#092 – O Afeganistão também é aqui

Semana passada tivemos o caos no Afeganistão. Muitas imagens que rodaram o mundo e deixaram dezenas de pessoas assustadas – e com todos os motivos, claro. Jamais devemos aceitar ou tolerar algum tipo de governo extremista que fira os direitos humanos básicos. Certo? Mas aqui queria fazer uma reflexão básica e ser o tal “advogado do diabo”, como diz o ditado popular.

A questão que ficou batendo na minha cabeça é: por que as pessoas não se chocam com as coisas que acontecem no Brasil e se chocaram com o Afeganistão? Novamente: temos que nos chocar e nos posicionar contra o extremismo dos talebãs. Mas o mesmo peso e a mesma mobilização não acontecem quando o assunto é o Brasil.

Posso sim estar problematizando, mas faz parte. 
Segundo um ranking mundial de feminicídio feito pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), o Brasil é o 5º lugar do mundo em assassinato de mulheres – perdendo apenas para El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia. Ou seja: na frente do Afeganistão.

De acordo com uma reportagem da CNN do começo deste mês, em 2021, mais de 100 mil crianças não tem o nome paterno na certidão, segundo a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil). A estimativa é que cerca de 20 milhões de brasileiros tem apenas o nome da mãe no documento. Vocês lembram das imagens das afegãs entregando seus filhos?

Há 12 anos seguidos, somos o país que mais assassina transsexuais em todo o mundo, segundo a Associação Nacional de Transexuais e Travestis (Antra). A cada hora, um LGBT é acredito, de acordo com o SUS. E o Talibã repudia a homossexualidade.

Paralelo a isso tudo, temos aqui um governo extremista, com o corpo todo ligado ao fundamentalismo religioso, que não gosta das minorias, que apoia o armamento e não liga nem um pouco pra Ciência. Algo parecido com o Talibã?

Novamente: critiquemos e façamos coro contra o extremismo afegão, mas não esqueçamos de fazer o mesmo com o extremismo brasileiro.

Brasileiro não aprova o governo nem o presidente e está preocupado com a Educação, inflação, custo de vida e salário

A pesquisa XP divulgada na semana passada mostrou um cenário preocupante para o presidente Jair Bolsonaro

De acordo com o levantamento, 54% avaliaram o governo como ruim/péssimo – e este número vem crescendo consideravelmente nos últimos tempos. Em contrapartida, vem caindo sistematicamente quem avalia o governo como ótimo/bom: hoje são 23%. No gráfico podemos ver essa invertida de sentimentos da população.

Outra inversão de sentimentos vem acontecendo quando a pesquisa perguntou sobre a aprovação da maneira que o presidente administra o país. O gráfico mostra uma mudança de rota bem clara. Hoje, 63% desaprovam e 29% aprovam – há alguns meses, havia um empate em 45% para cada sentimento.

Nesta mesma toada, também mudou a expectativa para o restante do mandato do presidente. Atualmente, 52% espera que seja ruim/péssimo e 28% acreditam que será ótimo/bom. É interessante notarmos essa alteração na expectativa muito bem desenhada no gráfico, quando as linhas começam a se distanciar bruscamente.

Queria falar, rapidamente, sobre quais são os principais problemas do Brasil.

A Saúde continua liderando com 18%, mas teve uma queda de 9% de junho para agosto. A Corrupção aparece em 2º com 17%, também tendo uma recuo: aqui de 4%.

Dois temas merecem destaque e cresceram consideravelmente de junho para agosto: Educação e Inflação e Custo de Vida.

A preocupação com a Educação dobrou de 8% para 16%.

A preocupação com a Inflação e o Custo de vida também dobrou de 6% para 12%.

Destaque ainda para o crescimento em três vezes no quesito salário: de 1% para 3%.

Alguns dados importantes que precisam ser levados em conta:

1 – 46% acreditam que a corrupção vai aumentar nos próximos seis meses. O número vem em uma estabilidade, mas já foi de 24% no início do governo.

2 – 42% acreditam que a violência e a criminalidade aumentaram nos últimos seis meses, 6% a mais do que no levantamento anterior. E ainda tem 22% que acreditam que elas aumentaram muito. 

3 – 63% acreditam que a economia está no caminho errado, 4% acima da pesquisa anterior e voltando ao maior índice desde o começo do governo.

4 – 59% acredita que é ruim/péssima a atuação no enfrentamento a pandemia. Outros 21% disseram ser ótimo/bom.

5 –  A avaliação positiva da ação dos governadores na crise subiu 7% e agora está em 43%. Por outro lado, despencou as avaliações ruim/péssimo: de 31% para 28% e agora para 19%.

