Eu sou a favor do aborto. E você?

Semana complicadíssima para o direito das mulheres. Tivemos três casos muito simbólicos e que demonstram o clima conservador e obscurantista que estamos vivendo. Todos estão ligados ao tema do aborto e ao corpo das mulheres.

Começamos com o caso divulgado pelo The Intercept Brasil: uma criança de 11 anos que estava grávida depois de um estupro e que estava está sendo mantida pela justiça de Santa Catarina em um abrigo há mais de um mês para evitar que fizesse um aborto legal. O caso mobilizou e movimentou o país todo. O g1 contou um pouco quem é Joana Ribeiro, a juíza do caso. Depois de tanta repercussão, o mesmo g1 conta que a magistrada deixou o caso – e, depois de tanta polêmica, a garota conseguiu fazer o aborto, segundo a Folha de S.Paulo.

Depois tivemos o caso bizarro da atriz Klara Castanho, que teve sua história vazada pelo Léo Dias (a quem me recuso a chamar de jornalista). Ela publicou um texto em suas redes sociais revelando que foi estuprada, engravidou e decidiu entregar o bebê diretamente para adoção – leia aqui a íntegra. O assunto começou depois que a atriz bolsonarista Antonia Fontenelle contou a história em uma live, sem o consentimento de Klara.

Rapidamente, Léo Dias divulgou tudo sobre o fato, um crime contra Castanho. O assunto polemizou. O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e o Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) vão apurar a denúncia da atriz Klara de que uma enfermeira teria a abordado e ameaçado divulgar para a imprensa informações sobre a entrega para adoção de bebê fruto de um estupro – leia no g1. O mesmo g1 trouxe uma reportagem falando que, para especialistas, o atendimento médico e hospitalar relatado por Klara Castanho foi antiético e antiprofissional. Muitos famosos se solidarizam com a atriz (leia aqui).

Depois ainda tivemos a revogação dos direitos do aborto nos Estados Unidos. Obviamente que tem muita gente comparando com O Conto da Aia (se não viu, veja). Há quem diga que essa decisão da Suprema Corte é a primeira para a revogação de muitos direitos nos EUA. O Trumpismo ainda permanece forte.

Sobre os EUA, sugiro algumas leituras:
– “Se a Suprema Corte pode reverter Roe, pode reverter qualquer coisa”.
Texto de Mary Ziegler na The Atlantic.

– O que minha mãe me contou sobre a América antes de Roe”.
Molly Jong-Fast conta as histórias de sua mãe antes da liberação do aborto.
Texto na The Atlantic.

– “Lições políticas para democratas em uma América pós-Roe”.
John Cassidy fala como os democratas devem lidar agora com os desafios do sistema político norte-americano junto com uma Suprema Corte empilhada e divida. Texto na The New Yorker.

“As últimas horas em uma das maiores clínicas de aborto da América”.
Stephania Taladrid fala como foi o dia na Houston Women’s Clinic.
Texto na The New Yorker.

“Democratas aproveitam a decisão do aborto nas eleições intermediárias, enquanto os republicanos caminham com cuidado”. Annie Linskey e Colby Itkowitz falam como as reações contrastantes refletem os cálculos de meio de mandato de democratas e republicanos antes das eleições de novembro. Texto no The Washington Post.

Como relacionar tudo isso ao momento do Brasil? Ao meu ver, os grupos de extrema-direita do bolsonarismo aproveitaram a movimentação nos EUA e os dois fatos daqui para se posicionarem politicamente e para aglutinarem seus grupelhos extremistas. O bolsonarismo marcou território contra o aborto e, claro, cravou sua linha conservadora. Não é coincidência que os vários e vários atores bolsonaristas falaram sobre o assunto – e nem é coincidência que a Fontenelle tenha sido o centro da polêmica por aqui. Vale lembrar que ela é pré-candidata a deputada federal.

Em um momento de derretimento do presidente, os grupos extremistas precisam demonstrar força – e como eles fazem isso? Barulho nas redes sociais. Eles precisam aparecer para tentar angariar mais gente, e sabem que o discurso conservador pode trazer mais gente para a extrema-direita (ainda mais quando se fala de “morte de bebês”). O interessante é que, muitas vezes, eles linkam o PT, colocando o partido como “assassino de crianças”. Eles sabem que tendem a perder e estão jogando pra tentar uma cartada final – e não vão desistir tão cedo.

