#098 – E se o Bolsonaro nem for candidato?

Quem me acompanha por aqui (e agradeço muito se você faz isso), sabe bem que ando falando bastante sobre dois temas: a tal terceira via e a possibilidade do presidente da República nem vir a concorrer em 2022.

A começar por essa ideia de que Bolsonaro sequer venha como candidato no ano que vem. Sim, acredito nessa possibilidade – e não sou apenas eu. Na semana passada, a jornalista Mônica Bergamo disse em sua coluna que os líderes do Centrão já começam a discutir essa possibilidade. Ela disse algo que já veio comentando: a possibilidade de Bolsonaro não passar vergonha com uma derrota gigantesca e dele tentar um acordo para ter o apoio dos parlamentares na defesa dos processos contra seus filhos.

Outro que disse algo parecido foi o ex-prefeito do Rio de Janeiro Cesar Maia, em entrevista ao O Globo“Na balança de probabilidades, o mais provável é desistir da candidatura sem decepcionar seu time por ficar fora do segundo turno. E desenhará uma desculpa para seus aficionados: tipo, ‘assim não dá para governar’. Ele já vem repetindo esse discurso”, afirmou.

Tivemos ainda um fato importante e que não podem dizer nada – ou podem: o ministro chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, tem dito para interlocutores que o seu Partido Progressista (PP) não quer mais filiar o presidente. O Patriota, por exemplo, outro partido apontado como destino do presidente, está cada vez mais distante de Bolsonaro.

Ao meu ver, existe sim a possibilidade de não concorrer. Para ele, isso pode ser bom. O presidente já sabe que a situação está complicada para ele e ele também sabe que a tendência é que ele perca e feio. Para que então entrar em uma disputa e sair derrotado, sendo que ele pode sair por cima de tudo? Como? O presidente pode entrar com o discurso de que a eleição é fraudada (ele já fez muito isso), que o sistema não o deixa governar e não o deixaria num segundo mandato, que o Supremo fez de tudo para soltar Lula e que não merece confiança e que ele não iria disputar para se sujeitar ao establishment – isso sem contar com as falas contrárias aos governadores e prefeitos (os responsáveis pela crise financeira) e a perseguição da CPI. Com essa narrativa, o presidente não perde, não sai feio na foto e ainda sai como um Messias para seus seguidores.

Diante desse contexto, não duvido nada que um grande acordo nacional (lembram da chegada do Temer, a cara do presidente e a conversa com o ministro Alexandre de Moraes?) pudesse ser feito para livrar – nem que for um pouco – a barra do presidente e de seus filhos – e assim, todos pudessem voltar para suas áreas de milícia.

Acredito nisso tudo? Não sei – mas não duvido nem um pouco.

Puxando então para a terceira via, a capa da revista Veja dessa semana trouxe um Bolsonaro “paz e amor”. Sim: a maior publicação do país colocou um presidente anti-democrático com jeito de estadista e com um ar de que dá para aceitá-lo. A grande pergunta que ficou é: por quê?

Ao meu ver, deve-se a pesquisa recente do IPEC que mostrou o ex-presidente Lula na margem de levar no 1º turno. Com isso, setores da sociedade ficam com medo da volta do PT e começam a aceitar o Bolsonaro no poder. Sim: é isso mesmo. Acredito que parte da sociedade pode engolir o atual presidente para não ver Lula de volta no Planalto. O anti-bolsonarismo vai pautar o debate, mas o anti-petismo ainda respira – e muito.

Outra questão que fica é: num cenário de 2º turno entre Lula e Bolsonaro, em quem essa turma vota? Eis o grande problema da eleição não ser decidida logo. Não duvido nem um pouco que muita gente vai em Bolsonaro – elas não engolem o sapo barbudo, mas engolem um miliciano ladrão de vacina e responsável pela morte de 600 mil brasileiros. 

🇺🇸 Steve Bannon, estrategista de Trump e ídolo do clã Bolsonaro, admite que planejou o comício do então presidente no dia 6 de janeiro para “matar a presidência de Biden no berço”. (Independent)

🇨🇦 Os resultados da eleição no Canadá mostraram uma divisão aprofundada entre os canadenses que vivem em áreas urbanas, que escolheram principalmente candidatos liberais, e aqueles que vivem em áreas rurais que votaram no Partido Conservador (Global News)

🇨🇳 Banco Central chinês declara ilegais todas as transações em criptomoedas (BBC)

🇨🇳 Apogeu e queda de Xu Jiayin, o fundador da Evergrande. Chegou a ser o homem mais rico da China. Agora, as Bolsas desabam temendo o contágio pela eventual falência da sua imobiliária. (El País)