6 – 39% tem muito medo da pandemia (este número já foi 55% há alguns meses), mas ele é 3% em relação a pesquisa anterior. Temos ainda 36% que tem um pouco de medo.

Nestes anos de governo, o presidente Bolsonaro conseguiu destruir a imagem das Forças Armadas – coisa que nem a ditadura conseguiu.

Pela primeira vez, mais da metade dos brasileiros acha que a participação de militares no governo e na política é prejudicial para o país, segundo a pesquisa DataPoder.

52% dos cidadãos acreditam que a presença dos representantes das Forças Armadas tanto no governo quanto na política é ruim para o país.

Este valor é 7% maior do que o levantamento anterior feito em abril. Se compararmos com julho de 2020, o crescimento foi de 17% na quantidade de pessoas que acham ruim

Quem mais avalia como positivo para o Brasil:

  • mulheres (37%);
  • entre 25 e 44 anos (39%);
  • moradores do Norte (46%);
  • pessoas com Ensino Superior (38%);

Quem mais avalia como negativo para o Brasil:

  • homens (48%);
  • entre 16 e 24 anos (62%);
  • moradores do Nordeste (60%);
  • pessoas com Ensino Médio (54%);
  • cidadãos que ganham entre 5 e 10 salários mínimos (65%).

Outro dado interessante é que quem avalia o governo Bolsonaro como ótimo/bom tende a acreditar que os militares são bons para o país. A lógica inversa é real: quem diz que o governo é ruim/péssimo acha que a presença das Forças Armadas é ruim para o Brasil.

O que os norte-americanos acham da ocupação do Afeganistão

Pesquisa feita pela Morning Consult entre 13 e 16 de agosto (um dia depois da queda de Cabul) e entre 16 e 19 de abril, ambos neste ano, mostrou que caiu o número de americanos que apoiam a decisão do presidente Joe Biden de retirar as tropas norte-americana do solo afegão.

Em abril deste ano, 69% apoiavam a retirada das tropas. Agora são 49%.
Subiu de 16% para 37% os norte-americanos que se opõe a retirada.

Entre os republicanos, subiu de 33% para 58% a quantidade de pessoas que são contrárias à retirada – e caiu de 52% para 31% quem é a favor.

Nos democratas, 19% são contrários. Em abril, eram 6%.
69% deles apoiam a retirada – antes eram 84%.

Os eleitores ainda foram questionados se apoiavam ou não a retirada da tropas norte-americanas mesmo que isso traga algumas consequências, como a retomada do controle do país por parte do Talibã (o que já ocorreu) ou que se abra uma porta para a Al-Qaeda e outras grupos terroristas retomarem as suas operações.

Podemos ver que os democratas apoiam mais do que os republicanos em ambos os casos. Possivelmente estavam preocupados com a péssima imagem que o Afeganistão teria na gestão Biden – o que já está sendo provado que vai acontecer.

Uma outra pesquisa corrobora a reprovação dos norte-americanos na maneira com que Biden estava lidando com a questão afegã. O ponto principal da pesquisa da Convetion os States Acticon da The Trafalgar Group é que ela foi feita entre 14 e 15 de agosto, terminando assim um dia antes da tomada de Cabul pelo Talibã. Mesmo que a cidade já estava para cair, ainda não tínhamos as imagens terríveis da fuga dos cidadãos e da chegada dos soldados do grupo.

Segundo os dados do levantamento, 69,3% desaprovavam a maneira que Biden estava lidando com as operações militares no Afeganistão. Deste total, quase 60% desaprovavam fortemente. Apenas 12,4% aprovavam.

O cenário muda um pouco quando analisamos as opiniões dos democratas – mas a sensação geral não se altera. Aqui, 48,2% desaprovam (e 36,9% fortemente) e 39,8% aprovam..

A situação é completamente diferente entre os republicanos, onde a desaprovação é de 88,8% – e 80% desaprovaram fortemente. Apenas 7,1% dos republicanos aprovavam. 

O Pix pelo Brasil

A edição #63 da Don’t LAI to me, a newsletter da Fiquem Sabendo, trouxe informações sobre as transferências por PIX no Brasil. Segundo os dados, entre novembro de 2020 e junho deste ano, foram movimentados mais de R$ 1,6 trilhão em todo o país – em mai de 2,4 bilhões de transações.

Para começar, fiz um recorte em Mogi das Cruzes para vermos como os mogianos e mogianas se comportaram com o Pix.

