#093 – A República de Banas

Semana essa crucial para o clima político no Brasil, muito por causa das convocações para as manifestações de 7 de setembro. O governo tenta mobilizar os seus apoiadores para demonstrar força e flerta com medidas golpistas – ao meu ver, tudo bravata, mas não dá para abaixar o alerta. Houve vários registros de policiais militares apoiando atos inconstitucionais e convocando as tropas para as manifestações. Em São Paulo, por exemplo, o governador João Doria afastou um coronel que convocava seus seguidores – Aleksander Lacerda era chefe do Comando de Policiamento do Interior-7 e fazia posts bolsonaristas com críticas ao Supremo e até ao governador Doria.

O governo está com medo. O entorno do presidente já conta com a possibilidade de um de seus filhos serem presos – o mais provável é o vereador Carlos Bolsonaro, chefe do gabinete do ódio. A turma ideológica está cada vez mais acuada e receosa, muito por causa da prisão recente de Roberto Jefferson (PTB), da queda de sigilo de sites bolsonaristas pela CPI da Covid, pela proibição vinda do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de que as plataformas digitais repassem dinheiro para as páginas de extrema-direita e muito mais.

Bolsonaro continua fazendo a única coisa que ele sabe fazer: tumultuar o ambiente. No mais, não governa. Só busca gerar a instabilidade e criar inimigos para conseguir se manter no poder. Esses dias, ele disse que, para seu futuro, só vê três alternativas: “estar preso, ser morto ou a vitória”, disse sobre 2022. E completou: “Podem ter certeza: a primeira alternativa, preso, não existe”.

Há quem diga que Bolsonaro está tensionando o clima para negociar com o Centrão uma saída honrosa e sem que lhe levem preso – por isso a fala. Seria um acordo de cavalheiros, uma espécie de anistia. Sobre ser morto, ele joga com a possibilidade de virar um mártir para seus seguidores e inflamar ainda mais o país. Sobre a vitória em 2022, o presidente joga na bravata de que as eleições não são limpas e de um caos social caso ele perca – nos moldes de Trump.

Os atos de 7 de setembro serão um bom termômetro. Em São Paulo, por exemplo, teremos atos tanto dos bolsonaristas quanto da esquerda. Ao meu ver, é um erro marcar no mesmo dia. Se o protesto da extrema-direita for mais forte, ferrou. Se não for, o cenário não muda muito. É ver para crer esse morde e assopra do bolsonarismo. O fato é: o presidente nos transformou em uma República de Bananas.

Em nome do pai

Desde a chegada do presidente ultradireitista Jair Bolsonaro ao poder temos visto uma parte mais extremista do país abraçar uma ode violenta ao silenciamento de críticos do presidente. Investigações policiais ou ameaças pelas redes sociais já atingiram acadêmicos, jornalistas, líderes indígenas, pesquisadores e políticos de esquerda como, por exemplo, o ex-deputado federal Jean Wyllys ou a professora Débora Diniz, que precisaram deixar o país.

Agora, este Brasil da intolerância política ganhou um novo capítulo, justamente onde mais se prega a tolerância: dentro da Igreja. Padres, freis e bispos de vários Estados contam como passaram a ser chamados de “esquerdopatas”, “satanistas” e “comunistas” ao atuarem em defesa dos pobres, das minorias ou ao criticarem o presidente. Durante semanas, escutei relatos feitos por religiosos sobre as perseguições que vêm sofrendo de fiéis ultraconservadores da igreja, hoje empoderados pelo bolsonarismo.

O resultado foi publicado na reportagem especial Em nome do pai. Em Fortaleza, o padre Lino, por exemplo, precisou pedir proteção ao Estado, após ser perseguido e xingado dentro da própria Igreja depois de, em uma missa, ter responsabilizado o presidente pela desastrosa política de combate à Covid-19.

Reportagem impecável no El País de Beatriz Jucá, Felipe Betim, Douglas Magno e Fernanda Siebra. Leia aqui.

🇨🇳 China aprovou a primeira Lei de Proteção de Informações Pessoais (PIPL) para entrar em vigor a partir de 1º de novembro deste ano. (Future of Privacy Forum)

🇨🇳 Celebridades chinesas participam de aulas de moralidade em meio a caso de estupro de Kris Wu, celebridade jovem do país. As aulas falam de ética e moral, leis chinesas e até a história do Partido Comunista (South China Morning Post)

🇺🇸 Sindicatos de polícias norte-americanos estão se rebelando contra a obrigatoriedade da vacina contra a Covid-19. (The Atlantic)

🇺🇸 10 dos 13 militares norte-americanos mortos no ataque terrorista no aeroporto de Cabul eram da mesma base, a de Camp Pendleton, em San Diego. Conheça a história deles. (The San Diego Union Tribune)

