#048 – Integralismo e Bolsonarismo. Entrevista exclusiva com Odilon Caldeira Neto

Estou muito feliz com a primeira entrevista exclusiva para o Margem Jornalismo.

Odilon Caldeira Neto é professor do Departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFKF), coordenador do Observatório da Extrema Direita e doutor em História pela Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Conversamos sobre o seu mais recente livro: “O Fascismo em camisas verdes; Do Integralismo ao Neointegralismo”, um tema muito atual e que chega até a ascensão do Bolsonarismo.

Muita gente pediu para que tivéssemos essas entrevistas.
Espero que gostem da primeira! <3

Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre o tema e por quê falar sobre ele agora?
A ideia sobre o tema veio de uma questão profissional. Tanto eu quanto o Leandro a gente trabalha com a temática há décadas, com a organização de acervos sobre o Integralismo, pesquisa documental e bibliográfica. Então a gente é especializado na seara. A questao fucral, central, é que ela ultrapassa a dimensão historiográfica e acadêmica. A partir do ataque a produtora Porta dos Fundos, houve uma demanda muito grande de pessoas e meio de imprensa interessados na temática. A gente notou também que para além dessa questão da “pauta quente”, não havia um livro que fizesse essa apresentação e análise criteriosa e bastante leve do Integralismo de 1932 até a atualidade, uma história do Integralismo até o Neointegralismo.

Por que o Integralismo não deu certo após a morte de Plinio Salgado?
Talvez duas questões principais: a primeira é que o Integralismo perde a sua grande liderança e isso acarreta um profundo declínio da própria organização dos integralistas. Uma característica fundamental dos fascismos é justamente essa adoração quase que irrestrita, absoluta e quase com formalidades religiosas para com a liderança fascista. Quando essa liderança fascista morre, aquela figura adorada não está mais aqui. Então, eles tem que se  organizar sem esse centro aglutinador e irradiador do Integralismo. Além do mais, ele morre em 1975 e depois já têm início o processo da transição democrática. É uma questão endógena da perda da unidade e exógena do ponto de vista de uma relativa e crescente valorização positiva a democracia no Brasil.

Tenho a sensação de que o Integralismo sempre foi “refém” de uma pessoa só e isso aconteceu em vários momentos. Por que o movimento não conseguiu se consolidar, de fato, como um movimento político?
A história do Integralismo é bastante comum a outras expressões do tipo fascista. Se a gente pensar especificamente no caso da Ação Integralista Brasileira (AIB), tem varias expressões de um tipo fascista bem acabado, elas foram colapsadas e cooptadas por outras tendências autoritárias. Em Portugal, por exemplo, o Salazarismo empreendeu algo bastante similar. O Franquismo, na Espanha, empreendeu algo bastante similar a questão do Falangismo e do Nacional-Sindicalismo em Portugal. Aos organizações fascistas elas foram derrotadas em muitos locais por regimes totalitários que tinham características fascistas, mas não eram propriamente fascistas. As ideias permaneceram, essa que é a questão importante. A gente não pode analisar o Integralismo única e exclusivamente do ponto de vista institucional porque as ideias integralistas elas permanecem para e além da Ação Integralista Brasileira (AIB). 

No começo do Integralismo, o movimento chegou a ter 138 jornais em todo o país. Atualmente, a internet é a grande propulsora da mensagem, principalmente as redes sociais. Queria que você falasse um pouco da importância da Comunicação para o movimento.
O fascismo em geral ele utilizava de uma maneira muito hábil os meios de comunicação. Era necessário estabelecer esse processo de divulgação de doutrinas e ideias políticas e como forma de angariar novos militantes. O Integralismo soube utilizar de uma maneira bastante hábil, não apenas na imprensa escrita, mas também da rádio, e inclusive do próprio cinema, ou seja, dos meios de comunicação de massa, para a disseminação da ideologia. E os neointegralistas, a extrema direita de uma maneira bem ampla, usa a internet, mas não necessariamente é o mesmo procedimento. No caso dos grupos neointegralistas e neofascistas, eles não utilizam a internet para chegar nas massas. Eles utilizam sobretudo para comunicar uns com os outros e também para aglutinar do ponto de vista da ramificação desses grupos. A internet é usada para a disseminação do discurso Integralista, mas ela também é utilizada do ponto de vista de estratégia política mais intensa, como se fosse uma arena política para os integralistas.