#ReflexõesDaSemana

🇪🇨 Quais as raízes e as consequências da instabilidade no Equador. Movimento indígena, pivô de três quedas presidenciais em oito anos, aumenta pressão sobre Lasso, um presidente politicamente isolado e com a popularidade em queda. (Nexo)

🇨🇴 A primeira entrevista do novo presidente colombiano Gustavo Petro.
(Cambio Colombia)

🇨🇱 Denúncias dizem que alas militares estão sabotando o governo de Boric no Chile.
(Interferencia)

🇵🇾 ‘O PCC está atrás de mim’: as garras do cartel de drogas no Paraguai.
(The Guardian)

🇧🇴 Bolsonaro revela encontro secreto com ex-ditadora presa da Bolívia. (Revista Fórum)

🇲🇽  Conheça Mayra Flores, a primeira deputada americana nascida no México. (g1)

🇸🇻 IML de El Salvador não tem registro de vários mortos durante a fase de exceção do país. (La Prensa Grafica)

🇵🇦 Presidente do Panamá anuncia que sofre de “síndrome mielodisplásica de risco médio”. (La Prensa)

🇺🇸 22 Estados dos EUA devem banir aborto com revisão de Roe vs Wade. (Poder360)

🇺🇸 A maioria dos norte-americanos desaprovam a mudança da lei sobre o aborto. (CBS)

🇺🇸 O que a decisão sobre armas da Suprema Corte significa para o controle de armas. (FiveThirtyEight)

🇬🇧 Inflação no Reino Unido atinge recorde de 40 anos em maio, a mais alta do G7. (g1)

🇪🇸 Invasão a enclave espanhol de Melilla mata 18 migrantes. (UOL)

🇫🇮 Finlândia diz estar preparada para uma invasão russa. (Poder360)

🇧🇾 Rússia fornecerá mísseis com capacidade nuclear para Belarus. (CNN Brasil)

🇵🇸 Israel prende 17 palestinos na região da Cisjordânia. (TeleSUR)

🇮🇷 O Irã testou seu lançador de satélite Zuljanah pela segunda vez. (Al Jazeera)

🇮🇶 Premier iraquiano viaja à Arábia Saudita e Irã em busca de ‘estabilidade regional’. (Estado de Minas)

🇹🇷 Parada do Orgulho LGBT+ em Istambul tem cerca de 200 presos. (UOL)

🇿🇦 Polícia investiga morte de 21 jovens em bar na África do Sul. (Veja)

🇮🇳 Teesta Setalvad, ativista dos direitos humanos que lutou pelas vítimas do motim na Índia em 2002, é presa. (Al Jazeera)

#MandaDicas

O desafio para cumprir a lei do aborto legal no Brasil. Nesta semana, o Brasil foi apresentado ao caso da menina de 11 anos de Santa Catarina que ficou grávida, e que teve o direito à interrupção da gravidez recomendado pelo Ministério Público Federal. O caso também levantou questionamentos sobre a conduta da juíza Joana Ribeiro Zimmer, como da promotora Mirela Dutra Alberton, que tentaram impedir a realização do aborto, que só aconteceu, na quarta-feira, após a ampla repercussão do caso. Entre janeiro de 2021 e fevereiro deste ano, houve 1.823 procedimentos autorizados por lei no Brasil. Em situações como essa, o aborto não só é excepcionalmente autorizado, como também deve ser oferecido pelo Sistema Único de Saúde. Mas esse episódio de Santa Catarina levanta ainda outras questões sobre a atuação da Justiça e dos órgãos de saúde, especialmente quando se trata de uma criança. Afinal, o que esse caso revela sobre a falta de compreensão sobre a lei que permite os casos excepcionais de aborto legal? (Texto – Ao Ponto)
Não pergunte, não fale. Joanna e William contam suas histórias pessoais que simbolizam o início de suas trajetórias para refletir e mudar a realidade homofóbica do futebol no Brasil, ambas envolvendo um ex-jogador que apesar de ser um craque de bola, ficou marcado como o futebolista que mais sofreu homofobia no futebol brasileiro. Os depoimentos de Casagrande, Germán Cano e da pesquisadora Leda Costa são o ponto de partida para mostrar o retrato do machismo na estrutura da “paixão nacional” e como os gays precisam se disfarçar.
(Texto – Nos armários dos vestiários)
Quem não gostaria de saber o que o futuro reserva para a humanidade? Essa é a premissa da série O Futuro, uma produção documental que acaba de chegar ao catálogo brasileiro da Netflix. No projeto, especialistas analisam novas tendências tecnológicas, suas possibilidades revolucionárias e as maneiras como elas podem influenciar o destino da sociedade. “Com a ajuda de especialistas, esta série documental inovadora analisa novas tendências tecnológicas e suas possibilidades revolucionárias”, afirma a sinopse oficial. (Texto – UOL)
A crise de identidade do Facebook. Vazou no The Verge um relatório do Facebook que mostra suas intenções de ficar mais parecido com o TikTok. E mais uma vez, a empresa da Meta passará por mais uma mudança? A crise de identidade do Facebook é real? O que mantém as pessoas numa empresa sem identidade? (Texto – Meio)

