#096 – RIP 3ª via

Estive na Av. Paulista nesta domingo para acompanhar a manifestação organizada pelo MBL e o Vem Pra Rua. Posso te dizer uma coisa com muita certeza: a terceira via não existe – e se você me acompanha aqui, já sabe que eu venho falando disso tem algum tempo, mas ontem consegui ver com meus próprios olhos.

Começo dizendo por uma diferença clara que notei entre os dois grupos que estavam se manifestando na Paulista: a retórica do discurso. O tom de ambos era bem diferente.

O MBL focava suas críticas no presidente Jair Bolsonaro e no seu governo – mandaram até o Paulo Guedes tomar no cu (!!!). Confesso não ter visto críticas nem ao ex-presidente Lula nem ao PT, por exemplo (digo isso de vozes saídas dos microfones oficiais do carro de som). O tom do discurso era de união (sim, palavra muito usada) e de democracia – essa sim a palavra mais usada pelo MBL. quando seus líderes pegavam o microfone para anunciar algum orador, o pedido era sempre por respeito às opiniões diferentes. Sempre falavam que todos ali tinham diferenças gigantes, mas que o objetivo era tirar o presidente Bolsonaro.

Do outro lado, o Vem Pra Rua tinha um tom de crítica mais forte: os focos eram o ex-presidente Lula e o atual presidente Bolsonaro. Sempre eles falavam do tal “bolsopetismo”, que o Brasil estava caminhando para uma Venezeual, que Bolsonaro e Lula eram ditadores e por ai vai. A retórica era mais radical e de embate.

Grande pixuleco do Vem Pra Rua já mostrando a temática do discurso

Outro ponto bastante importante é a baixa adesão na manifestação – acredito que não tinha nem 5 mil pessoas (e ainda chutando alto). Por quê? Eis a grande questão. Tenho algumas sugestões/chutes:

  • os dois grupos são crias do anti-petismo e, claro, parte da esquerda anti-bolsonarista não aderiu ao chamado deles. Logo, esvaziou;
  • muita gente não confia neles por causa da proximidade histórica de ambos com o bolsonarismo;
  • o país está polarizado. Pouca gente ainda não definiu o seu lado – mesmo essa informação indo ao encontro do que mostram as pesquisas recentes, onde muita gente ainda não sabe em quem vai votar;
  • a 3ª via não tem um nome forte. Vários tentam ser esta persona, mas nenhum ainda engrenou.

Sobre este nome para a 3ª via, alguns postulantes ao cargo estiveram no carro do MBL. Destaco dois: Ciro Gomes (PDT) e João Doria (PSDB), ambos bem aplaudidos e elogiados pelos manifestantes.

Ciro Gomes foi o primeiro a falar e fez um discurso pragmático e de críticas ao presidente. Senti mais um ar de esperança/oportunidade do que de ataques – ele atacou, claro, chamando de genocida e tal, mas ele optou por um caminho mais político e de conquista das pessoas que estavam ali. Interessante que o ex-ministro falou a palavra “povo trabalhador” algumas vezes, contrastando com a característica das pessoas que estavam o ouvindo. No geral, ele foi bem recebido e elogiado – ainda mais porque o PDT estava com uma estrutura bem forte de pessoas, bandeiras, adesivos…

João Doria também falou. O governador é um político nato. Entrou sorrindo, saudando, dando pulos e dançando. Um cara do meu lado começou a coçar a cabeça reclamado, aos risos, de que iria aplaudir o governador – depois ele era um dos mais animados. O tucano foi recebido com gritos de “vacina, vacina…” e presidente – alguns até o chamaram de “pai da vacina”. Doria seguiu sua linha de sempre: emoção, vacina, críticas e pedidos de mudança. Essa palavra foi o tom do discurso dele, já dando ali uma pequena lançada em sua campanha para 2022. O governador que entrou com dúvidas pelos manifestantes, saiu ovacionado e tremulando uma bandeira do Brasil.

Num ato tão aberto, havia mensagens de tudo quanto é tipo.

Tínhamos gente saudosas da operação Lava Jato e que até declararam seu apoio ao ex-ministro Sergio Moro. Tinha gente de esquerda lembrando da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e criticando o MBL, por exemplo. Muita gente lembrou da suposta traição da ex-mulher do presidente Bolsonaro – e placas de “corno” estavam sendo espalhadas pela turma do MBL.

Algumas pessoas lembraram do preço dos produtos; uma placa lembrou do depósito de R$ 89 mil na conta na primeira-dama Michelle Bolsonaro; houve gente criticando os militares, por exemplo. Vi placas chamando de cúmplice o presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) – e isso eu não tinha visto em atos da esquerda, por exemplo. Houve gente, claro, que lembrou dos mortos pela pandemia.

