[EDIÇÃO EXTRA] – Pesquisa eleitoral 2022

Nesta quarta-feira, a Genial Investimentos e a Quaest Consultoria e Pesquisa divulgaram o primeiro levantamento político de 2022. A pesquisa trouxe informações sobre o governo Bolsonaro, as eleições presidenciais desse ano, muitas percepções sobre a Covid-19 e a economia do país, dentre outros pontos importantes. Para falar desse levantamento, envio essa newsletter especial feita em uma noite chuvosa de quarta-feira.

Importante falar que a pesquisa quantitativa conversou pessoalmente com duas mil pessoas entre 06 e 09 de janeiro que são eleitores com 16 anos ou mais. O nível de confiabilidade é de 95%, segundo a pesquisa.

Resumo do resumo para você ler e entender todo o cenário.
1 – A eleição vai ficar entre Lula e Bolsonaro.
2 – A terceira via não vai decolar porque eles miram no PT e não no Bolsonaro e a tendência é que o pleito gire em torno do anti-bolsonarismo.
3 – O ambiente negativo ao governo deu uma leve acomodada.
4 – As pessoas estão voltando com a preocupação sanitária e reduzindo a econômica. O que isso pode inteferir no debate eleitoral?

Dúvidas? Sugestões? Análises? Esclarecimentos? Opiniões?
Me responda este e-mail e vamos conversar.
Boa leitura!

Começaremos pela avaliação do governo do presidente Bolsonaro

50% avaliaram como negativo e 22% como positivo – isso sem contar os 25% como regular.

O que precisamos notar aqui é que o índice negativo se manteve o mesmo de dezembro – ou seja: não houve mais brasileiros críticos ao governo. Por outro lado, cresceu 1% as pessoas que avaliam o governo como positivo, percetual este que saiu dos regulares que recuou de 26% para 25% entre dezembro e janeiro. A avaliação positiva já vem crescendo desde novembro, quando estava em 19%

Será que o presidente Bolsonaro conseguiu angariar mais alguns apoiadores por causa da possibilidade real de perda da eleição? Será que seus ex-apoiadores retornaram para a base bolsonarista pois não viam a possibilidade da terceira via ganhar? Será que o discurso radicalizado reacendeu a chama na extrema-direita e ela vem se reunificando novamente? São questões que acredito serem verdadeiras.

Podemos ver essa avaliação em extratos – renda, idade, sexo…
E ai temos dados bem interessantes.

De novembro até janeiro, caiu 8% o número de homens que avaliou negativamente – isso vem depois de um crescimento de 12% entre agosto e novembro do ano passado. Mas isso não significa que eles avaliam positivamente: essa opinião subiu apenas 2% de dezembro para agora. Eles estão em dúvida: os que acham regular cresceram de 24% em novembro para 29% agora. O ponto é: por que eles estão em dúvida e estão retornando para apoiar Bolsonaro?

Caiu a avaliação negativa nas pessoas com idade entre 25 e 24 anos e 35 e 44 anos – por outro lado cresceu a opinião negativa entre quem tem de 16 a 24 e mais de 60 anos.

Subiu a avaliação negativa entre quem tem Ensino Superior incompleto ou mais. Nas outras faixas de escolaridade, a avaliação negativa se manteve – mas subiu a positiva, por exemplo, tanto no Fundamental (+2%) quanto no Médio (+1%). Por que as classes menos escolarizadas estão avaliando mais positivamente mesmo em um contexto de desemprego, inflação, crescimento da pobreza e aumento da Covid-19?

Os mais ricos avaliam mais negativamente – e a lógica da análise anterior prevalece. Entre quem mais ganha de 5 salários mínimos, subiu 8% a avaliação negativa de dezembro para janeiro. Por quê os ricos estão desaprovando Bolsonaro? Entre quem ganha até dois salários mínimos, o índice vem caindo desde novembro: de 60% para 52% agora – e o positivo subiu de 15% para 18% no mesmo período. Por quê? A pesquisa deixa a entender que isso tem relação com as pessoas que receberam o Bolsa Família ou o novo Auxílio Brasil.

Quando vemos as regiões do país, temos informações interessantíssimas. A principal, ao meu ver, é a queda de 5% na avaliação negativa no Nordeste. Será resultado das políticas de renda já fazendo efeito? Outro ponto fora da curva é o aumento de 4% na opinião negativa no Centro-Oeste, bastião bolsonarista. O que levaria a esse crescimento? Talvez problema com os combustíveis em uma região agroexportadora?

