é a sensação de que o ritmo de vacinação ainda não decolou. Em segundo, a gente teve semanas com recordes em relação ao número de mortos em decorrência da Covid-19, e isso atrapalha a avaliação presidencial. Por último, a população não percebeu até agora um efeito positivo da nova rodada do auxílio emergencial” Maurício Moura, fundador do IDEIA, instituto responsável pela pesquisa.

Sobre as eleições de 2022, 50% disseram que o presidente não merece ser reeleito.
Mas 39% disseram que ele merece.

Para 52% o ex-presidente Lula não merece voltar a ser presidente em 2022 – 41% disseram que merece. O ponto interessante é que de 12/03 para agora, subiu 9% as pessoas que acreditam na volta do petista.

Sobre a votação em 2022 e sem o ex-ministro Sergio Moro (sem partido):
– 33% disseram que votariam em Lula (PT);
– 32% apontaram o presidente Bolsonaro (sem partido);
– 9% o ex-governador Ciro Gomes (PDT);
– 6% o apresentador Luciano Huck (sem partido);
– 4% lembraram do governador João Doria (PSDB);
– 2% citaram o nome do apresentador Danilo Gentili (sem partido).

Num cenário onde aparece Moro:
– Lula continua liderando, mas com 31%;
– Bolsonaro permanece em segundo com 30%;
– Ciro Gomes mantém a terceira colocação com 8%;
– Moro aparece depois e tem 7%.

No primeiro turno, gostaria de destacar uma vantagem numérica do ex-presidente Lula. É a primeira vez que Bolsonaro fica atrás numericamente, apesar de empatado na margem de erro. Também é interessante pontuar com a soma de outras candidaturas, que incluem Huck, Doria, Amoêdo, que somam mais ou menos 32%. Ou seja, dentro da margem de erro, a somatória dessas candidaturas está praticamente empatada com Lula e Bolsonaro. Se houver uma convergência em torno de um nome, a terceira via se torna uma possibilidade real” Maurício Moura

Mesmo com Lula e Bolsonaro na liderança, eles são os dois candidatos que as pessoas mais disseram que não votariam de jeito nenhum: 40% para cada.

Depois aparece Doria com 28%, Ciro Gomes (28%), Luciano Huck (25%), Sergio Moro (25%) e Danilo Gentili (20%).

Outro ponto que falamos bastante – e que a pesquisa levantou – é este terceiro nome fora da polarização Lula-Bolsonaro.

Foi apresentada a seguinte frase aos eleitores: “Eu gostaria que o próximo presidente não fosse nem Lula nem Bolsonaro” e 49% disse que nem concorda nem discorda. Em março, eram 29% que achavam isso.

Outros 41% disseram que concordam – e apenas 10% discordam.

A pesquisa também levantou como está a imagem dos candidatos.
Aqui não há o nome do presidente Bolsonaro.

Mandetta é quem tem a imagem mais positiva (20%), seguida de Huck (18%), Lula (17%) e Ciro Gomes (16%).

Amoêdo e Danilo Gentili são as pessoas com a imagem mais negativa, 36% para cada. Depois aparecem Lula (35%), Huck (33%) e Doria (31%).

Ciro Gomes tem o maior “nem positiva nem negativa”: 55%. Doria tem 49%, Huck tem 46% e Amoêdo 44%.

Por fim, vejamos os vários cenários de um possível segundo turno.
Podemos ver que Lula é o único que ganha de Bolsonaro.
Quem mais chega perto de uma vitória do atual presidente é Huck.
Quando os nomes não são tão conhecidos, há muita gente dizendo que não sabe.

– Lula 40% x 38% Bolsonaro
– Bolsonaro 44% x 43% Ciro Gomes
– Bolsonaro 46% x 29% João Doria
– Bolsonaro 40% x 38% Luciano Huck
– Bolsonaro 45% x 22% Eduardo Leite (outros 26% não sabem)
– Bolsonaro 45% x 31% Sergio Moro
– Bolsonaro 42% x 23% Mandetta (outros 27% não sabem)
– Bolsonaro 42% x 22% Tasso Jereissati (outros 28% não sabem)
– Lula 42% x 36% Ciro Gomes
– Sergio Moro 36% x 26% Mandetta (outros 34% não sabem)

O Brasil está cada vez mais pobre

Além do caos da pandemia, os brasileiros ainda estão precisando lidar com o aumento da pobreza. Diversas reportagens recentes trouxeram o panorama do Brasil e já te conto: estamos de mal a pior.

Fenômeno dos anos Lula, a classe C afundou: mais de 30 milhões deixaram a classe média e estão na miséria. Para este ano, a perspectiva é de mais perda de renda nas classes D e E – Folha de S.Paulo

O que ainda segurava muita gente era o auxílio-emergencial. Mas com a redução dele, o Brasil terá 61 milhões de pessoas na pobreza e outros 19,3 milhões na extrema pobreza, segundo dados do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP. Teremos mais que a população da Espanha ou da Argentina vivendo na pobreza ou 6 vezes a população do Uruguai vivendo na extrema-pobreza – G1

De acordo com informações da Fundação Getúlio Vargas, o número de pobres saltou de 9,5 milhões em agosto de 2020 para mais de 27 milhões em fevereiro deste ano. “Se a gente comparar a situação de março de 2021, sem auxílio emergencial, é o pior nível de pobreza de toda a série histórica que começa em 2012” diz o economista Marcelo Nery, da FGV Social – Jornal Nacional