Queria destacar uma bandeira que vi três vezes: uma cobra enrolada com a frase “Don’t tread on me”, hasteada por jovens da UJL – Juventude Livre, jovens ligados ao grupo Livres que, segundo eles mesmos, são “uma organização que aglutina estudantes de todo o país em defesa da liberdade de se afirmar, viver e pensar, além de propor a renovação do movimento estudantil brasileiro, reerguendo-o em face dos paradigmas do pluralismo, do empreendedorismo, do mercado livre e global, do Estado Democrático de Direito, da sustentabilidade ambiental, da liberdade de expressão e associação e do respeito à diversidade”.

Voltando para a foto: trata-se da bandeira de Gadsden, criada pelo  general e político americano Christopher Gadsden (1724-1805), que a projetou em 1775 durante a Revolução Americana. Na atualidade, há algumas utilizações para ela. Nos EUA, o símbolo passou a ser associado à extrema-direita desde que foi adotada pelo Tea Party, ala radical do Partido Republicano.

A Folha de S.Paulo ainda lembra que a imagem é um símbolo ligado ao ultraconservadorismo norte-americano e esteve muito presente durante o governo Trump e na invasão do Capitólio. O movimento QAnon, por exemplo, chegou a fazer uma versão para si, com a cobra enrolada em formato de Q.

No Brasil, é muito associada, online, ao movimento anarcocapitalista (ou neofeudalismo) que prega uma sociedade sem Estado onde todas as interações humanas seriam reguladas pelo mercado, segundo o site Ponte Jornalismo.

Outra mensagem bastante clara foi a tal terceira via, ao meu ver, a mensagem por trás de todo este ato – como eu já disse anteriormente.

Bastava andar para ver pessoas com camisetas de “nem Lula nem Bolsonaro”, claras pedindo uma outra possibilidade de voto, discursos entre as pessoas… enfim: muita gente estava ali porque não acreditava nem em um nem em outro. O problema é: em quem e no que eles acreditam?

Um levantamento coordenado pelos professores da Universidade de São Paulo (USP) Pablo Ortellado e Márcio Moretto, entrevistou 841 manifestantes na Avenida Paulista e entendeu o que pensavam aquelas pessoas.

Segundo os dados levantados:

  • 37% dos entrevistados se disseram de esquerda ou centro-esquerda e 34%, de direita ou centro-direita;
  • 85% concordaram que “para o impeachment de Bolsonaro, é preciso uma ampla aliança que vai da direita à esquerda”, mas 38% disseram que não participariam de uma manifestação junto com o PT;
  • outros 33% responderam que não ocupariam as ruas ao lado da CUT, e 31% não protestariam com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST);

“O resultado é bem contraditório. As pessoas que foram ao ato querem uma frente ampla contra Bolsonaro, mas quase 40% dizem que o PT é demais pra engolir. Um pedaço da direita não engole o PT, e um pedaço da esquerda não engole o MBL. Uma frente ampla para aprovar o impeachment ou para derrotar o Bolsonaro no segundo turno de 2022 precisa superar essas duas resistências” Pablo Ortellado, professor da Universidad de São Paulo (USP)

O levantamento analisou como as pessoas da manifestação se comportariam na eleição de 2022 e, claro, num possível segundo turno.

Ciro Gomes (PDT) apareceu em primeiro lugar (16%), seguido de Lula (14%) e do ex-juiz e ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, Sergio Moro (11%).

João Amoedo (Novo) e João Doria (PSDB) aparecem com 8% e 7%, respectivamente. Outros 31% afirmaram não saber em quem votar.

Podemos perceber que as pessoas dali caminhavam para uma opção “nem Lula nem Bolsonaro”, com o Ciro na frente, mas com o petista e o atual presidente pontuando super bem. Interessante que o sentimento anti-petista ainda prevalece mesmo com Lula tendo 14%.

Mas em um segundo turno, Lula teria 54% enquanto que 40% anulariam ou votariam em branco – um percentual similar ao que não aceita protestar ao lado do PT. Ou seja: as pessoas não votariam em Bolsonaro nem em Lula, mas o anti-bolsonarismo está sendo maior do que o anti-petismo.

