#079 – Tenha fé porque até no lixão nasce flor

É com essa frase de Vida Loka Parte II dos Racionais que começo essa semana.
Engana-se quem acha que sou um otimista-good vibe-namastê. Errado.
Muito pelo contrário: sou pessimista – mas às vezes digo que sou realista.
Não tá fácil ter esperança. Já passamos de 448 mil mortos e mais de dois mil por dia.

E, neste cenário, o presidente fez uma carreata com apoiadores no Rio de Janeiro – milhares de pessoas aglomeradas e, claro, ele estava sem máscara. O que eles estavam comemorando? A superlotação dos leitos de UTI no estado? A falta de vacina? O pior: ainda tem gente defendendo e tirando sarro na internet. É desumano e dá raiva – isso sem contar os rolezinhos com os parças, o futebol com a rapaziada, o churras, os barzinhos……

Mas como eu disse no título: a flor nasce até no lixão.
A esperança é a última que morre e passaremos por isso – mesmo com milhares de mortos, entre eles meu tio Ayrton e o Pipa, companheiro de audiovisual da Prefeitura de Mogi das Cruzes (apenas para citar duas pessoas bem próximas de mim).

Tenho esperança de que isso vai passar e o Brasil vai ser feliz de novo.
A gente merece!

Fotografia que fiz neste final de semana na Ocupação Iluminados. Em meio ao caos, algumas sujeiras e o barro, dois girassóis foram plantados e estão crescendo.

Bolsonaro vai perder em 2022?

Repercuto essa semana uma nova pesquisa de intenções de voto para as eleições de 2022. Dessa vez, veremos os dados do Vox Populi.

A grande diferença deste levantamento para os demais é que aqui os números mostram uma vitória do ex-presidente Lula (PT) já no primeiro turno. Ao meu ver, isso seria um pouco demais para o atual cenário do Brasil. Não acredito que possa acontecer.

No mais, os dados mostram uma descrença total ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e a candidatos deu uma possível terceira via. Até agora, nenhum nome decolou em nenhuma pesquisa. Tudo indica que teremos a polarização entre bolsonaristas e lulistas. E aí que, ao meu ver, entre o grande X da questão dessa eleição.

Venho dizendo que se em 2018 o antipetismo foi o fator decisivo do voto, agora, em 2022, o anti-bolsonarismo será o fio da balança. O grande ponto a se descobrir é como votarão as pessoas que foram no embalo do Bolsonarismo em 2018 por serem contrários ao PT. Elas vão continuar naufragando abraçadas com o presidente ou vão votar em Lula para tirar Bolsonaro? Acredito que uma fatia vai continuar fiel a ele (cerca de 15% mais ou menos). Agora precisamos saber como os demais vão se comportar.

Esse tweet resume bem a situação dessa fatia da população

Vamos começar com alguns dados gerais analisados pela pesquisa.

– 72% estão insatisfeitas com o Brasil – maior valor desde a série divulgada que começou em maio de 2008;

– 46% apontaram o ex-presidente Lula como o melhor presidente que o Brasil já teve. Outros 17% disseram que Jair Bolsonaro é o melhor presidente. Aqui vale destacar um crescimento considerável de 9% em abril de 2019 para os quase 20% de agora. Mesmo com o acirramento da pandemia e tudo que a envolve, subiu o número de pessoas que acham o capitão do Exército o melhor presidente da história;

– 46% disseram que Bolsonaro é o pior presidente do Brasil (16% a mais do levantamento de dezembro de 2019). Lula é apontado como o pior por 17%;

– 64% não votariam em Bolsonaro e 39% em Lula;

– 39% votariam em Lula com certeza e 19% em Bolsonaro;

– 50% gostam de Lula e 25% não gostam;

– 50% não gostam de Bolsonaro e 27% gostam;

– 65% disseram que o presidente não é o que ele dizia ser;

– 62% afirmaram que Bolsonaro estava errado ao ser contra o isolamento social;

– 34% acreditam que Bolsonaro tem a maior parte da responsabilidade pelas mortes da Covid-19 e, para 23%, ele não tem nenhuma responsabilidade;

– 79% acham que o governo estava errado em reduzir o valor do auxílio-emergencial;

– 55% acreditam que o Lula e o PT foram perseguidos;

– Para 43%, o Supremo tomou a decisão certa ao considerar parcial o ex-ministro Sergio Moro.