Nas religiões, vale destacar a manutenção em 55% da avaliação negativa entre os católicos, depois de um crescimento vertiginoso desde julho do ano passado. Importante ressaltar também a redução em 2% da avaliação negativa nas outras religiões, que hoje está em 54% o menor índice desde julho de 2021.

Vejamos agora a percepção que as pessoas têm do jeito que o presidente está lidando com determinados assuntos – e se o governo está com elas esperavam que estivesse

  • 80% desaprovam o combate à inflação – maior índice entre os temas propostos.
  • 63% não veem com bons olhos a atuação do presidente no combate à Covid-19 e na geração de novos empregos.
  • o  tema com o maior índice de aprovação é o combate à corrupção (36%).

Em relação a Covid-19, 54% avaliam negativamente, 7% a mais do que o levantamento feito em julho de 2021. Hoje, 23% dizem ser positivo, 5% abaixo da pesquisa anterior.

Quando vemos por sexo, temos:

  • 61% das mulheres avaliam negativamente, 14% a mais do que em dezembro de 2021;
  • entre os homens, manteve os 47%, mas caiu os positivos de 32% para 28% e subiu os regulares de 19% para 23%.

A pesquisa pegou a base de eleitores do presidente em 2018 e questionou se o governo estava pior ou melhor do que eles imaginavam.  

Para 36% está pior do que esperavam, 8% a mais do que o levantamento de julho de 2021. Naquela época, 36% diziam que estava nem melhor nem pior e 35% apontavam que estava melhor do que esperavam.

Agora tudo se inverteu como podemos ver no gráfico. Ou seja: os apoiadores do presidente se decepcionaram com ele pois acham que o governo está pior do que esperavam. A questão é: pior como? Por causa das questões sociais ou da péssima gestão da pandemia? Ou por que o presidente ficou mais “paz e amor”, ao reduzir o radicalismo e fazer concessões ao Centrão?

O fato é que os bolsonaristas simplesmente aceitavam o governo porque achavam que ele seria aquilo mesmo, mas hoje eles já enxergam que não era bem isso: que poderia piorar e piorou, seja como for.

Os problemas do Brasil e as percepções do brasileiro

A questão da Covid-19 voltou com força no país. O gráfico mostra, claramente, uma queda na preocupação de julho até novembro e, a partir de então, um crescimento constante até este mês. Agora, 69% estão muito preocupados, contra 62% estão muito preocupados e 25% estão pouco preocupados.

Mulheres (76%) são mais preocupadas do que os homens (60%).

Outro dado que mostra essa retomada da preocupação com a pandemia é quando a pesquisa perguntou sobre o principal problema do país.

Em julho do ano passado, a saúde/pandemia liderava. A partir de setembro, a economia tomou a frente e abriu vantagem na preocupação, mas a partir de novembro, começou a cair e já encosta com a saúde/pandemia.

Hoje, a economia ainda é o principal problema para 37%, queda de 11% de novembro para agora. Para 28%, é a saúde/pandemia, crescimento de 11% no mesmo período.

Para 51%, a pandemia vai voltar neste ano com novas variantes. Outros 30% acreditam que ela vai ficar estabilizada como agora, com casos não muito numerosos. E apenas 14% acredita que ela estará sob controle e a viva vai voltar para a normalidade. Coincidência ou não, mas este último extrato é a mesma quantidade de pessoas consideras do núcleo duro radical do bolsonarismo.

Para 72%, as crianças devem ser vacinadas agora. Outros 20% acreditam que elas não devam ser vacinadas. Mais uma vez, coincidência ou não, mas este valor é bem próximo dos índices de aprovação do presidente – o que mostra que a vacinação infantil virou uma pauta ideológica e política.

Como vimos acima, a economia ainda continua preocupando o brasileiro.

A pesquisa perguntou: “Como ficou sua capacidade de pagar as próprias contas nos últimos três meses?”. 51% disse que piorou e 30% que ficou igual. Para 18% (olha o bolsonarismo ai), a capacidade melhorou.

Entre quem ganha até dois salários mínimos, 60% disseram que piorou – índice que fica em 45% entre as outras faixas salariais. Ou seja: os mais pobres sofreram mais.

No Nordeste, 57% disse que piorou – maior índice entre todas as regiões. No Norte, 35% falou que a capacidade melhorou, o maior percentual.

