#115 – O bolsonarismo sem Bolsonaro

As coisas continuam ladeira a baixo para o presidente da República. A recente pesquisa DataPoder manteve o que os levantamentos anteriores já vem mostrando: Lula liderando a disputa e Bolsonaro com um índice de rejeição altíssimo. A situação do presidente não está nada fácil – e não é apenas por causa desses números.

Outro grande problema para o presidente está no equilíbrio complicado, complexo e tênue entre sua base radical de extrema-direita e o Centrão fisiológico. Em 2018, o então candidato Bolsonaro criticou, fortemente, os partidos do Centrão e a política tradicional, tudo sustentado pelas milícias digitais radicais da extrema-direita. A História está ai: o bolsonarismo venceu e comanda o país.

Mas 2022 não é 2018 – e o governo Bolsonaro precisou se aliar com o Centrão para não sofrer o impeachment e conseguir sobreviver. O custo disso foi altíssimo – e não digo apenas em dinheiro. O presidente precisou dispensar diversos ícones do bolsonarismo ligados a ala radical e ideológico que o elegeu. Nomes como dos irmãos Weintraub, do ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, o ex-secretário de Cultura Roberto Alvim, o chanceler olavista Ernesto Araujo, o terraplanista e ex-ministro Osmar Terra, entre outras pessoas, foram expurgados e deram mais espaço para o Centrão. Bolsonaro usou dessa turma e descartou assim que pode.

O fenômeno que fez acontecendo é um ruído (que pode virar uma grande fissura) entre o bolsonarismo e o Bolsonaro. Como eu já disse aqui algumas vezes, o Bolsonarismo sobrevive sem o presidente, mas a questão é se o presidente sobrevive sem os seus seguidores de extrema-direita. Ao meu ver, não. Bolsonaro precisa da sua tropa de choque que gira em torno de 15% – tanto é que ele continua dando sinais para essa tropa: a mensagem da vez é a vacinação infantil. O ponto é: Bolsonaro, ao mesmo tempo, continua afagando o Centrão fisiológico, uma turma política odiada pelos extremistas bolsonaristas. E ai? Como fica?

Sinais já estão acontecendo. O ministro das Comunicações Fábio Faria estão processando o ex-chanceler Ernesto Araújo por calúnia e difamação. 

Os ex-ministros Weintraub e Araújo criticaram, recentemente, a aliança de Bolsonaro com o Centrão. Segundo O Globo, Para Araújo, o grupo “começou a dominar o governo e pautar o governo”, prejudicando a política externa. Já Weintraub disse que os conservadores foram “substituídos por essa turma”. Na conversa, ainda estava o pastor Silas Malafaia que disse que o ministros Ciro Nogueira (Casa Civil), Flávia Arruda (Secretaria de Governo) e Fábio Faria (Comunicações) não se empenharam na aprovação do nome de Mendonça, que demorou quatro meses e meio para ter sua indicação analisada pelo Senado. 

Nessa última semana, Weintraub voltou ao Brasil e quer disputar o governo de São Paulo – mas Bolsonaro não tem gostado disso porque já apontou o nome do o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas para o pleito. Segundo a Veja, o fator Weintraub já está mexendo até no clã Bolsonaro: Eduardo e o pai, teriam brigado. Um acusa o outro de ter criado o “problema” Weintraub. De acordo com a revista, Bolsonaro teve que ouvir do filho que foi ele quem levou para dentro do Planalto os irmãos — Arthur entra na conta — negacionistas. Depois, foi ele quem protegeu por um longo tempo o ex-ministro da Educação que acabou saindo do país para escapar do STF. Ainda de acordo com a Veja, Eduardo foi lembrado que não apenas amparou e bajulou Weintraub em eventos de direita promovidos por ele, como esteve o tempo todo em contato com os radicais que agora atacam o pai no Planalto. 

Dentro desse cenário, o bolsonarismo pode sim manter a sua radicalização e se distanciar do presidente Bolsonaro. Essa turma da extrema-direita acha, muitas vezes, que o presidente deveria ser mais duro e romper com as instituições democráticas – basta ver como foi em 7 de setembro. Ao que tudo indica, Bolsonaro vai passar (e logo), mas o bolsonarismo ainda vai permanecer por muito tempo, com ou sem ele.

