[EDIÇÃO EXTRA] Pesquisa eleitoral

Na semana passada, saiu uma nova pesquisa eleitoral da Quaest e Genial Investimentos. Hoje trago uma análise completa e detalhada sobre os dados.

O resumo do resumo é que:
– o ex-presidente Lula continua liderando a disputa à presidência da República e vence em todos os cenários;
– Bolsonaro está se recuperando. Se isso vai se manter ou não, ainda precisamos aguardar para ver;
– a economia é o principal tema do Brasil e a pandemia já não está mais na agenda do brasileiro.

Tá textão, mas tá bem interessante.
Boa leitura!

AVALIAÇÃO DO GOVERNO BOLSONARO

O presidente teve uma leve melhora de fevereiro para março deste ano: subiu de 22% para 24%. Este valor é o maior desde agosto de 2021. Por outro lado, caiu a avaliação negativa que está hoje em 49%, a menor desde setembro de 2021.

Por região. No Nordeste, reduto crítico ao governo e local de apoio ao PT, a avaliação negativa caiu 5% de fevereiro para março deste ano e hoje está em 56% – o menor valor desde agosto de 2021. A avaliação negativa despencou no Norte, bastião do bolsonarismo. Depois de um crescimento de 6% entre janeiro e fevereiro, tivemos uma queda de 12% para março. No Sul, onde a avaliação negativa vinha crescendo consideravelmente desde dezembro, a avaliação negativa caiu 5% de fevereiro para março – e lá a avaliação positiva cresceu 10%.

Por idade, também aconteceram algumas mudanças. O maior crescimento da avaliação positiva foi entre os brasileiros com mais de 60 anos: de 24% em fevereiro para 29%. Outro avanço considerável foi nos brasileiros entre 35 e 44 anos: 5% a mais entre fevereiro e março. E a maior queda da avaliação negativa foi nos cidadãos entre 16 e 24 anos: de 56% em fevereiro para 49% em março.

Por escolaridade, conseguimos ver algumas diferenças. Entre os brasileiros que tem até o Ensino Médio, a avaliação negativa vem caindo desde janeiro e agora está em 43%, o menor índice desde agosto de 2021. Entre os mais escolarizados, a avaliação positiva vem crescendo desde janeiro, quando estava em 21%, e agora já chega em 25%.

Por renda, temos algo interessantíssimo. De fevereiro para março, caiu 8% a avaliação negativa entre quem ganha até dois salários mínimos e hoje está em 49%, o menor índice desde setembro do ano passado. Entre os mais ricos, a avaliação negativa vem reduzindo desde janeiro: de lá para cá, já recuou 7%. Ou seja: tanto os mais pobres quanto os mais ricos estão menos críticos ao governo.

Por religião. Os evangélicos continuam bem divididos e confusos. Depois de um leve distanciamento crítico do governo, eles podem estar começando a voltar para o bolsonarismo. Tudo ainda é suposição. De fevereiro para março, caiu 3% a avaliação negativa que soma está em 34%, contra 33% que avaliam positivamente. Os católicos, que vinham em uma crescente de críticas no final de 2021, agora dão uma leva recuada: caiu 4% a avaliação negativa de fevereiro para março.

A pesquisa cruzou os votos no 2º turno de 2018 com a avaliação agora. Os dados mostram que, depois de uma debandada de eleitores bolsonaristas no final do ano passado, o momento talvez seja de uma “volta dos que não foram”. Aqueles que criticaram o governo no final de 2021, podem estar voltando para o bolsonarismo por alguns motivos: possibilidade da volta do PT; melhoria da situação da pandemia; moderação do discurso do presidente; entre outros.

