Cannabis medicinal não é droga: por que precisamos parar de tratar ativistas e pequenos produtores como se fossem traficantes

Ativismo é uma luta agridoce. Por um lado a gente comemora com força as pequenas conquistas, por outro precisamos digerir algumas notícias que fazem com que fiquemos reflexivos e ao mesmo tempo revoltados.

Eu sou a Bárbara Arranz, pesquisadora, ativista pró-cannabis medicinal e criadora da Linha Canábica. Neste momento me encontro em uma dessas encruzilhadas da vida, onde celebro algumas conquistas e ao mesmo tempo reflito sobre o quanto ainda precisamos avançar.

Vou explicar os motivos que me levaram a essa reflexão, mas antes gostaria de contar um pouco mais para vocês sobre quem sou e o que eu faço.

Ativismo e Linha Canábica

Sou biomédica especializada em genética de espécies na Learn Sativa University, da Flórida e Terapeuta Canabica. Estudo a cannabis há mais de uma década e meu fascínio pela planta e suas propriedades começou ainda na faculdade. Atualmente moro na Espanha, onde vim estudar cannabis e expandir a minha linha de produtos, a Linha Canábica.

A Linha Canábica é uma linha vegana de produtos à base de cannabis. São cosméticos e também o óleo full CBD, que pode ser usado no tratamento de uma série de enfermidades. A linha foi criada em 2019 à partir de um forte desejo meu de levar a cannabis e suas propriedades ao maior número de pessoas que eu conseguisse.

Nem todo mundo sabe, mas eu sou de Mogi das Cruzes, cidade a cerca de 50 quilômetros de São Paulo. Mogi não é uma cidade pequena, mas tem aquela mentalidade de interior – o que dificultou um pouco as coisas para mim, especialmente no começo.

No início eu cuidava de 100% da produção, da divulgação e da distribuição dos produtos. A Linha Canábica começou nos fundos da minha casa, foi crescendo à partir do boca a boca e hoje está prestes a ser regularizada pela União Europeia, com dois produtos já aprovados e em processo de produção em larga escala.

Mas, apesar de ter sido um crescimento rápido, não foi nada fácil. Minhas páginas nas redes sociais foram constantemente atacadas e derrubadas. Pessoas que não entendiam meu propósito e não faziam ideia do que era a maconha medicinal julgavam o que eu fazia, tentavam de toda maneira me desanimar. Mas eu resisti e hoje começo a colher os frutos desse empenho.

Vocês imaginem a minha tristeza ao abrir as notícias do meu país e descobrir que um rapaz que também pesquisa a cannabis e produz o óleo para fins medicinais está estampando os noticiários como se fosse um traficante perigoso? O mais irônico nisso tudo é que ele é da minha cidade natal, Mogi das Cruzes.

Como o ativismo é retratado pela mídia

Um rapaz de Mogi das Cruzes, São Paulo, que plantava cannabis em sua residência para pesquisa e extração do óleo da planta estampou a capa dos noticiários recentemente. Enquanto trabalhava em sua casa, ele teve o local invadido pela força tática da polícia que disse ter recebido denúncias de que ele tinha drogas no local. A “droga” era a maconha.

Em sua residência, o ativista possuía pés de cannabis e um pequeno laboratório dedicado ao estudo da planta e a extração do óleo. A polícia apreendeu os pés de maconha, os insumos e os equipamentos do laboratório e levou o rapaz para a delegacia. Ele não ofereceu resistência e foi preso.

Mesmo fazendo questão de avisar a todo momento que era ativista e que produzia o óleo de cannabis para fins medicinais, o rapaz provavelmente vai responder criminalmente por tráfico 

de drogas.

Essa notícia me entristeceu profundamente. Primeiro pela maneira como a história foi contada, pintando o ativista como um bandido perigoso. Segundo porque aconteceu na mesma cidade de onde vim, o que mostra que as coisas não mudaram muito. E terceiro porque estamos em 2020 e a cannabis medicinal ainda é tratada dessa maneira.