🇦🇫 Isis-K: quem é o rival do Talibã que ameaça a retirada dos EUA no Afeganistão (CNN)

🇦🇫 O buraco negro da corrupção que estragou o milionário investimento norte-americano no Afeganistão (El País)

🇸🇻 Governo do presidente salvadorenho Nayib Bukele negociou com os principais grupos criminosos do país. O objetivo era conseguir que o número de assassinatos continuasse caindo. (El Faro)

🇨🇺 O modelo da micro e pequenas empresas em Cuba (Cubadebate)

🇦🇷 Em clima eleitoral, Governo argentino tenta aliviar o bolso dos cidadãos. Executivo de Alberto Fernández aprova medidas para reativar o consumo, como parcelamento de compras, concessão de empréstimos e redução de impostos. (El País)

🇲🇽 Mexico recebe parte da equipe de robótica afegã e 124 jornalistas com seus familiares (UOL / Estado de Minas)

🇧🇴 Tribunal Supremo de Justiça vai enviar para a Assembleia Legislativa boliviana uma acusação contra a ex-presidente Jeanine Áñez pelos massacres de 2019 (La Razón)

🇨🇴 Alejandro Gaviria: “Sou o candidato capaz de unir quem pensa diferente na Colômbia”. (El País)

🇨🇴 Johnajohn Campo não se identifica como homem ou mulher, por isso quando ela – como prefere ser chamada – se formou em Artes Plásticas pela Universidade Del Valle da cidade de Cali, ela queria que o diploma reconhecesse o fato de que ela não era nem um homem (maestro) nem uma mulher (maestra), mas sim a primeira “maestre” sem gênero na Colômbia. E ela conseguiu. (La Prensa Latina)

🇬🇧 De frango a doces, desabastecimento de produtos afeta Reino Unido (O Estado de S.Paulo)

#MandaDicas

O amor é uma das virtudes fundamentais do cristianismo. É também uma característica essencial de Deus. Mas o que significa o amor cristão? Como o Evangelho o define? E quais são suas implicações práticas para a vida neste mundo, neste contexto histórico? Amor à maneira de Deus sugere respostas a essas questões. Em cinco capítulos, o Padre Júlio Lancellotti apresenta ao leitor o amor divino como um exercício de compaixão e de misericórdia. Aqui, o amor não é um sentimento, mas um compromisso. Não é exercício de força, mas demonstração de fraqueza. Não é uma abstração ingênua, mas a escolha de humanizar a vida dos vulneráveis e também dos poderosos. A partir de meditações bíblicas centralizadas na pessoa de Jesus, e também com base em suas experiências pessoais e ministeriais, Padre Júlio apresenta uma visão renovada sobre amor que se faz extremamente necessária. Jesus vivia o amor na história, em meio a interesses religiosos, econômicos e políticos. Agora, Padre Júlio convida a todos a fazer o mesmo.
(Texto – Amazon)
“Mama uma vez disse que a cidade era um mapa de todas as pessoas que viveram e morreram nela, e Baba disse que todo mapa era, na verdade, uma história”. Em meio a protestos, conflitos e bombardeios durante a guerra civil de 2011 na Síria, a jovem Nur é forçada a deixar o país em busca de segurança. Quase mil anos antes, Rawiya, aprendiz de cartografia, traça exatamente a mesma rota, numa saga épica por terras desconhecidas. As duas jornadas de amadurecimento se intercalam, enquanto que as protagonistas, embora separadas por séculos de história, espelham as diferentes faces de milhões de refugiados do Oriente Médio e norte da África. (Texto – editora Dublinense)
Assim como o livro publicado pela editora Todavia, o podcast “A República das Milícias” é conduzido pelo jornalista, pesquisador e autor Bruno Paes Manso. O resultado final deve mesclar o material do livro com conteúdos inéditos, em um encadeamento de assuntos que reforça o formato narrativo construído a partir de uma forte influência do storytelling. A cada episódio, elementos do imaginário carioca e curiosidades do Rio de Janeiro – passando pelo trem com um trajeto pela supervia no episódio inaugural até canções da Bossa Nova, o funk e o hip hop – funcionam como fio condutor para o aprofundamento em alguma questão relacionada ao tema central das milícias. A equipe ainda fez uso de diferentes recursos sonoros, como efeitos de distorção, para proteger a identidade de alguns entrevistados.
Mano Brown, um dos maiores ícones da música brasileira, lançou seu podcast chamado “Mano a Mano”. “Falo sobre coisas sérias nas músicas e o podcast é mais um veículo para fazer isso. São papos retos e diretos sobre religião, cultura, sociedade, política e muito mais. É um universo plural e diversificado para ouvir, ser ouvido e ampliar o debate”, conta Mano Brown. Entre os nomes confirmados estão a cantora Karol Conká (episódio que já estreiou), o médico Dráuzio Varela, pastor Henrique Vieira, o treinador Vanderlei Luxemburgo, o político Fernando Holiday e os Meninos da Vila de 1978 – Juary, Gilberto Sorriso e Pita.