🇯🇵 Conheça Sanae Takaichi, liderança política vinculada ao grupo Nippon Kaigi e que ascende no cenário político japonês e pode se tornar a primeira mulher a ocupar o mais alto cargo de liderança no país. O Nippon Kaigi é um grupo ultranacionalista japonês, suas principais pautas são: o retorno da monarquia e dos poderes divinos do imperador; revisionismo histórico e negação dos crimes de guerra cometidos pelo Japão na II Guerra; oposição ao feminismo e igualdade de gênero. (The New York Times)

🇩🇪 Presidente Bolsonaro deu entrevista para Markus Haintz, fundador do Querdenken, organização conspiracionista e negacionista que liderou as manifestações contra o lockdown na Alemanha (Observatório da Extrema Direita)

🇪🇸 Líder separatista catalão Carles Puigdemont é preso na Itália (El País)

🇪🇸 Marcha de nazistas em Madrid prolifera mensagens de ódio a comunidade LGBTQIA+ e tem conteúdos racistas (La Vanguardia)

🇷🇸 Djokovic é fotografado com Milan Jolovic, ex-comandante militar que participou de genocídio contra bósnios em Srebrenica na Bósnia e Herzegovina.  (Al Jazeera)

🇮🇸 Islândia é primeiro país europeu a eleger uma maioria feminina para o Parlamento (AP)

🇸🇲 San Marino aprova legalização do aborto em referendo (G1)

🇩🇰 🇫🇮 🇮🇸 🇳🇴 🇸🇪 O que significa a volta da esquerda ao poder nos 5 países nórdicos após 60 anos (BBC Brasil)

🇦🇫 Campeãs de taekwondo se sentem derrotadas pelo Talibã no Afeganistão (Yahoo Brasil)

🇮🇷 Seleção feminina de futebol do Irã derrota a Jordânia nos pênaltis e se classifica pela primeira vez na história para a Copa do Mundo (Associação Asiática de Futebol)

🇦🇷 Economia argentina é um vulcão a ponto de estalar, diz Javier Milei, líder da extrema-direita e fenômeno eleitoral (Folha de S.Paulo)

🇨🇱 Chilenos se manifestam contra refugiados em Iquique. Marcha chamada “Estrangeiros não mais” terminou com ataque aos locais de acolhimento dessas pessoas (La Tercera)

🇨🇱 Candidato de esquerda no Chile promete levar atual presidente à Justiça por repressão nos protestos de 2019 (O Globo)

🇵🇪 Foi cremado o corpo Abimael Guzmnán, histórico lídero do Sendero Luminoso, grupo considerado terrorista por muitos (El Comercio)

🇨🇺 Cuba já produziu 30 milhões de doses da vacina Abdala para garantir a vacinação da população maior de 19 anos (Cubadebate)

🇨🇴 Presidente Ivan Duque se encontrou com Jeff Bezos para que o milionário doasse US$ 1 bilhão para o meio ambiente (Forbes)

🇸🇷 Vice-presidente do Suriname é titular de time do qual é dono em torneio da Concacaf aos 60 anos. (Globoesporte)

🇷🇼 Ruanda declara culpado de terrorismo o herói do filme “Hotel Ruanda”.  Ministério Público pede prisão perpétua para Paul Rusesabagina, cuja história se refletiu no filme. Ele se tornou opositor do Governo de Paul Kagame. (El País)

🇸🇩 Militares do Sudão dizem ter impedido entrada da Etiópia em seu território enquanto população se manifesta na região (Al Jazeera)

🇹🇳 Milhares vão as ruas da Tunísia para protestar contra o presidente Kais Saied e pedindo a sua saída. É a maior manifestação popular desde que Saied tomou o poder. (Reuters)

