Brasil, o eterno voo de galinha

O Brasil ainda não é visto como um país “sério” pelo resto do mundo. Para esclarecer meu pensamento, vamos voltar alguns anos atrás. Nove anos após o regime militar, o país criou o Real. Na ocasião, a novidade veio carregada de otimismo. De fato, o trabalho da equipe econômica da época foi muito importante para sustentar o sonho de se tornar um país relevante no âmbito econômico mundial. O objetivo era controlar a inflação e difundir um sistema monetário confiável para grandes investimentos e empresas internacionais. 

Porém, após a criação do plano Real, algumas crises internacionais como a do México (1994), a crise do pontocom (2000), o atentado das torres gêmeas (2001), a crise da Argentina (2001/2002) e a do subprime (2008), atrapalharam os planos do país. O problema é que não foram somente questões externas que dificultaram os objetivos nacionais, mas poucas ações internas foram tomadas para que houvesse crescimento no Brasil e a roda da economia nacional não saiu da inércia.

Apesar de as crises muitas vezes serem as vilãs, tendo a acreditar que países emergentes, com grande espaço para desenvolvimento, podem se beneficiar em momentos de tempestades. Vejamos a crise atual causada pelo COVID-19. 

A pandemia fez com que vários países do mundo baixassem os juros como forma de estimular a circulação da moeda por meio de empréstimos baratos. Com mais dinheiro trafegando, há mais consumo por parte da população e, como consequência, maior geração de empregos. Ou seja, a economia volta a se aquecer.

Mas, historicamente, países com economias mais maduras já têm taxas de juros baixas e uma nova redução pode gerar juros real negativo. Sendo assim, alguns investimentos realizados nestes locais apresentam perdas. É difícil imaginar que um investimento em um país tão desenvolvido quanto a Suíça, por exemplo, possa ser negativo, mas isso é o que está acontecendo no momento. 

O Brasil, por sua vez, que não apresenta juros tão baixos, poderia se beneficiar na atual situação atraindo investimentos estrangeiros que buscam melhores retornos. Quando falo em investimento estrangeiro, estou falando de centenas de milhões de dólares que poderiam entrar no Brasil – montante que geraria negócios, valorizaria a moeda, acarretaria empregos, dentre muitas outras coisas.

E por que ainda não vimos a cor deste dinheiro? Porque o investidor estrangeiro não confia no Brasil e prefere alocar seus recursos em mercados com taxas igualmente boas, porém mais confiáveis, como a Índia ou o México.

Veja o gráfico abaixo. Ele mostra o fluxo de dinheiro estrangeiro na bolsa de valores brasileira (B3) ao longo dos últimos anos. Como é possível observar, nunca saiu tanto dinheiro do país quanto agora.

Muitos são os motivos para o estrangeiro ainda não confiar no Brasil. Mas quero salientar três fatores que julgo mais relevantes no momento. O primeiro e, na minha opinião o mais importante, é a forma como o governo está gerenciando a pandemia. Erros na escolha das prioridades, ausência de diálogo e a politização da pandemia demonstram fragilidade do governo. 

Segundo: dúvidas perante o futuro do país. Mais uma vez, o governo parece enfraquecido quando não dá sinais claros de que algumas reformas importantes passarão ou se serão feitos investimentos necessários em infraestrutura e educação. Além disso, o risco eminente de um novo impeachment também prejudica a imagem do Brasil.

Em terceiro lugar, poucas empresas brasileiras se atentam a práticas de ESG (Environmental, Social and Governance – Ambiental, social e governança), princípios básicos que estão sendo cada vez mais priorizados pelo investidor estrangeiro. 

É fato que muita coisa deve ser feita no âmbito de saneamento básico, segurança e saúde também, mas, assim como muitos, acredito que a educação é a prioridade. Um país sem uma educação fortalecida não consegue sustentar nenhum crescimento econômico, pois não haverá sociedade forte para isso. Afinal, a confiança de um país também passa pelas pessoas que ali vivem.