Resumindo a ópera:- a terceira via não existe. Ou ela se mexe logo ou já era mais ainda;
– Ciro Gomes (PDT) pode ser o nome dos “nem nem”, mas vai ser duro pra ele;
– o anti-bolsonarismo tende a ser maior do que o anti-petismo, mas isso não quer dizer que as pessoas vão votar no Lula ou no PT. Como a esquerda conquista essa turma?
– em quem essa turma vai votar num 2º turno entre Lula e Bolsonaro? Ou não vão nem em um nem em outro e teremos índices gigantescos de nulos/brancos?

🇺🇸 Virgínia remove estátua de General Robert Lee, líder confederado (BBC)

🇺🇸 Por que a extrema-direita norte-americana admira abertamente o Talibã (MSNBC)

🇨🇦 Hidrelétricas da canadense Brookfield são investigadas por ameaças a moradores e inundação de cidade mineira (The Intercept Brasil)

🇦🇷 Resultado das eleições primárias na Argentina é uma derrota para o governo de Alberto Fernández e para o kirchnerismo. (Clarin)

🇲🇽 México descriminaliza o aborto em decisão unânime da Corte (El Universal)

🇵🇪 Abimael Guzmán, maior líder do grupo peruano Sendero Luminoso, morreu aos 86 anos. Ele cumpria prisão perpétua por liderar ataques considerados terroristas no país. (El Comercio)

🇵🇪 Vargas Llosa, sobre o abuso que sofreu quando menino: “Me distanciei por completo da religião, mas garotos do meu bairro nunca se recuperaram” (El País)

🇻🇪 No encalço do agente secreto mais procurado das Américas: Hugo Armando Carvajal, conhecido como El Pollo é um ex-general de Hugo Chávez, considerado o elo do governo chavista com as FARC e procurado pelos EUA por tráfico de drogas. (El País)

🇨🇱 11 de Setembro chileno é lembrete para escalada autoritária na América Latina. (Folha de S.Paulo)

🇺🇾 Uruguai recebeu pedido formal da China para avançar na assinatura de acordos de livre comércio (Presidência do Uruguai)

🇸🇻 Em El Salvador, ONU pede respeito a Constituição, ao Estado de Direito e a separação dos Três Poderes depois de manobras do presidente Nayib Bukelele. (El Tiempo)

🇬🇹 Daniel Ortega, presidente guatemalteco, pede a prisão de seu ex-vice presidente e escritor Sergio Ramirez. A acusação é de “conspiração para minar a integridade nacional, atos que fomentam e incitam o ódio e a violência e lavagem de dinheiro”. (El Periodico)

🇧🇴 Funcionário da embaixada argentina na Bolívia presenciou a chegada de armamento argentino para a Força Aérea Boliviana (FAB) usar durante o golpe de Estado contra o então presidente Evo Morales (Pagina12)

🇭🇹 Haiti avança para uma nova Constituição (El Economista)

🇧🇾 Maria Kolesnikova, opositora de Alexander Lukashenko e líder das manifestações na Bielorússia, é condenada a 11 anos de prisão (CNN)

🇦🇫 A ideologia do Talibã: uma mistura de fundamentalismo islâmico e costumes pashtuns (El País)

🇦🇫 Na Universidade, mulheres afegãs devem estudar em salas de aula exclusivamente femininas, afirma o Talibã (The Guardian)

🇦🇺 Tribunal da Austrália decidiu que empresas de mídia podem ser responsabilizadas por comentários difamatórios de terceiros em suas páginas do Facebook. (ABC News)

🇭🇺 Em visita à Hungria de Orbán, Papa pede que bispos abracem a diversidade (O Globo)