De agosto até novembro do ano passado, os que avaliaram o governo positivamente e votaram em Bolsonaro caiu de 52% para 39%, chegando no fundo do poço da pesquisa. De lá para cá, eles começaram a voltar e a avaliar positivamente o governo: hoje já são 49%

Vale olharmos a avaliação negativa entre as pessoas que votaram nulo/branco. Em janeiro, 68% avaliaram negativamente, depois foram para 66% em fevereiro e agora são 61%. Essas pessoas podem votar em Bolsonaro? Não sei. Mas talvez.

A pesquisa perguntou se o governo Bolsonaro está pior, melhor ou exatamente como elas imaginavam. E aqui temos dados bem interessantes para olharmos e analisarmos.

Há mais gente que acha que não está nem melhor nem pior. Eles são 31%. Há menos brasileiros achando que está “pior do que esperava”: eram 55% em janeiro e hoje são 50%. Concluímos então que as pessoas estão aceitando mais e entendendo que Bolsonaro e sua turma são exatamente como eles são e que não há muito o que fazer. Isso pode ser perigoso porque as pessoas podem votar novamente no presidente por simplesmente acharem que tá tudo ok ele ser do jeito que é e por outros motivos, como a volta do PT, por exemplo.

Entre quem votou em Bolsonaro no 2º turno, despencou quem acha que o governo está “pior do que esperava”: de 35% em fevereiro para 24% em março. Dessa galera, aumentou quem acha que não está nem pior nem melhor: de 33% em fevereiro para 41% agora.

Por renda, as mudanças são brutais. Entre os brasileiros que ganham até dois salários mínimos, caiu muito os que acham que está pior do que se esperava: de 38% para 27% em apenas um mês. Ou seja: os mais pobres achariam que o governo seria muito pior do que ele está. Esse recuo acontece em todas as faixas de renda. A mesma lógica acontece na classe média e nos mais ricos. 

A mudança de percepção também acontece entre quem recebe o auxílio. Nessa turma, caiu de 45% em fevereiro para 23% em março a quantidade de brasileiros que achavam que o governo seria pior. É mais gente pobre que pode apoiar o bolsonarismo. 

ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS

O brasileiro ainda quer o ex-presidente Lula vença a disputa, mas esse desejo deu uma leve oscilada para baixo. A grande novidade é o crescimento da vontade que Bolsonaro vença: em janeiro, eram 23%. Agora são 26% – o maior valor desde agosto de 2021. Consequência disso é que o percentual de gente que prefere a reeleição já ultrapassou aqueles que não querem nem Lula nem Bolsonaro.
Ou seja: a terceira via continua não decolando e já tende a naufragar.

Em todos os cenários apresentados, o ex-presidente Lula (PT) ainda lidera. Em segundo lugar, sempre aparece o presidente Bolsonaro (PL) e Sergio Moro (Podemos) e Ciro Gomes (PDT) disputam a terceira posição. Ao que tudo indica, a disputa deve ficar mesmo entre Lula e Bolsonaro.

O ponto que merece atenção é a pequena queda de Lula de janeiro para agora e um leve crescimento de Bolsonaro no mesmo período? Como venho dizendo, há alguns motivos para isso: a moderação do discurso do presidente, a volta da normalidade nas ruas do país, a aproximação do fim da pandemia, a estrutura do novo partido de Bolsonaro, o Auxílio Brasil para os mais pobres e por ai vai. 

Mesmo diante deste cenário, muita coisa ainda pode acontecer. Muitos eleitores ainda podem mudar de barco durante a campanha. Só estão certos dos seus votos os eleitores de Lula (PT) e Bolsonaro (PL). Entre os lulistas, 73% estão decididos dos seus votos. Entre os bolsonaristas, 70% estão assim.

Entre os eleitores de Sergio Moro (Podemos), 68% podem mudar o candidato caso alguma coisa aconteça pelo caminho. Este número sobe para 69% quando falamos de Ciro Gomes (PDT), para 72% entre os eleitores de João Doria (PSDB) e para 87% nos eleitores de Eduardo Leite (PDSB). 

Quem são os eleitores de cada candidato?