🇨🇱 Gabriel Boric, presidente do Chile. “Não espero que as elites concordem comigo, mas espero que elas deixem de ter medo de nós”. (BBC)

🇨🇱  A origem e o perfil dos novos ministros no governo chileno de Boric. (La Tercera)

🇵🇪 Os peruanos estão limpando com as mãos o petróleo derramado no mar pela Repsol. (El País)
 🇭🇳 Governo de Xiomara Castro, em Honduras, começa com polêmica no Congresso.
(La Prensa)

🇨🇴 Íngrid Betancourt entra em campanha para a presidência da Colômbia. (RFI)

🇧🇴 Bolívia cede a grupos anti-vacinas e suspende a exigência do comprovante de vacinação em lugares públicos. (Infobae)

🇨🇷 Os indecisos predominam a poucos dias das eleições na Costa Rica. (Hola News)

🇪🇨 Presidente do Equador vai fazer uma consulta popular para realizar as reformas trabalhista, do Conselho de Participação Social e do sistema judicial do país.
(El Universo)

🇨🇺 CIA não encontra “campanha mundial” de qualquer potência estrangeira que estaria por trás da misteriosa “síndrome de Havana”. (Washington Post

🇧🇫Tiros ecoaram de acampamentos militares em Burquina Faso, quando soldados amotinados exigiram mais apoio para sua luta contra militantes islâmicos e manifestantes saquearam a sede do partido político do presidente Roch Kabore. (Reuters)

🇸🇩 Amira Osman, ativista dos direitos das mulheres no Sudão, é presa. (Al Jazeera)
 🇧🇾 Facebook fechou duas páginas curdas que espalharam desinformações de que os curdos seriam recebidos na União Europeia caso fossem para a fronteira de Belarus e da Polônia. (Voa News)

🇵🇱 Ameaças de morte e telefonemas: as mulheres que atendem aos pedidos de ajuda um ano após a proibição do aborto na Polônia. (The Guardian)

🇧🇪 Em Bruxelas, polícia dispersa manifestação de negacionistas. (Time)

🇨🇿 Cantora tcheca morre após contrair Covid-19 propositalmente para obter passaporte de vacinação. (g1)

🇦🇲 Presidente da Armênia renuncia e cita “tempos difíceis”. (UOL)

🇬🇧 Reino Unido alerta que Rússia enfrentará sanções severas se colocar “regime fantoche” na Ucrânia. (Reuters)

🇺🇦 Ajuda militar “letal” dos EUA começa a chegar na Ucrânia. (Bloomberg)

🇷🇺 Os EUA são ingênuos sobre a Rússia, mas a Ucrânia não pode se dar ao luxo de ser. Putin está certo sobre uma coisa: um vizinho livre, próspero e democrático é uma ameaça ao seu regime autocrático. (The Atlantic)

🇨🇳 China: os 3 pilares da expansão do país na América Latina em 2 anos de pandemia. (Yahoo Notícias)

#MandaDicas

Neste celebrado romance de Elena Medel há duas mulheres: María, que no final dos anos 1960 deixa sua pacata cidade de província para trabalhar em Madri; e Alicia, que faz o mesmo caminho trinta anos mais tarde, por razões bem diferentes. AS MARAVILHAS é um romance sobre o dinheiro, ou melhor, sobre como a falta de dinheiro pode determinar uma vida inteira de precariedade e matar, um a um, todos os sonhos de alguém. E, também, uma jornada sobre o passado recente da Espanha, do final da ditadura franquista até a explosão do feminismo, contada por duas mulheres que tampouco podem ir às manifestações lutar pelos seus direitos porque têm, claro, de trabalhar para garantir o seu sustento. (Texto – Todavia)
A série Prove Sua Inocência conta histórias de pessoas que foram presas e, em alguns casos, também condenadas por crimes que não cometeram. A partir daí, analisa a cadeia de omissões e irresponsabilidades que levou a essas prisões, buscando entender as falhas presentes no sistema de policiamento e no sistema penal brasileiros que permitem a ocorrência dessas injustiças.
(Texto – Ponte Jornalismo)
Na próxima terça-feira (25), o desastre em Brumadinho completa três anos. Em 2019, o rompimento de uma barragem na mina do Córrego do Feijão, operada pela Vale, deixou 270 pessoas mortas —sete vítimas ainda não foram encontradas. Em seu novo livro, “Arrastados”, ​a jornalista e escritora Daniela Arbex reconstitui a tragédia minuto a minuto, com base em depoimentos de quem estava lá, e narra os esforços empreendidos na operação de resgate e os impactos do desastre na vida de centenas de pessoas. Na conversa com Eduardo Sombini, Arbex conta os detalhes da apuração que deu origem ao livro e aponta por que o rompimento da barragem foi, em sua avaliação, uma tragédia anunciada. A autora diz que a Vale sabia dos riscos e não tomou as medidas necessárias em Brumadinho e sustenta que, enquanto o modelo de negócio da mineração continuar priorizando o lucro em vez da vida humana, ninguém estará seguro. (Texto – Ilustríssima Conversa)