#MandaDicas

Nesta reportagem eletrizante, as premiadas jornalistas do New York Times Sheera Frenkel e Cecilia Kang revelam como Mark Zuckerberg e Sheryl Sandberg tentaram negar o fato de que o Facebook se tornou um canal de desinformação, discurso de ódio e propaganda política, enquanto buscavam o crescimento da plataforma a qualquer preço. Com depoimentos de centenas de fontes privilegiadas, Uma verdade incômoda reconstitui as polêmicas que envolveram a rede social desde 2016 – que incluíram violação de privacidade dos usuários, influência russa nas eleições americanas e manipulação de dados pessoais para propagar fake news. Embora Zuckerberg e Sandberg viessem repetidamente a público pedir desculpas por suas “decisões equivocadas”, as autorasapresentam uma conclusão aterradora: tais erros não foram pontos fora da curva, mas inevitáveis – porque é assim que o Facebook foi programado para funcionar.
Contra a moral e os bons costumes disseca as políticas sexuais da ditadura brasileira, abordando o controle moral violento e repressivo direcionado aos grupos LGBT pelo aparato militar nos anos de chumbo. Professor de direito da Unifesp, advogado e ativista no campo dos direitos humanos, Renan Quinalha utiliza farta documentação de época, em especial os arquivos trabalhados pela Comissão da Verdade, para demonstrar que, apesar de ter raízes históricas mais antigas, no regime iniciado com o Golpe de 64 a repressão às pessoas que desafiavam a heteronormatividade ganhou nova dimensão. Além de revelar a sistematização da violência em todos os níveis – perseguição e censura a veículos como Lampião e Chana com Chana, fechamento dos pontos de encontro da comunidade, prisões, espancamentos, tortura –, Quinalha demonstra como um movimento social tão jovem como o LGBT conseguiu não apenas sobreviver, mas trilhar um caminho de conquistas de direitos fundamentais. (Texto – Companhia das Letras)
Tido como um farol jurídico da atividade online em nosso país, o Marco Civil da Internet, de 2014, está sofrendo alterações a toque de caixa. Às vésperas das manifestações de 7 de setembro, contra o Congresso e o STF e em apoio ao presidente Bolsonaro, o governo federal publicou uma Medida Provisória que muda drasticamente a forma de se fazer monitoramento e gestão de redes sociais no Brasil. De acordo com o projeto, a moderação, exclusão e classificação de conteúdos indevidos não caberia mais às plataformas, mas a processos judiciais – e redes como Facebook, Twitter e Instagram, perdem a prerrogativa de deletar, banir ou excluir membros da sua rede, mesmo em casos que propaguem discurso de ódio ou fake news. Do outro lado da trincheira, o governo alega falta de transparência, decisões arbitrárias, insegurança nas regras de uso das redes e até mesmo ataques à liberdade de expressão. Não é difícil encontrar casos polêmicos de moderação que corroborem esses e outros questionamentos. O Mamilos tentou entender como equilibrar a corda bamba entre redes sociais e Estado no controle das redes sociais. Como é possível fazer um bom uso das plataformas e combater o ódio e a violência online sem afrontar o direito básico do posicionamento público. A quem cabe ser o fiel dessa balança? De volta à mesa, o professor e colunista Pablo Ortellado. E, pela primeira vez no Mamilos, o diretor do InternetLab Francisco Cruz. Juntos com Cris Bartis eles conversam sobre essas e outras questões da atividade online, da política e da nossa sociedade. (Texto – Mamilos Podcast)

Leituras complementares

Fracasso previsível de atos contra Bolsonaro escancara impasse brasileiro (Folha de S.Paulo)
 Palanque cheio e chão vazio: os paradoxos das vias alternativas para 2022 (O Globo)

Grupos bolsonaristas no Telegram explodiram após recuo de Bolsonaro e decepção predominou (Núcleo Jornalismo)

Falta de apoio militar freou radicalização, diz cientista político (Valor)

Agência Lupa checou informações relacionadas às manifestações de 7 de setembro (Lupa)

Efeitos da crise política para o PIB em 2022 já são inevitáveis (O Estado de S. Paulo)

Presidente do TSE planeja abrir códigos-fontes das urnas (Poder360)Barbacena, a cidade-manicômio que sobreviveu à morte atroz de 60.000 brasileiros. Maioria dos internos era de alcoólatras, homossexuais, mães solteiras … suposta escória enviada à cidade mineira, que enfrenta o passado com um Museu da Loucura e uma atenção mental que virou referência. (El País)

Os anti-vacina estão aprendendo a manipular o algoritmo de TikTok – e estão se tornando virais (VICE)
 Novo Código Eleitoral protege propaganda política em igrejas (Poder360)

Uma em quatro mães brasileiras vivendo na pobreza enfrenta depressão pós-parto (ONU)

Uso de ivermectina afetou saúde reprodutiva de 85% dos homens (Yahoo Brasil)

Como um grupo de aracnólogas está combatendo o machismo na ciência (UOL)

Isolamento e desemprego agravam dependência química na pandemia (O Estado de S. Paulo)

A vida numa balsa de garimpo. (UOL)

Carne ainda mais cara e pecuária mais poluente: os efeitos da mudança climática (BBC)

Crise e vaidade fazem fervilhar mercado de compra e venda de perfis nas redes (Núcleo Jornalismo)

Como o algoritmo do TikTok determina seus desejos mais profundos (The Wall Street Journal)

#ChargeDaSemana

As imagens de 11 de setembro de 2001

Foto – Alex Webb
Foto – James Nachtwey
Foto – Suzanne Plunkett
Foto – Richard Drew
Foto – Stan Honda
Foto – Susan Meiselas

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