Leituras complementares

A vacina suspeita da família Bolsonaro. O filho 01 do presidente envolveu-se pessoalmente na compra de uma vacina americana, a Vaxxinity, não aprovada pela Anvisa, nem pela FDA. O interesse mostra ligações suspeitas com empresários próximos ao clã no Rio de Janeiro. (IstoÉ)

Livros, canivetes e anjos. A lucrativa máquina de vendas que financia Olavo de Carvalho e outras dezenas de figuras de extrema-direita (The Intercept Brasil)

Desemprego só retornar ao nível pré-pandemia em 2023 (Folha de S.Paulo)

IBGE divulga retrato da dificuldade financeira de milhões de brasileiros para se alimentar. Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE mostra que, mesmo antes da pandemia, 41% da população brasileira viviam sem ter a certeza de levar para casa comida em quantidade e qualidade suficientes. (Jornal Nacional)

Pandemia torna evidente a gigantesca desigualdade no trabalho doméstico (NPR)

O impacto subestimado da pandemia na saúde mental de jovens e crianças (Viva Bem)

Achar conteúdo extremista no TikTok é facinho – de terroristas islâmicos a supremacistas brancos (Núcleo Jornalismo)

A cruz e a suástica: o que os nazistas faziam na Amazonia antes da 2ª Guerra (UOL – Terra à vista)

Sapatão não-bináries: não é só sobre amar mulheres. Pessoas que não se identificam nem como homem, nem como mulher, mas que se reconhecem como lésbiques ou sapatão. (AzMina)

Do TikTok ao áudio rápido do ‘zap’, estamos presas em um ritmo alucinante. (UOL)

Big techs prometem investimento bilionário em segurança digital após reunião com Biden. Google, Microsoft, Apple, Amazon e IBM se comprometeram com ações voltadas para cibersegurança. (G1)

Crescimento das fintechs gera debate sobre regulação. Enquanto os “bancões” argumentam que instituições com musculatura expressiva mantêm benefícios reservados aos pequenos negócios, as startups do setor financeiro argumentam que tributação deve levar em conta tamanho e complexidade das operações. (Pequenas Empresas, Grandes Negócios)

Confiança vale mais que o amor pela marca na hora da decisão (Propmark)

Depois da curva, o passado. O que mudou na paleontologia brasileira após um ex-bancário descobrir ossos de dinossauro em Marília. (UOL TAB)

Quanto rende o OnlyFans? Os lucros e perrengues de brasileiras que vendem ‘nudes’ no site. (G1)

Combo de moda e redes sociais transforma celebridades em milionárias (Poder360)

#PrintsBolsonaristas

Tem um Twitter que eu amo que se chama @printsminions. Nada mais é do que uma curadoria de prints ditos pelos bolsonaristas em seus grupos de Telegram. Gosto muito de ver para sair da minha bolha e perceber o quão alucinada as pessoas são e estão. Acho importante a gente ter essa ideia do que está acontecendo por ai.

#GráficosDaSemana

A pandemia nos Estados Unidos está voltando a ficar bem complicada. O país abriu para geral e há muitos norte-americanos que se negam a se vacinar – dois fatores que, somados a variante Delta, estão preocupando o governo.

Segundo o The New York Times, as mortes aumentaram para uma média de mais de 1.000 por dia pela primeira vez desde março. Nos últimos 14 dias, os casos cresceram 20% e as hospitalizações em 25%.

Os casos explodiram em Guam (+195%), Virginia Ocidental (+152%), Dakota do Sul (115%) e Dakota do Norte (+110%), de acordo com o Times. As maiores taxas de morte por 100 mil habitante estão nas Ilhas Virgens (2.20), Mississipi (1.38), Louisiana (1.36), Florida (1.15) e Arkansas (0.99).

Grande parte do Sul está lutando contra seu surto mais sério de pandemia. Na Flórida, o número médio de mortes por dia é maior do que em qualquer outro momento da pandemia. Kentucky tem mais pacientes com coronavírus em seus hospitais do que nunca.

Alguns estados do Oeste, com taxas de vacinação relativamente altas, também enfrentam a nova variante. Os casos no Oregon mantiveram-se em níveis recordes desde meados de agosto, e no Havaí, a média de casos é duas vezes mais alta do que em qualquer outro momento da pandemia.