Lula tem mais o voto feminino (48%) do que o masculino (40%), ao contrário de Bolsonaro que tem mais o apoio dos homens (31%) do que das mulheres (20%).

Quanto menor o nível de escolaridade, maior o apoio ao petista. Entre quem tem até o Ensino Fundamental, Lula tem 56% dos votos. Este valor cai para 28% nos brasileiros com Ensino Superior. Bolsonaro, por sua vez, é mais forte entre quem tem o Ensino Médio (31%).

Quanto menor a renda, maior o índice de voto em Lula. 
Quanto maior a renda, maior o índice de voto em Bolsonaro.

Há muito mais católicos votando em Lula (51%) do que em Bolsonaro (21%). Entre os evangélicos, Bolsonaro tem uma pequena vantagem contra o petista: 38% a 33%, respectivamente. Pessoas com outra religião e sem nenhuma são, majoritariamente, eleitores de Lula: 36% e 44%, respectivamente, contra 17% e 22% para Bolsonaro.

Lula é favoritísismo no Nordeste: 60% para ele e 15% para Bolsonaro. O atual presidente só ganha no Centro-Oeste: 39% a 29% para Lula.

Há motivos específicos para as pessoas votarem em determinados candidatos.

63% votam em Lula por causa da boa gestão no passado e 48% por causa da situação econômica do país. O legado petista do governo do ex-presidente ainda está muito presente no imaginário popular. Há ainda 58% que diz votar no petista por causa da situação econômica pessoal.

Quase 60% dos bolsonaristas escolhem o candidato por ele ser honesto. A honestidade ainda é algo que cola no presidente – mesmo com todos os escândalos na família Bolsonaro. Isso também cola entre os eleitores de Moro: 10% deles buscam por isso.

A grande questão que tenho levantado é como vão se comportar as pessoas que não são nem Lula nem Bolsonaro. A pesquisa mostra algumas possibilidades.

Para essas pessoas da terceira via, foi perguntando: “Se o primeiro turno fosse hoje e Lula tivesse grande chance de ser eleito sem precisar do segundo turno, você votaria nele mesmo preferindo outro candidato?”. Dessa galera, 66% disse que não votaria em Lula e 34% afirmou que “votaria em Lula para acabar com a eleição no primeiro turno”. Ao que tudo indica, a turma da 3ª via não quer mesmo a vitória do petista e pode sim embarcar na candidatura de Bolsonaro.

A pesquisa cruzou essa possibilidade de Lula vencer com os eleitores de outros candidatos. Foi perguntado: “Se o primeiro turno fosse hoje e Lula tivesse grande chance de ser eleito sem precisar do segundo turno, você votaria nele mesmo preferindo outro candidato?”.

Entre a galera da terceira via, a grande maioria dos eleitores não votaria em Lula. Os moristas são os mais avessos ao petista: 79% não votaria em Lula. Entre os eleitores de Doria (PSDB), 78% não iria no petista. 

Mas o anti-bolsonarismo está claríssimo. A pergunta foi: “Se o primeiro turno fosse hoje e Bolsonaro estivesse subindo nas pesquisas, com chances de ultrapassar Lula, você votaria em Bolsonaro para tentar evitar vitória de Lula?”. Aqui, 77% disse que não votaria em Bolsonaro. Quando cruzamos com os eleitores dos outros candidatos, os moristas são os mais propensos a votar no atual presidente.

Bolsonaro (PL) é o mais rejeitado entre todos os candidatos

63% dos eleitores disseram que “conhecem e não votariam” no atual presidente, enquanto que 21% “conhecem e votariam”. 

O segundo mais rejeitado é o ex-ministro Sergio Moro (Podemos): 62% “conhece e não votaria”. Depois aparece o governador João Doria (PSDB) com 60%. 

Lula (PT) tem a maior aprovação: 38% afirmaram que “conhecem e votariam”. 