A pesquisa ainda cruzou essa capacidade de pagar as contas com a avaliação do governo Bolsonaro:

  • entre as pessoas que disseram que piorou, 12% avaliaram o governo positivamente e 60% negativamente.
  • entre quem disse que a situação melhorou, 43% avaliaram o governo positivamente e 28% negativamente.

Mesmo com todo este cenário caiu a quantidade de pessoas que acham que a economia brasileira piorou no último ano. Hoje, 66% disseram isso – eram 73% em novembro.

Mas isso não quer dizer que elas acham que melhorou – 12% avaliam isso (olha ai o índice próximo ao núcleo duro extremista do bolsonarismo). Há mais brasileiros achando que ficou do mesmo jeito: subiram de 14% em novembro para 20% agora.

E, para o futuro da economia, o brasileiro está otimista. 43% acredita que vai melhorar nos próximos 12 meses – crescimento de 2% em relação a dezembro e 4% ante outubro.

Por outro lado, caiu quem ache que vai piorar: hoje são 28% e já foram 34% em novembro.

Mas vem subindo quem acredita que vai ficar como está: de 20% em novembro para 24% agora em janeiro.

A questão é: eles acreditam em uma melhoria do governo Bolsonaro ou está já vislumbrando uma troca de poder em outubro.

E aí vem o grande assunto deste 2022: as eleições presidenciais!

A pesquisa já mostra o que vem sendo dito faz tempo: Lula liderando, Bolsonaro na segunda posicão e ninguém fazendo sombra para os dois.

Na análise estimulada, o ex-presidente Lula (PT) aparece com 45% dos votos, seguido de Bolsonaro (PL) com 23% e Sergio Moro (Podemos) com 9%.

Ciro Gomes (PDT) tem 5%, João Doria conta com 3% e Simone Tebet (MDB) tem 1%. Temos ainda 8% de branco/nulo/não vai votar e 4% de indecisos.

Quando vemos a média dos cenários desde julho, Lula (PT) veio crescendo de julho até novembro e, a partir de então, teve um leve recuo de 3%. Esse momento cruza, justamente, com alguns índices que já falamos anteriormente, como o início da a queda da avaliação negativa de Bolsonaro e o aumento da preocupação com a pandemia, por exemplo. Coincidência? Acho que não. O sinal dos petistas precisa ficar ligado porque essa tendência não pode continuar caso eles queiram ganhar.

Já Bolsonaro (PL) veio caindo de julho até novembro, mas cresceu em dezembro, mas recuou agora em janeiro. Ou seja: este final de ano foi de instabilidade eleitoral para o presidente, mas de ganho num geral e, possivelmente, de cristalização em torno dos 20% de votos. Ao que tudo indica, o ex-capitão vai tentar manter este percentual, conseguir alguns apoios do Centrão, canalizar o sentimento anti-petista e ir ao segundo turno.

Moro (Podemos) manteve-se na casa dos 10% e ainda não decolou. 
Ciro Gomes (PDT) murchou demais: recuou de 11% em outro para 5%.

A intenção de voto espontânea mostra um cenário interessante.

52% das pessoas estão indecisas.
27% querem Lula (PT) e 16% Bolsonaro (PL).
Moro (Podemos) e Ciro (PDT) tem 1% cada.

Sem mostrar os nomes dos candidatos, as pessoas ainda não sabem em quem elas vão votar. Isso é interessantíssimo e mostra que ainda tem muito jogo para ser jogado.
Mas algumas coisas estão claras.

  • o jogo vai ficar entre Lula (PT) e Bolsonaro (PL);
  • as pessoas começam a lembrar mais de Lula e menos de Bolsonaro (como podemos ver no crescente da pesquisa de dezembro para agora);
  • a terceira via sequer passa pela cabeça das pessoas. Os eleitores não tem ideia de quem são os possíveis candidatos além do petista e do atual presidente.

Os eleitores podem estar indecisos, mas talvez eles estejam em dúvida se vão em Lula (PT) ou em Bolsonaro (PL) e não em um outro nome qualquer. Isso retoma um assunto que venho falando tem um bom tempo (e você já sabe qual que é, caso você me acompanhe). A questão dessa eleição será se o anti-bolsonarismo vai se sobrepor ao anti-petismo.

Ou seja: as pessoa vão votar em Lula (PT) para tirar Bolsonaro ou se elas vão manter o atual presidente para que os petistas não voltem ao poder.

Se em 2018 o anti-petismo pautou o debate, agora é a hora do anti-bolsonarismo ditar o ritmo do jogo? As pessoas vão passar pano para todo o governo Bolsonaro e vão reelegê-lo apenas para o PT não voltar ao poder? Ou os eleitores vão de Lula porque não dá mais para o Bolsonaro continuar? Essa é a chave central de tudo.