Leituras complementares

Para rejeitar diretriz do SUS, Saúde diz que hidroxicloroquina funciona e vacina não. (Folha de S.Paulo)

Bolsonaro decide não reconduzir o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub no Banco Mundial. (Gazeta do Povo)

2022 e eleições: Lula vs Bolsonaro: desinformação e risco de golpe segundo pesquisadores. A Pública entrevistou Pablo Ortellado e Carolina Botelho sobre o que pode decidir o voto, quais as semelhanças com as eleições de 2018 e os desafios para o próximo governo. (Agência Pública)

Bolsonaro recupera terreno em redes sociais com internação. (Folha de S.Paulo)

Mario Frias e Eduardo Bolsonaro partem para cima dos irmãos Weintraub. (Metrópoles)

Brasil registra 4 vezes mais mortes de crianças de 0 a 4 anos por Covid do que de maiores de 5. (Folha de S.Paulo)

Damares, Bolsonaro, Queiroga e o circo da morte. Ministros voaram para São Paulo em busca do primeiro cadáver infantil da vacina no Brasil. (The Intercept Brasil)

Importação, porte e registro de armas disparam sob Bolsonaro. (Poder360)

Telegram tem “Tinder antivax” e classificados para negacionistas. (Metrópoles)

5 dados que mostram como brasileiros ricos passam bem pela pandemia. (BBC Brasil)

Publicidade da SECOM no Facebook mira estudantes, Forças Armadas e “família”. (Núcleo Jornalismo)

Os desafios do Brasil em sua volta ao Conselho de Segurança da ONU após 10 anos. (BBC Brasil)

O êxodo brasileiro. Entre 2015 e 2020, o número de brasileiros vivendo no exterior cresceu 55%. (revista piauí)

Como será o mundo 4ºC mais quente? (Big Think)

Contaminadas por mercúrio. Mesmo com ameaças de garimpeiros e carro incendiado como “recado”, estudo conseguiu identificar a contaminação de mulheres em vilarejo no Amapá. (Agência Pública)

Gordofobia não é “mimimi”, é preconceito institucionalizado. (CNN Brasil)
[OBS: reportagem que contou com a fala da minha amiga e pesquisadora Agnes Arruda de Mogi da Cruzes]

Mulher rica faz seis horas de trabalho doméstico a menos que mulher pobre. (BBC Brasil)

Como a medicina discrimina pessoas não brancas e mulheres. (The Economist)

Venda de livros cresceu 29,3% em 2021 e faturamento do setor superou R$ 2,2 bilhões. (O Globo)

Os barrancos e os voos de Elza Soares, síntese colossal da alma brasileira. (TAB UOL)

Qual é o perfil do público que assiste ao BBB? (Meio&Mensagem)

Saiba como Jade Picon ficou famosa na internet, aumentou fortuna da família e conquistou mais de 15 milhões de seguidores. (Extra)

Guerra interna do PCC faz mais uma vítima na zona leste de São Paulo. (UOL)

#GrafoDaSemana

via @Pedro_Barciela
Os últimos dias registraram uma nova fissura no bolsonarismo: um cluster (1) que era de 1,4% dos usuários que citam Bolsonaro no início da semana chegou aos 2,2% e entrou em rota de colisão com o restante do bolsonarismo. O motivo? A rebelião dos irmãos Weintraub. Para termos uma base de comparação, desde o início do ano o bolsonarismo registra uma média de 33,6% dos atores que citam Bolsonaro no Twitter. Assim, 2,2% dos usuários pode até parecer pouco quando analisamos o todo, mas pode ser uma baixa considerável para o bolsonarismo. A possibilidade de Bolsonaro recorrer, mais uma vez, à radicalização para manter a coesão do bolsonarismo não pode ser descartada. Porém, assim como observamos no pós 7/setembro, esse tipo de movimento pode cobrar um preço muito alto se pensarmos em um cenário eleitoral.

#FotosDaSemana

Não olhe para cima. (Foto – Sérgio Lima)
Gabinete de ministros do Chile de 1990 x Gabinete de ministros do Chile de 2022. (via @JamesGMatheson)

#ChargeDaSemana