Essa crise toda reduziu, claro, o poder de compra do brasileiro e mudou o perfil de consumo da classe média. A renda disponível para o consumo da classe C caiu quase 10% em cinco anos e, ao mesmo tempo, os gastos básicos pesaram mais no bolso por conta do alto índice de inflação e crise econômica do país – G1

#MandaDicas

Neste episódio, o convidado é Odilon Caldeira Neto (@odiloncaldeira), professor de História Contemporâena e Coordenador do Observatório da Extrema-Direita no Brasil. O assunto é o Integralismo, o fascismo brasileiro organizado pelos “galinhas-verdes”. O podcast falou sobre o livro recente do professor Odilon, escrito em conjunto com o historiador Leandro Pereira Gonçalves, sobre como a Ação Integralista Brasileira foi um movimento de massas, inspirado e alinhado aos fascismos europeus mas bastante adaptado às realidades do Brasil – e como o movimento atua hoje dentro e fora do governo Bolsonarista.
Em “O ano da cólera” a jornalista e correspondente da Folha de S. Paulo, Sylvia Colombo se debruça sobre cinco países da América Latina e oferece um panorama sobre o que aconteceu antes e durante a pandemia, nos turbulentos anos de 2019 e 2020. O livro traz os protestos e tensões no Chile, na Bolívia, na Venezuela, na Argentina e no Uruguai, que representaram tanto uma insatisfação coletiva, quanto um presságio de tempos de confinamento e mortes. Sem deixar de fora as particularidades de cada local, a autora e jornalista conduz o leitor por um passeio pela história e seus personagens. De um lado, governantes – alguns deles ditadores – amados e odiados; do outro, o povo, e a certeza de que a América Latina segue pulsante e complexa.
Há alguns anos, seria impossível imaginar que no meio de uma pandemia mundial, quando somente os estudos e fatos são capazes de nos oferecer caminhos e respostas, o descrédito na ciência seria tão grande. Os negacionistas, aqueles que escolhem ignorar a realidade, ou viver em sua própria realidade imaginada, são um grupo cada vez maior. A consequência disso é um comportamento de risco cada vez mais evidente, mesmo no pior momento da pandemia. Um perigo que todos correm, negacionistas ou não, devido ao comportamento alheio. 

Leituras complementares

Grampos sugerem que comparsas de miliciano Adriano da Nóbrega recorreram ao presidente Jair Bolsonaro (The Intercept Brasil)

Pesquisa da Confederação Nacional de Municípios (CNM) lançou a pesquisa “Observatório da Covid-19 nos municípios do Brasil” que acompanha tudo que envolve a pandemia nas cidades: ritmo da vacinação, falta de oxigênio, espera de leitos, medicamentos para intubação, entre outros. Um dado interessante: 80% das cidades brasileiras não implementaram algum auxílio financeiro para seus habitantes (CNM)

Pandemia afeta mais a saúde mental e financeira de jovens negros (Alma Preta)

Covid explode em cidade do interior de SP governada por “Bolsonaro caipira”. Mortes aumentam mais de 170,8% em um mês em Mirandópolis (SP), cujo prefeito é contra isolamento social e promove tratamento sem eficácia. (Folha de S.Paulo)

Casos de Covid-19 caem 50% em cidade mais vacina de São Paulo (Metrópoles)

Covid-19: mortes de jovens de 20 a 29 anos subiram 1.081% em 2021 (UOL)

Governo federal corta 98% dos recursos do Orçamento para o novo Minha Casa Minha Vida (UOL)

De fake news à desigualdade, o que leva brasileiros a não voltarem para tomar a segunda dose da vacina. Cidades que calculam mal segunda aplicação e falhas estratégicas e desinformação contribuem para o abandono vacinal e podem comprometer proteção coletiva na campanha brasileira de imunização, dizem especialistas (El País)

Levy Fidelix foi uma prévia de Bolsonaro. O político levou para a campanha de 2014 temas da extrema direita que, quatro anos mais tarde, seriam aproveitadas por Jair Bolsonaro com mais sucesso. Ele saiu na frente de Bolsonaro ao usar nos palanques eleitorais ataques ao Foro de São Paulo, ao utilizar o lema integralista Deus Pátria e Família e ao reproduzir discursos de Olavo de Carvalho. (G1)

Como a extrema-direita burla as punições do Youtube – e o Google finge que não vê (The Intercept Brasil)

Serviços de saúde atendem por ano quase 33 mil crianças de até 9 anos com sinais de violência física, sexual ou psicológica; em cada quatro agressões, três acontecem dentro de casa. (revista Piauí)

Berço de doenças, parte devastada da Amazônia enfrenta Covid-19, dengue e malária. Moradores da maior floresta tropical do mundo vivem efeitos sinérgicos das mazelas do desmatamento, desigualdades sociais, doenças tropicais e a pandemia do novo coronavírus. (National Geographic)

Brasil entra na zona vermelha no ranking de liberdade de imprensa (Abraji)

Sorteios irregulares inundam o Instagram com engajamento artificial. Quatro brasileiros dominam o ranking de interações da rede com promessas de presentear os seguidores com carros e motos; postagens chegam a ter milhões de comentários. (Núcleo Jornalismo)

O futuro previsto por agências de inteligência dos EUA para o mundo em 2040 (BBC)

Google é a marca mais influente no Brasil – seguida pelo Youtube, Samsung e Microsoft. (Meio & Mensagem)