Janeiro/2021 – R$ 306.641.317,27
Fevereiro/2021 – R$ 386.037.759,58
Março/2021 – R$ 508.972.617,21
Abril/2021 – R$ 576.719.318,91
Maio/2021 – R$ 711.672.557,83
Junho/2021 – R$762.605.675,78

Vejamos as 10 cidades que menos fizeram PIX no Brasil em junho de 2021
O interessante é que todas estão ou no Sul ou no Nordeste

Analisemos agora as 10 cidades que mais fizeram PIX no Brasil em junho de 2021
Aqui vale citar a presença, claro, de grandes centros – e São Caetano como intruso no meio das capitais. Por quê? Não sei.

🇦🇫  Como os Estados Unidos falharam no Afeganistão (The New Yorker)

🇦🇫 Os militares norte-americanos passaram anos coletando dados biométricos dos afegãos que ajudaram as Forças Armadas. Agora, o Talibã está com acesso a esses dados e pode identificar esses cidadãos. (The Intercept)

🇦🇫 Entenda como o Talibã quadruplicou sua arrecadação em cinco anos. Grupo extremista se reergueu financeiramente em 20 anos, calcado em atividades ilícitas e tornando-se o mais poderoso empreendimento do Afeganistão. (G1)

🇵🇰 Paquistão: Islamabad se arrependerá por ter ajudado o ressurgimento do Talibã. (Foreign Affairs)

🇹🇯 Por que mais mulheres curdas estão pegando em armas e lutando? (The Guardian)

🇨🇳 O riscos e as oportunidades para a China com a volta do Talibã ao poder (South China Morning Post)

🇺🇸  Os Estados Unidos que não se vacinam e mais se contagiam. Louisiana, com o atual recorde de casos de covid-19 no país, vive o momento mais difícil da pandemia e, ainda assim, metade de sua população permanece sem a imunização por medo, negligência ou rejeição ao Governo. (El País)

🇧🇴 Governo interino da Bolívia torturou e executou opositores, diz relatório da Organização dos Estados Americanos (OEA), lembrando do golpe que levou Jeanine Áñez ao poder. (The Guardian)

🇦🇷 Silvia Labayrú, sobrevivente da ditadura argentina: “Mulheres foram sistematicamente estupradas”. Vítima comemora a condenação a 20 anos de prisão do ex-oficial de inteligência que a tratou como escrava sexual, com a esperança de que mais vítimas denunciem os abusos (El País)

🇭🇹  Diário do Haiti. Os sobreviventes. O relato sobre um país em pleno derretimento – e um presidente assassinado. (revista piauí)

🇵🇪  Quem são os descendentes da nobreza inca que vivem até hoje no Peru (BBC)

🇮🇳  A difícil cobertura da Covid-19 na Índia (Rede de Jornalistas Internacionais)

🇿🇦 O drama “sem fim” dos produtores de vinho da África do Sul. Por conta da Covid-19, os portos foram fechados e uma lei seca causou prejuízos bilionários aos produtores da África do Sul. Agora, faltam contêineres para a exportação. Essa crise acontece um momento em que uma nova geração de enólogos está rejuvenescendo o vinho sul-africano. (NEOFEED)

🇯🇵 As empresas que ajudam pessoas a desaparecer. Todos os anos, algumas pessoas optam por ‘sumir’ e abandonar suas vidas, empregos, lares e famílias. No Japão, elas são conhecidas como ‘jouhatsu’ e existem empresas que as ajudam a fazer isso. (Época Negócios)

🇬🇧 “Celibatário involuntário”: o que se sabe sobre autor do pior ataque a tiros no Reino Unido em uma década. (BBC)

🇪🇸 Radical católico da Espanha treinou extrema-direita brasileira em 2013 com táticas que elegeram Bolsonaro (The Intercept Brasil)