O Brasil sempre usou do medo do comunismo para mudanças drásticas: os anos 30, com o Plano Cohen; em 64 e o golpe militar; e agora em 2018. A retórica anticomunista sempre foi presente. Por quê? E por que os brasileiros sempre acreditam nesse discurso anticomunista?
O surgimento em torno do fascismo é em torno de uma reação anticomunista, tanto em relação a uma crise da democracia liberal porque o fascismo é, por essência, anti-democrática, anti-liberal e também anticomunista. Essas ideias foram gestadas nesse momento de temor das classes médias urbanas em torno de processos de proletarização das massas. No Brasil existia um processo de organização de partidos comunistas e grupos de esquerda mais ativos, inclusive anarquistas. Então, essa chegada desses ideais e organizações revolucionárias deu alguma base para a articulação de grupos integralistas. Isso tem uma continuidade porque acaba sendo arraigado em parcelas significativas da sociedade. A paranoia anticomunista ela é bastante convincente no sentido que ela cria um inimigo interno e cria também a possibilidade de uma radicalização política para solucionar esse medo. Não é a toa que o medo, o temor e as teorias anticomunistas são utilizadas em momentos que não existiram um perigo comunista no Brasil, seja em 37, em 64 ou mesmo na atualidade. São projetados alguns valores dessa mitologia política anticomunista até para partidos que não reivindicam essa filiação ao comunismo, como é o caso do Partido dos Trabalhadores (PT).

Como o Integralismo está presente hoje tanto no governo quanto na sociedade?
Tanto no ponto de vista das ideias que são partilhadas em algum sentido por outras organizações da extrema-direita brasileira, mas também em torno de algumas figuras. Se a gente for pensar em algumas figuras que se aproximam do próprio Bolsonarismo, de partidos políticos como o PRTB e o Patriota, alguns ministérios chaves para o conservadorismo do governo Bolsonaro, como é o caso da Damares Alves, que tem a participação de algumas figuras integralistas que circulam no meio do Integralismo. 

Podemos dizer que o Bolsonarismo é um movimento neointegralista? Por quê?
Ele não é um movimento neointegralista. O Bolsonarismo tem algumas características que são tributárias a história da extrema direita brasileira que encontra no Integralismo um dos seus alicerces fundamentais. Os grupos neointegralistas eles reivindicam um estatuto muito específico e não é necessariamente o mesmo estatuto reivindicado pelo Bolsonarismo. Mas como eles partilham da participação em setores da extrema-direita brasileira mais ampla, existe um processo de partilhar emoções, simbologias, rituais e slogans como é o caso do “Deus, Pátria e Família”.  O Bolsonarismo tem uma nova roupagem dos populismo de direita mais amplo que se insere dentro da democracia de um jeito diferente tal qual se inseria o próprio fascismo histórico. Faz o uso também de outras dinâmicas surgidas na hipermodernidade, isso sem falar também nas transformações na sociedade brasileira. A própria questão religiosa do conservadorismo do extrato evangélico ou mais propriamente os neopentecostais, dá uma grande ênfase para o Bolsonarismo. São valores muito mais individualistas, mais voltado para uma lógica neoliberal, a um discurso “self made man”, que não é necessariamente o mesmo do Integralismo e do Neointegralismo que tem uma preocupação social muito mais ampla e evidente e também tem a preocupação com a criação de um Estado muito mais integral e também de fortalecimento do Estado de um ponto de vista nacionalista, o que não é o que o Bolsonaro propõe, afinal de contas ele tem uma retórica nacionalista, populista e “patriotesca”, mas não é propriamente dito um nacionalista do ponto de vista da gerência da economia e do Estado brasileiro.