Mesmo com milhares de estudos ao redor do mundo mostrando como os componentes da cannabis podem ser benéficos para diversas enfermidades como depressão, insônia, epilepsia e até câncer. Mesmo com milhares de pacientes diagnosticados com Autismo recebendo a cannabis medicinal e apresentando melhora incomparável. Mesmo com a ciência tendo descoberto um conjunto de receptores cerebrais que reagem positivamente aos componentes da cannabis. Mesmo com tudo isso, a cannabis ainda é retratada como uma planta perigosa.

Paralelos inquietantes

No final de 2019, a Anvisa liberou a produção de medicamentos à base de cannabis no Brasil. Sem grandes detalhes, a medida permitiu que farmacêuticas pedissem autorização para produzir e comercializar produtos à base de cannabis medicinal no território nacional. De lá para cá, apenas 1 laboratório obteve licença para produzir o óleo de cannabis.

De vez em quando, vemos surgir na mídia notícias de famílias que, após muita luta na justiça, conseguem o direito de usar a cannabis medicinal e de cultivar a planta para fins medicinais. Embora essa possibilidade exista, ela ainda é burocrática e está longe de atender às necessidades de todos os que poderiam se beneficiar da cannabis.

Embora esse passo da Anvisa tenha trazido uma alegria momentânea, notícias como a que eu escrevi no começo deste artigo mostram que ainda estamos muito, muito longe de parar de tratar a cannabis como droga perigosa e passar a tratá-la como uma planta com muitos benefícios para a saúde.

Mais do que isso, parece que no Brasil ainda estamos muito longe de construir uma indústria canábica que permita que pequenos produtores tenham a liberdade de plantar seus pés de cannabis, extrair o óleo e não ter suas casas invadidas e saqueadas por causa disso. 

Neste momento escrevo esse artigo de Madri, onde estou vivendo. Aqui, faço parte de um grupo de estudos sobre cannabis na Universidade Federal de Madri. Também gerencio a minha Linha Canábica, que há poucas semanas foi regularizada pela União Europeia. Para completar, dois produtos à base de cannabis que desenvolvi foram aceitos por laboratórios espanhóis e serão produzidos em larga escala.

Se por um lado eu deveria ficar feliz com todas essas conquistas – e eu estou, por outro fico com um sentimento agridoce de ver como o ativismo é tratado no Brasil. Não, isso não vai me desanimar e nem me fazer desistir do meu país, de maneira alguma. Na verdade, essas questões só me fazem sentir ainda mais vontade de lutar para que, em breve, tenhamos no Brasil as mesmas oportunidades que encontrei na Espanha quando o assunto é o estudo da cannabis medicinal e a criação de fármacos à base dela. 

Desde que eu comecei a estudar cannabis, meu propósito é mostrar que todo ser humano tem direito à saúde e a buscar meios que lhe proporcione melhor qualidade de vida. A cannabis pode representar essa melhora na vida de muitas pessoas e elas deveriam ter acesso tanto à informações sobre isso quanto à planta e seus derivados.

Não podemos mais continuar agindo como se a cannabis fosse uma vilã a ser combatida e crucificando ativistas e pequenos produtores que acreditam no poder da planta. Estudos, pesquisas e depoimentos de pacientes mostram que a realidade é muito diferente. A cannabis transforma histórias, devolve qualidade de vida a muitas pessoas e ainda pode representar uma indústria que beneficiará milhares de pessoas. 
Se você não conhece muito bem o poder da cannabis medicinal, te convido a ler sobre os principais estudos envolvendo cannabis medicinal ao longo do tempo. Também te convido a me seguir no Linkedin, pois estou frequentemente postando conteúdo que visa trazer conhecimento e educação sobre a cannabis medicinal e o ativismo em torno da planta.