#MandaDicas

Aliado apenas à própria intuição, Ney Matogrosso abriu um caminho único na música brasileira. Enfrentou as intransigências do pai militar e os dogmas da Igreja católica, sobreviveu aos anos de chumbo e à sombra da aids, manteve-se firme diante das promessas de riqueza do showbiz, das críticas a seu “canto de mulher” e da vigilância das censuras. O jornalista e biógrafo Julio Maria passou cinco anos perseguindo a trilha de Ney para contar a história de um dos personagens mais transformadores da cultura do país. Visitou a casa em que ele nasceu em Bela Vista do Mato Grosso do Sul, a vila militar em que viveu a conturbada adolescência com o pai em Campo Grande e o quartel da Aeronáutica que o abrigou como soldado no Rio de Janeiro. Encontrou um irmão mais velho do qual a família não tinha notícias, levantou documentos de agentes que o observaram durante a ditadura e localizou fatos raros da fase Secos & Molhados. Ney Matogrosso ― A biografia vai às camadas mais profundas da história de Ney para entregar a vida de um artista que pagou caro por defender seu direito de ser livre. (Texto – Amazon)
Injustiçados trata de um assunto tabu que passou as últimas décadas no limbo da história brasileira: as execuções que ocorreram dentro dos grupos de luta armada durante a ditadura militar. Tendo como fio condutor os casos de quatro militantes injustamente considerados traidores do movimento revolucionário, Lucas Ferraz faz um corajoso relato de um tema que até hoje é motivo de disputa e silenciamento. Com base em documentos, cartas e depoimentos de guerrilheiros, familiares das vítimas e militares, o autor narra os justiçamentos cometidos dentro da guerrilha e seu contexto ― as infiltrações dos serviços secretos do regime, a disparidade de poder entre a repressão e a guerrilha, e seus personagens-chave. Mais importante, Ferraz recupera a história e o nome das vítimas: Márcio Toledo, Carlos Alberto Cardoso, Francisco Alvarenga e Salatiel Rolim. Julgados à revelia, condenados à morte e assassinados por seus próprios companheiros, eles ganham aqui finalmente uma memória histórica. (Texto – Amazon)
A relação da humanidade com a Cannabis é milenar. Mesmo que, nas últimas décadas, a folha tenha se tornado conhecida por originar a maconha – uma das drogas mais populares do mundo -, os antigos já conheciam seus múltiplos efeitos (muito além da famosa “brisa” que a planta dá em quem a fuma). Lutando contra proibições e associações com o tráfico e o mundo das drogas, pesquisadores há anos têm investido nas propriedades da Cannabis nos mais diversos usos. E, agora, com o avanço do debate pela legalização do uso e comercialização da maconha, as marcas começam a estruturar o “cannabusiness”, um mercado com potencial de lucro bilionário nos próximos anos.

Leituras complementares

Michelle transforma Palácio do Planalto em sede clandestina de cultos evangélicos. Célula da Igreja Batista Atitude no imóvel público é comandada por pastor contratado pelo gabinete pessoal do presidente. (Brasil de Fato)

Governo Bolsonaro pagou cachê para ao menos 32 apresentadores e influenciadores para fazer campanha do governo federal sobre “cuidado precoce”, agenda positiva, o lançamento da cédula de R$ 200, a violência contra a mulher e outras seis iniciativas. (Folha de S.Paulo)

Ruralistas financiam manifestações golpistas marcadas para 7 de setembro (The Intercept Brasil)

Site campeão de compartilhamentos no WhatsApp e no Telegram lidera comunicação bolsonarista (Folha de S.Paulo)

Bolsonaro não usou um terço dos recursos aprovados para políticas para mulheres desde 2019 (Azmina)

Senador bolsonarista e membro da CPI, Luis Carlos Henze (PP-RS) fez fez lobby pela produção da Covaxin em indústrias de saúde animal. (Yahoo Brasil)

Dólar já subiu 39% desde o início do governo Bolsonaro (Poder360)

Só 6 estados brasileiros elegeram mulheres governadoras na história do país (Poder360)

O que muda no “novo Bolsa Família). Programa Auxílio Brasil é marcado por benefícios acessórios que, sem orçamento, vão competir com o principal. (revista piauí)

466 policiais civis se recusaram a se vacinar contra a Covid-19 no estado de SP (Fiquem Sabendo)
 A íntima relação entre cocaína e madeira ilegal na Amazônia. Pesquisadores e policiais apontam uso crescente de cargas de origem florestal na exportação de drogas — madeira de crime ambiental é hoje uma das principais “maquiagens”. (Agência Pública)

Crédito tem cor? Negros sofrem mais rejeição de empréstimo do que brancos (Cultura)

Alcoolismo cresce na pandemia. Em Curitiba, por exemplo, aumentou em 40% a busca pelas reuniões dos Alcoólicos Anônimos. (UOL)

Influenciadoras fogem do estereótipo e conquistam renda nas periferias (Agência Mural)

Algoritmo do Twitter prefere rostos femininos, brancos e magros, demonstram programadores em desafio. A rede social viveu uma polêmica há alguns meses pela forma que recortava as imagens. Agora uma competição em que venceu o doutorando ucraniano Bogdan Kulynych confirma as suspeitas. (El País)

Técnica de ginástica é condenada por assédio sexual contra atleta menor de idade e pode ser banida do esporte. (Yahoo Brasil)

A relação polêmica da moda de luxo com a moda da quebrada (FFW)