Vejamos agora as informações sobre o 1º turno das eleições de 2022.

Quando perguntado de forma espontânea em quem votariam em 2022, 33% apontaram o nome do ex-presidente Lula (PT) e 19% o do atual presidente Bolsonaro (sem partido). Destaque para os 24% que não sabem/não responderam.

Quando os nomes foram apresentados, o ex-presidente Lula (PT) continua na liderança com 43%, seguido por Bolsonaro (sem partido) com 24%, Luciano Huck (sem partido) com 8% e Ciro Gomes (PDT) com 5%.

A pesquisa fez um retrato por região e podemos ver que Lula mantem o Nordeste como seu reduto eleitoral e Bolsonaro mantém a força no Centro-Oeste/Norte e Sul.

Bolsonaro é mais forte entre os homens e, quanto mais velho, maior o apoio a ele.
Lula tem apoio igual entre homens/mulheres e ganha mais força nos mais jovens.

O petista tem cerca de 50% dos votos de quem tem Ensino Fundamental e de quem ganha até dois salários mínimos. Lula vai mal entre os mais ricos e mais escolarizados.

Por sua vez, Bolsonaro vai bem entre os cidadãos com Ensino Médio e Superior e nas pessoas que ganham mais de cinco salários mínimos. Sem novidades.

Os evangélicos parecem estar divididos: 36% votam em Bolsonaro e 34% em Lula. Ponto importantíssimo para as eleições. 

Negros e pardos votam muito mais em Lula do que em Bolsonaro. Entre os negros, é 51% a 17% para o petista; entre os pardos fica 48% a 23%.

Agora analisaremos os dados de um possível 2º turno.

– Lula venceria Bolsonaro de 55% a 28%.
– Lula venceria Ciro Gomes de 52% a 19%.
– Lula venceria João Doria de 56% a 14%.

Numa disputa entre Lula e Bolsonaro, teríamos

Sete em cada dez nordestinos votariam em Lula.
Nas regiões, a disputa mais dura seria no Sul: 43% para Lula e 38% para Bolsonaro.
 O atual presidente tentaria se segurar o seu típico eleitor: os homens de meia idade e mais velhos com Ensino Médio e/ou Superior ganhando entre dois e cinco salários mínimos ou mais.

Lula iria com as jovens mulheres com Ensino Fundamental e que ganham até dois salários mínimos.

O Chile sacode e traz novas perspectivas para a América Latina

Fotografia que fiz em 2015 quando estive em Santiago (Chile)

O povo chileno votou e o país terá uma nova Constituição, derrubando assim a Carta Magna que vem da época da ditadura. 

Mesmo com uma participação baixa (43,4%), foram mais de 6,4 milhões de votos para eleger as pessoas responsáveis pela nova Constituição. Elas terão 180 dias para apresentar uma proposta e, caso precise, mais um tempo para as devidas alterações.

BBC Brasil contou o que há de controverso na Constituição chilena.

A votação está sacudindo os pilares da democracia latino-americana por vários motivos.

Começando pelo fato de que essa é a primeira Constituinte do mundo com paridade entre homens e mulheres (DW). O movimento feminista chileno é dos mais atuantes e fortes da América Latina e está ativo na rua desde as primeiras manifestações populares de 2006.

Outro ponto bastante significativo é a destinação de 17 assentos para os povos originários. Um dos símbolos dessa vitória é a professora universitária Elisa Loncon Antileo, de 58 anos, uma das sete representantes dos Mapuches, etnia majoritária no país. (UOL).

A grande mudança está no enfraquecimento da direita chilena e no crescimento de uma nova esquerda e dos independentes.