Pensando nisso vem a resposta do motivo que a terceira via não decola (e talvez até a resposta para a reflexão anterior): ela não é anti-bolsonarista, teve ligações próximas com o governo Bolsonaro e bate no PT, principalmente, na questão da corrupção – pauta que não é mais central no debate do país e das eleições (isso ficou em 2015/2016 com a Lava Jato).

A terceira via até pode decolar vendo que 26% não quer nem Lula nem Bolsonaro e analisando esse número de indecisos. Mas ela tem que alinhar a estratégia e ver para onde ela caminha. O foco da mira está errado.

Um dado bem legal é a segunda opção de voto dos eleitores.

Ciro Gomes (PDT) tem 18%, seguido de Moro (Podemos) com 14% e Lula (PT com 8%. Bolsonaro (PL) é a segunda opção para 6% – mesma quantidade do que João Doria (PSDB).

O mais legal aqui é cruzar a segunda opção de voto a partir da escolha do candidato no 1º turno. 

Entre quem votaria em Moro (Podemos), a segunda opção de voto para 22% é o presidente Bolsonaro (PL). Ou seja: parte da base morista ainda flerta com o bolsonarismo. Mas o mais interessante (e intrigante) é que 15% votariam em Lula (PT), o dobro de pessoas que iriam em Doria (PSDB), por exemplo. Será que seria um voto útil anti-Bolsonaro?

Para 24% dos que votariam em Bolsonaro (PL), a segunda opção é o ex-ministro Sérgio Moro (Podemos). Ou seja: os bolsonaristas são mais moristas do que o inverso. 37% votariam branco/nulo/não vai votar (o maior índice da avaliação). Ao que tudo indica, o bolsonarista não tem segunda opção: ou é Bolsonaro ou não é ninguém. Ainda em 9% que iriam em Lula (PT). 

Outro dado bem interessante é dos eleitores de Doria (PSDB). A segunda principal opção é Lula (PT): 25% iriam no petista – mais do que Moro (Podemos) com 19%, por exemplo. Somente 7% votariam em Bolsonaro (PL). O governador conseguiu tirar a imagem de bolsonarista e seus eleitores não vão em Moro, possivelmente, pela relação do ex-ministro com o atual presidente. E por que vão em Lula? Talvez um voto anti-bolsonarista.

E se os lulistas não votassem no ex-presidente? 28% votariam em Ciro Gomes (PDT) e 34% iriam de branco/nulo/não vai votar (o segundo maior índice, o que mostra que, grande parcela, ou vai de Lula ou não vai em ninguém). Destaque para o segundo candidato mais escolhido entre os lulistas: Moro (Podemos). Por quê? Nem ideia.

Outro ponto bastante importante é o conhecimento que as pessoas têm dos candidatos e a chance elas votarem neles.

Bolsonaro (PL) é quem tem o maior índice de “conhece e não votaria”: 66%
Lula (PT) é quem tem o maior índice de “conhece e votaria”: 36%

O ex-presidente petista é quem tem o maior índice de “conhece e poderia votar”: 19%.
O atual presidente tem o segundo maior índice: 12%.

Aqui também podemos ver como a terceira via não está no jogo – e nem deve entrar.
Doria (PSDB) tem a segunda maior rejeição: 60% disse que “conhece e não votaria”. Sergio Moro (Podemos) tem a terceira: 59% tem essa mesma opinião. E Ciro Gomes (PDT) tem a quarta, com 58%.

Outros nomes sequer são conhecidos.
76% não conhecem a senadora Simone Tebet (MDB).
74% não conhecem Felipe Dávila (NOVO).

O cenário do 2º turno!

Lula (PT) venceria contra todos e Bolsonaro (PL) perderia para todos.
Sergio Moro (Podemos) ganha de Bolsonaro (PL) de 36% a 30%.
Ciro Gomes (PDT) ganha de Bolsonaro (PL) de 39% a 32%.

Em uma disputa entre Lula (PT) e Bolsonaro (PL), como se comportariam os eleitores dos outros candidatos?

  • 58% dos ciristas iriam em Lula e 24% branco/nulo/não vai votar;
  • 36% dos moristas iriam em Bolsonaro, mas 26% votariam em Lula;
  • 50% dos eleitores de Doria iriam em Lula e 23% em Bolsonaro;