Ciro Gomes (PDT) é quem tem a maior possibilidade de ganhar novos eleitores: 24% “conhecem e poderiam votar”.

ECONOMIA E PANDEMIA

A economia é a pauta da vez mesmo. 51% aponto o assunto como o principal problema do país – em fevereiro 35% disseram isso. Tivemos esse crescimento considerável depois de quedas constantes desde novembro do ano passado, quando a pandemia deu uma leve piorada. Agora retorna, possivelmente por causa do preço dos combustíveis e, por consequência, com o aumento dos preço em geral.

O assunto é tão importante que, para 43%, a situação econômica do Brasil é a principal razão para seu voto para presidente.

Para 56%, piorou a capacidade de pagar as próprias contas nos últimos três meses. Esta quantidade vem crescendo desde o começo do ano.

Por outro lado, vem caindo o número de pessoas que acredita que a situação econômica do país como um todo vem piorando. Hoje são 60% e já foram 73% em novembro do ano passado.

Consequência disso é o sentimento de melhora da economia brasileira nos próximos 12 meses. Hoje, 46% acham isso. Em dezembro eram 41% e, em janeiro, 43%.

Por outro lado, a pandemia já não é mais agenda do brasileiro. Se em fevereiro, 67% das pessoas diziam estar muito preocupadas com a pandemia, agora são 44%, uma queda de 23%. Neste tempo, subiu 16% quem disse estar pouco preocupado e 6% quem não está nada preocupado.

A pesquisa questionou as pessoas sobre o uso da mascara. 41% disse que todos deveriam continuar usando máscaras apenas em locais fechados e 39% acredita que todos deveriam continuar usando em todos os locais. Outros 18% defendem que as pessoas devem ser  autorizadas a deixar de usar máscaras em todos os lugares. Coincidência que seja um número próximo da aprovação do presidente e do seu potencial de voto? Não né.

Essa relação entre o presidente e máscara pode ser notada em outro gráfico. Só ver abaixo.

A pesquisa também levantou alguns questionamentos sobre a pandemia.
– 76% concordaram que a pandemia foi um problema tão grande que qualquer presidente teria dificuldades de enfrentá-la;
– 76% concordaram que a pandemia foi muito grande, mas o Brasil tinha condições de se sair melhor se Bolsonaro não tivesse feito campanha contra as vacina;
– 54% concordaram que Bolsonaro acertou ao lutar contra o isolamento social, pois o isolamento só atrapalhou a economia;
– para 33%, Bolsonaro estava certo, e a pandemia foi muito menos forte que a imprensa noticiava.

Ou seja: a culpa sobre as mais de 600 mil mortes não vai cair nas costas do responsável direto, o presidente.

Uma análise bem interessante (e que eu ainda não tinha visto) foi a percepção do brasileiro sobre o governo e a trajetória do ex-presidente Lula.

Apenas 18% avaliaram negativamente: 12% falaram que ele fez um governo péssimo e outros 6% que foi um governo ruim. Mais uma vez, o número bate com os números do bolsonarismo.

22% apontaram como regular.

58% avaliaram positivamente: 34% como um bom governo e 24% como ótimo.

Essa percepção do governo lulista pode ajudar o ex-presidente a ganhar novamente a eleição. As pessoas podem lembrar dessa época e comparar com o momento de agora – e isso pode sim favorecer a campanha petista.

Você pode me dizer que muita gente vai se lembrar da prisão de Lula. Sim, isso pode acontecer. Mas qual é a visão do brasileiro sobre isso?

46% disseram que o ex-presidente foi condenado corretamente e outros 42% acreditam que ele foi injustamente detido.

Para 49%, Lula sempre foi inocente e tudo o que aconteceu com ele foi uma grande armação e 36% acreditam que ele é culpado e deveria estar preso.

Temos uma divisão clara nas opiniões sobre o ex-presidente, mas a tendência é positiva para o petista, somando-se a isso o fato de que o tema da corrupção não é o debate da vez.