A lista da direita Vamos por Chile sequer conseguiu um terço da votação para, então, ter poder de veto. Ela vai precisar dialogar. O grupo vai ter 37 constituintes (a maior quantidade numérica), mas ficará apenas eles, sozinhos.

A centro-esquerda mais tradicional na Lista del Apruebo reuniu o Partido Socialista e outros que integram a Nova Maioria durante o governo da ex-presidente Michelle Bachelet. Eles conseguiram 25 cadeiras. 

Por outro lado, a esquerda no Apruebo Dignidad teve quase 20% dos votos e 28 cadeiras. O bloco reúne partidos da Frente Ampla e o Partido Comunista do Chile.

As 83 listas de candidatos independentes somadas dão mais assentos do que as três listas que abrigam os maiores partidos do país. Juntos, os candidatos independentes somam 47 cadeiras na Assembleia.

Para entender o cenário atual do Chile, sugiro alguns podcasts:

– Anticast479 – A esperança chilena. Neste programa, Giselle Camargo, conversa com a Doutora em Ciência Política e professora da UFRJ, Talita Tanscheit sobre o Chile. O país elegeu no último fim de semana, além de governadores, prefeitos e vereadores, as 155 pessoas que vão redigir a nova constituição do país. Um fato histórico que enterra a era Pinochet, o liberalismo e o conservadorismo A conquista é resultado de muita pressão popular e foi comandada, principalmente, por iniciativas de estudantes e movimentos feministas. A direita no país sofreu um verdadeiro massacre nas urnas. E a população terá uma constituição escrita com paridade de gênero, metade da comissão constituinte é feminina e com representação dos povos originários, são 17 vagas ocupadas por indígenas. O Chile, hoje, alimenta fortemente a esperança do fim do liberalismo e do conservadorismo na América Latina.


 – Jornal da CBN: “Eleição no Chile é um alerta para todos os sistemas políticos democráticos”. Sergio Abranches faz uma análise da eleição no Chile, com destaque para candidatos considerados independentes. Abranches diz que a mensagem foi de rejeição ao modelo político, aos partidos que se oligarquizaram e deixaram de representar os interesses da sociedade, além de um pedido de democracia mais ampliada. Abranches diz que é um aviso sério e forte de que a democracia representativa está em crise.


– Petit Journal: a Constituinte no Chile. O país elegeu sua Assembleia Constituinte, que vai substituir a atual carta magna, aprovada em 1980, durante o governo de Augusto Pinochet. O comando da coluna de hoje é de Tanguy Baghdadi.

Por dentro dos grupos que fornecem informações para a oposição na CPI da Pandemia

Núcleo Jornalismo conversou com voluntários que estão trabalhando nas redes sociais para organizar informações importantes que estão sendo usadas pela oposição na CPI da Pandemia.

A maioria dos responsáveis pelos perfis prefere manter suas identidades desconhecidas. Dois administradores ouvidos pelo Núcleo  são anônimos e usam pseudônimos – no caso, Jairme Arrependi e Tesoureiros de Jair. O site perguntou com o que eles trabalham fora das redes e ambos esclareceram que suas atividades profissionais não são em nada relacionadas à articulação com os senadores e que não possuem filiação partidária.

Um dos pontos mais interessante é que os senadores estão citando os internautas na CPI e estão interagindo com os perfis nas redes sociais. 

Caio Rabelo, mestre em ciência política pela Universidade de São Paulo, foi ouvido pelo Núcleo Jornalismo Para ele, o aceno dos senadores a esses grupos e a usuários de redes sociais demonstra um aprendizado político.

“Há uma faceta cultural muito interessante. Renan, que é tido como essa raposa velha, traz essa coisa de animador de auditório. E, de certa forma, olhando a sua trajetória política, é como se um ator antigo estivesse aprendendo a se comunicar politicamente como os novos tempos exigem”, afirmou Rabelo ao Núcleo.

Leia a reportagem completa.