#MandaDicas

Em 1887, Nellie Bly tinha 23 anos quando recebeu do editor do jornal World a missão de se infiltrar como paciente no famigerado “asilo de lunáticos de Blackwells Island”, em Nova York. Munida apenas de sua audácia, a jovem repórter soube usar sua sagacidade para convencer médicos, policiais e juízes de sua insanidade simulada. A ironia desse fato não escapou à jornalista, que denunciou o despreparo dos profissionais que selaram seu destino e de tantas outras mulheres. Uma vez internada, a situação se agrava: “desde o momento em que entrei no hospício da ilha, não fiz nenhum esforço para me manter no suposto papel de louca. Falei e agi exatamente como faço no meu dia a dia. Por incrível que pareça, quanto mais eu agia e falava com lucidez, mais louca me consideravam”.  As páginas que se seguem à internação de Bly são repletas de relatos que nem mesmo seu estilo espirituoso é capaz de atenuar. Enfermeiras sádicas, instalações precárias, médicos despreparados e pacientes indevidamente internadas são alguns dos horrores que a levam a concluir: “à exceção da tortura, que tratamento levaria uma pessoa à loucura com mais rapidez?”. Depois de resgatada, Bly escreveu a série de reportagens reunidas neste livro, clássico do jornalismo investigativo norte-americano e documento incontornável da luta antimanicomial. Mais de 130 anos depois de sua publicação, Dez dias num hospício continua assustadoramente atual. (Texto – Amazon Brasil)
Para o humorista Gregorio Duvivier, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) usa o humor como uma ferramenta efetiva para se comunicar com seus seguidores, principalmente os mais jovens, enquanto a esquerda está séria e ofendida, na sua visão. “O ultrajado no Brasil é uma categoria muito elitista; não atrai ninguém”.
Ao testemunhar o roubo de uma bolsa, o motorista acelera o veículo por ruas, becos e vielas do centro da cidade. O assaltante percebe que está na mira e tenta fugir. O fim da linha é um muro alto para onde o condutor arremessa o veículo, prensando metade do corpo do fugitivo entre as ferragens. Antes de descer cambaleante do automóvel, Gerardo recebe aplausos efusivos de uma pequena multidão. É detido em seguida, sob protestos, pela polícia. Algemado, o personagem interpretado por Marcelo Alonso afirma orgulhoso que apenas apenas cumpriu um dever cívico: limpar as ruas de criminosos. A história do justiceiro viraliza. Mais aplausos. Essas são cenas iniciais de Aranha, filme chileno que acabou de estrear no Brasil. O filme fala desse extremismo de direita e tem muita relação com o momento atual do planeta. (Texto – Matheus Pichonelli. Leia aqui sua análise completa)

Leituras complementares

Base fiel bolsonarista passa por uma hiperradicalização (Folha de S.Paulo)

Empresa de ex de Bolsonaro teve 1.185 saques que somam R$ 1,1 milhão em espécie entre 2008 e 2014 (O Globo)

A morte em segredo. O conhecido médico negacionista Anthony Wong morreu de Covid-19, mas isso foi escondido por 123 profissionais do hospital da Prevent Senior (revista piauí)

Prevent induziu competição de médicos para ‘bombar’ kit Covid (UOL)

Com gasolina cara, brasileiros se arriscam com gás de cozinha em carro (BBC)

Promotora do DF publica propaganda nazista nas redes sociais. Seu pai é um ex-delegado chamado Hitler Mussoline Pacheco. O MP já investiga o caso. (O Globo / Poder360)

O Brasil será Stalingrado do século XXI? Desde os “meninos de Steve Bannon” até os neofranquistas na Espanha: quem são as figuras da extrema direita mundial que estão ao lado de Bolsonaro para enfrentar “o esquerdista mais perigoso do mundo” num confronto que definirá os rumos da política global na próxima década. (Jacobin)

Grupos de esquerda ainda ralam para fazer barulho nas redes. Movimentos populares costuram esforço de articulação para ocupar redes com campanhas coordenadas, tática frequente de grupos de direita, que conseguem fazer mais barulho do que adversários políticos. (Núcleo Jornalismo)

Juíza nega aborto legal para menina vítima de estupro e teria exposto sentença no WhatsApp (Agência Pública)

Garimpo causa má formação e desnutrição em crianças Yanomami, denunciam lideranças indígenas (Amazônia Real)

Existe um rosto que engaja melhor no Instagram? No livro “O Instagram está padronizando os rostos?”, autora acende o debate da pasteurização das características individuais e tenta entender essa busca. (Elástica)

Delegado Da Cunha inventou prisão de chefe do PCC e simulou operações, dizem policiais (Folha de S.Paulo)

Mãe de santo, curou presidente… Quem é a misteriosa matriarca do samba? (UOL)

Modelos de lojas do Brás usam mansões dos Jardins como cenário para ensaios fotográficos na rua. (G1)

Demonização de Cosme e Damião por evangélicos dá corda para intolerância religiosa (Folha de S.Paulo)

Casas de aposta esportiva tomam o Brasil, mas movimentam seus bilhões de reais fora do país. Atividade é legalizada há três anos, mas uma legislação precária faz que empresas operem com sede no exterior. Popularização levanta debate sobre consequências psicológicas como a dependência. (El País)

Nos erros de reconhecimento facial, um “caso isolado” atrás do outro. Presos por engano, cientista de dados, mototaxista e motorista têm algo mais em comum: são negros (revista piauí)

Tem dia que é só isso. Em São Paulo, famílias relatam comer descartes de supermercado, mesmo passando mal depois (UOL)

#GráficosDaSemana

#MapaDaSemana

Resultado da eleição do Parlamento canadense. Os liberais terão mais cadeiras, seguidos pelos conservadores – nada muito diferente do que já existia por lá. (Fonte – America Elects/Twitter)

#FotoDaSemana

Neste domingo, a Alemanha votou para substituir a chanceler Angela Merkel depois de 16 anos no poder. Na última sexta, a política foi ao Bird Park e se deixou fotografar com os pássaros.
(Foto: Georg Wendt/DPA)