Leituras complementares

Política nacional

Prisão de Milton Ribeiro atinge base de apoio e desmonta estratégias eleitorais de Bolsonaro. Nos bastidores, o QG da reeleição admite que o desgaste será grande, principalmente pela exploração, durante a campanha, de falas de apoio a Ribeiro de Bolsonaro. (g1)

Como a prisão do ex-ministro de Bolsonaro impacta sua campanha. (Nexo)

Ex-assessor de Milton Ribeiro e pastor estiveram 10 dias no mesmo hotel em Brasília. (g1)

Bolsonaro envia em grupo de zap mensagem com a frase ‘PM seguirá Exército em caso de ruptura institucional’. (O Globo)

Moraes encaminha ação sobre uso de cartão corporativo por Bolsonaro. Deputado federal Elias Vaz (PSB-GO) apresentou denúncia sobre suposto uso do cartão para propaganda antecipada do presidente em motociatas. (Metrópoles)

PF investiga envolvimento de traficantes de drogas e pescadores ilegais na morte de Bruno e Dom. (Jornal Nacional)

Por que o general caiu. Os bastidores da demissão – às carreiras – do ex-comandante Villas Bôas. (revista piauí)

6 pesquisas mostram possível vitória de Lula no 1° turno. (Poder360)

TSE decide que partidos coligados podem apresentar mais de um candidato ao Senado. (CNN Brasil)

Wikipédia: assessora tenta tirar polêmicas de Tebet de verbete e é punida. (UOL)

Ex-senador aliado de Bolsonaro deleta e esconde mais de 1 mil vídeos de canal no YouTube. (O Globo)

Economia

Inadimplência bate recorde e atinge 66,1 milhões de brasileiros. (Estadão)

Brasil abriu 357 mil negócios em março, recorde mensal desde 2010. (Poder360)

Quase metade dos brasileiros ainda não configurou limites para Pix. (IstoÉ Dinheiro)

63% dos brasileiros afirmam não ganhar o suficiente e ter problemas financeiros. (g1)

Sociedade

Carta ao Nobel: conceda o prêmio da Paz ao padre Júlio Lancellotti. (UOL)

62% dos brasileiros presenciaram ações de facções onde vivem. (UOL)

Olhando para frente com a Geração Z. Eles anseiam pelo equilíbrio entre vida profissional e pessoal e apoio à saúde mental. Eles temem ficar presos em um trabalho maçante. E eles culpam os tomadores de decisão de hoje por minimizar as questões que os movem, como tiroteios em escolas e racismo. (murmuration)

Altos executivos deixam a empresa controladora do Pornhub em meio a mais controvérsias. Uma série de reportagens no The New Yorker denunciou que a página de conteúdo erótico estava cheia de material não consensual e envolvendo menores de idade. (The Washington Post)

Tecnologia

Google, Meta, Apple: big techs reagem após decisão nos EUA sobre aborto. (UOL)

Rede social trumpista patrocina eventos que fazem pré-campanha para Bolsonaro. (Agência Pública)

Brasil Paralelo é a maior anunciante de propaganda política no Google. A produtora bolsonarista do Rio Grande do Sul gastou R$ 368 mil em 647 anúncios desde novembro passado. (Bloomberg Linea)

Na Tecnologia, os homens são mais propensos a conseguir uma entrevista de emprego (CNET)

‘Fui demitida com 35 colegas por vídeo’: as demissões em massa por startups brasileiras. (BBC Brasil)

Funcionários criam 1º sindicato em loja da Apple nos EUA. (Exame)

Número de healthtechs brasileiras cresceu 16% de 2019 a 2022. (Forbes)

Comunicação

Ser jornalista sob Bolsonaro: um desafio diário. (La revue des médias)

Um novo marketing: 3 líderes de agências falam sobre automação, vídeo online e privacidade. (Google)

#FotosDaSemana

Na América Latina, o tema do aborto é muito forte e polêmico.
Hoje trouxe algumas imagens que fiz no Chile, na Bolívia e Argentina.

#MapasDaSemana

via @AialaColares no Twitter
Representação espacial da chegada de facções criminosas do Sudeste (CV e PCC) na Amazônia Legal, onde a atuação delas está por municípios dos estados da Amazônia.

#GráficoDaSemana

#VergonhaDaSemana

#ChargeDaSemana