#MandaDicas

Podcast da nossa newsletter. Estamos no 5º episódio e a ideia é entrevistar várias pessoas sobre os mais variados temas. Já tá no Spotify. Clique aqui e ouça!
Reunião dos principais artigos de um dos mais influentes especialistas em tecnologia e em internet do mundo, Evgeny Morozov. Big tech problematiza a lógica do chamado “solucionismo” tecnológico, que enxerga a tecnologia como panaceia para problemas que instituições falharam em resolver. O livro alerta que a internet e plataformas tecnológicas baseadas em dados pessoais (Airbnb, Uber, Facebook e WhatsApp, para dar alguns exemplos), diferente do que se costuma acreditar, podem servir de ferramenta contrária à democracia, dependendo da maneira como são usadas. Livro extremamente atual, abordando os efeitos positivos e negativos do universo automatizado em que vivemos.
ESG é uma tendência e ninguém pode negar. Por isso, no episódio de hoje, Pedro Waengertner conversa com Fabio Alperowitch, diretor da Fama Investimentos, e Luís Gustavo Lima (LG), sócio e CEO da ACE Cortex para discutir o que de fato significa essa sigla e mais, o que ninguém fala sobre o termo no mercado.
Monitor Nuclear é uma aplicação do Núcleo que identifica tendências de engajamento no Twitter, considerando tweets publicados pelos principais políticos brasileiros e possíveis pré-candidatos à eleição presidencial de 2022. Esses dados são relevantes porque podem indicar tanto o humor do momento quanto a mobilização de bases de apoio ou de oposição em relação a certo ator político ou assunto. 
Filme antigo de 2011, mas que é um dos favoritos da minha vida. Conta a história de duas pessoas em Buenos Aires. Martin (Javier Drolas) está sozinho, passa por um momento de depressão e não se conforma com a maneira com a cidade de Buenos Aires cresceu e foi construída. Web designer, meio neurótico, pouco sai e fica grande parte do tempo no computador. É através da internet que conhece Mariana (Pilar López de Ayala), sua vizinha também solitária e desiludida com a vida moderna numa grande cidade. É sublime, simples, melancólico, maravilhoso e perfeito. Dá pra assistir no Globoplay.

Leituras complementares

Vereador e filho do presidente, Carlos Bolsonaro intervém em compra de aparelho espião e cria crise militar. (UOL)

O dramático resgate de imigrantes que chegam exaustos a Ceuta: “Coloque-os virados para cima”. Soldados espanhóis ajudam marroquinos e subsaarianos na praia de El Tarajal. Pais que cruzaram a fronteira em família desesperam-se tentando encontrar as crianças. (El País)

Pesquisador explica conflito entre Israel e Palestina: “Não é um conflito religioso”. Questão territorial está na origem do conflito entre israelenses e palestinos, diz Marcelo Buzetto. (Brasil de Fato)

Isolamento do isolamento. Na pandemia, pessoas LGBTQIA+ se viram excluídas dentro da própria casa, o que aumentou sofrimento psíquico. (UOL)

Insultos, rejeição e discriminação: o calvário dos imigrantes venezuelanos na América Latina (Clarín)

“Demonizaram o pajé”: fotógrafo indígena relata como evangelização transformou povo Paiter Suruí (BBC Brasil)

Síndrome de burnout: como saber se você está com esse problema. (BBC Brasil)

Beleza precária. No Brasil, setor cosmético cresce junto com contingente de revendedoras sem vínculo trabalhista. (UOL TAB)

Investimentos em startups batem recorde no Brasil. Em 2020, foram investidos R$ 19,7 bilhões nas startups brasileiras (CNN Brasil)

Creators Connect: 3 cases mostram como as agências podem criar estratégias vencedoras unindo marcas e Criadores (Think with Google)

59% das mulheres gamers escondem gênero para evitar assédio (Olhar Digital)

Quem tem razão? Em disputa por mercado nacional, os dois principais jornais brasileiros se proclamam ‘os mais lidos’ (Knight Center | LatAm Journalism Review)

Infodemia e Covid-19: a informação como instrumento contra os mitos. Relatório que mostra como a política de desinformação causou 430 mil mortes pela Covid-19 no Brasil (Artigo19)

#FotoDaSemana

Foto – Ricardo Stuckert