Do que você gosta?

Se concentre nessa pergunta do título.
Do que você gosta?

É muito difícil responder essa pergunta. Quando viramos mãe, muitas vezes nosso prazer se torna único e exclusivamente dormir e nossos gostos ficam perdidos por aí! Sempre fico intrigada quando ouço ou leio frases de mães do tipo: “Não sei como vivi minha vida sem meu filho”, “Nem lembro como era minha vida antes do meu filho nascer”, “Não me reconheço mais sem meu bebê”. Gente, isso é triste! É como se não fôssemos mais ninguém além de mães e que nossa vida antes disso (Seja 20, 30, 40 anos) não fizesse sentido e não tivesse importância. Não! Isso não tá certo.

Quando Matheus era bebezinho mesmo, acho que com 4 ou 5 meses, fui assistir uma palestra sobre disciplina positiva. Não, não é o intuito do texto escrever sobre isso, mas sim sobre o que a palestrante perguntou pra mim.

Ela olhou pra mim e pro Gabriel, viu que estávamos esgotados (acho que qualquer pai e mãe de um bebê de 4 meses que não dorme transparece em suas olheiras o cansaço), e perguntou: Se você pudesse escolher uma coisa que você queria voltar a fazer de antes de ter seu bebê, o que seria? Minha resposta foi: -Voltar a ter uma refeição sentada e com comida quente.

Foi a primeira coisa que veio na minha cabeça, dada naquela resposta em reflexo, sabe? Sem pensar muito. O Gabriel ficou com uma cara de perplexo na hora.

No final da palestra, ele me perguntou o porquê de eu não ter falado isso pra ele antes. Sim, era muito importante pra mim voltar a ter uma refeição quente e feita com calma. Mas eu não havia verbalizado isso pra ele. E nem pra ninguém.

Sempre que íamos comer, seja em casa, seja na casa dos meus sogros, dos meus pais ou de amigos, eu ficava em pé, com o Ma no colo, acalentando choro, fome, enquanto todos comiam. Só depois que alguém acabava de comer e trocava comigo é que eu comia. E você me pergunta: Mas ninguém se oferecia pra ficar com ele nesse momento? Quase todo mundo, inclusive o Gabriel. Mas no meu inconsciente, ou sei lá o que, eu achava que era papel da mãe ficar lá, esperando todos comerem pra depois eu comer. Então eu nunca aceitava e nem pensava nessa possibilidade.

Viemos de Campinas pra Mogi das Cruzes filosofando e pensando sobre isso. O Gabriel não se importa em comer comida fria, quente, sentado, em pé ou no sofá. Eu me importo. Em uma autoconservação, percebi que pra mim, isso é um auto-cuidado. Comer com calma, saborear, comer com a comida quente e sem gritaria e choro. E porque não me permitir isso se é tão importante pra mim, se isso me faz tão bem?

Nesse momento eu faço uma conexão com meu texto com o título de “Da pra comprar o enxoval completo?” e volto a dizer que tem duas coisas muito importantes pra uma mãe: saber o que te faz feliz (algo simples, da rotina de antes do bebê) e saber aceitar e pedir ajuda, e não se achar menos mãe ou menos super-heroína por isso.

A partir desse dia, tento constantemente pensar em mim! Ver, naquele momento, o que me faz bem. Tem dia que quero fazer um yoga. Tem dia que quero estudar e/ou assistir um curso. Tem dias que quero abrir um vinho e fazer uma chamada de vídeo com uma amiga. Então eu aprendi a verbalizar com clareza meus pedidos de ajuda. Ao invés de esperar que alguém se ofereça ou perceba minha necessidade de ajuda naquele momento eu digo em alto e com som: -Alguém pode levar o Ma no jardim para que eu possa terminar o almoço? -Sogra, consegue ficar com o Matheus pra mim de tarde e dar janta pra ele às 18:30 para que eu possa não fazer jantar nesse dia? -Gabriel, você pode descer com o Matheus para que eu possa dormir mais uma hora? -Irmã, pode cortar o pimentão e a cebola pra mim pra mim enquanto eu brinco de carrinho com o Matheus? – Pai, você pode ficar com o Matheus essa noite para que eu saia para tomar um vinho com minhas amigas (ah saudades de sair
antes da pandemia, né?).

Nós não somos, não precisamos ser e nem devemos ser mães super-heroínas. Divisão de tarefas e pedidos claros de ajuda são sim necessários para que possamos manter nossa sanidade mental e a de quem convive com a gente (já que uma mãe a beira de um ataque de nervos não faz bem nem pra ela, nem pro(s) filho(s), nem pra quem convive com ela).

Depois dessa palestra específica eu acabei fazendo um curso de Disciplina Positiva e um processo de desenvolvimento pessoal com essa mesma profissional. E fui aprendendo como nos faz bem verbalizar o que sentimos, nos auto observar para descobrirmos o que gostamos, o que não gostamos, em que somos bons no que somos ruins, quais os pontos que podemos melhorar, quais os que podemos desenvolver e qual, simplesmente, podemos demandar para outra pessoa ou pedir ajuda. Isso tira um peso das nossas costas e deixa nossa maternidade muito mais leve.