QAnon tá com tudo no Brasil

Protesto dos partidários da teoria conspiratória na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.
(Foto: Arquivo pessoal/Leonardo Coelho)
Em agosto desse ano, enviei uma newsletter explicando o que era a teoria QAnon (se você não leu, clique aqui e leia). Naquela época, eu já alertava sobre a chegada dessa conspiração bizarra no país e a sua relação com o Bolsonarismo. As eleições municipais estão aí e serão um grande laboratório para os conspiracionistas. 

Para Alexander Reid Ross, professor da Universidade de Portland, nos Esados Unidos, e pesquisador do Centro para Análise da Direita Radical, o QAnon é um movimento de direita político e religioso que tem aspectos ocultistas e sincréticos: “Isso é, que contém uma leitura que tenta decifrar o desconhecido e o místico por meio de uma estrutura de crenças que integra e incuba outras teorias conspiratórias, sejam antigas ou novas”, explicou ao Intercept. 

Leonardo Coelho trouxe, em uma baita reportagem no The Intercept Brasil, quatro candidatos vereadores que estão com tudo do QAnon. 

Lula: “Quero que a Justiça diga que eu sou inocente e que o Bolsonaro é um lacaio”

Em entrevista ao El País (clique aqui para assistir), o ex-presidente afirma que Bolsonaro deu cidadania à extrema direita no Brasil e defende candidatura de Jilmar Tatto à prefeitura de São Paulo.

O petista falou ainda sobre as presidenciais dos Estados Unidos, as forças políticas em ação na América Latina e a situação das democracias na Venezuela e Bolívia. “Quem define a democracia da Venezuela é o povo da Venezuela”.

Também comentou o processo que o levou à prisão. “Eu poderia ter ido para uma embaixada, não fui. Mentira tem perna curta e é por isso que o Sergio Moro está acovardado agora”, disse Lula.

Na Amazônia, 118 políticos com multas ambientais concorrem às eleições

Políticos donos de gado e produtores agrícolas foram multados pelo Ibama por desmatamento, extração ilegal de madeira e infrações dentro de unidades de conservação. (Foto: Vinícius Mendonça/Ibama)
Levantamento feito pela Agência Pública, mostra que esse número de candidatos a prefeito e vice-prefeito da Amazônia Legal estão na “lista suja do Ibama” por infrações cometidas na região na última década.

Eles foram autuados por desmatamento, queimadas, exploração de floresta nativa localizada em reservas ou por prestar informações falsas para os órgãos ambientais a fim de acobertar atividades ilegais. Cinquenta e um que estão atualmente em exercício já receberam multas ambientais por infrações cometidas na região, e 28 deles vão disputar a reeleição. Leia mais na Agência Pública.

Candidaturas femininas batem recorde em 2020, mas ainda são minoria

Na eleição deste ano, a cada 100 candidatos que estão disputando os cargos de prefeito, vice-prefeito e vereador, 33 são mulheres. São 182 mil candidatas, em números absolutos. Esse é o maior número de mulheres registrado até hoje em uma eleição brasileira, mas ainda está longe de corresponder à proporção geral de mulheres na sociedade. As mulheres são 52% da população brasileira.

A participação feminina na política partidária cresceu de forma significativa na última década. Doze anos atrás, na eleição municipal de 2008, a cada 100 candidaturas, só 21 eram de mulheres. Essa proporção disparou depois de 2009, quando os partidos passaram a ser obrigados por lei a ter, no mínimo, 30% de candidaturas femininas. Na eleição seguinte, em 2012, elas já respondiam por 31 a cada 100 candidaturas. Em 2016, eram 32 a cada 100 candidatos.

Dá para vencer uma eleição sem Jesus? Como evangélicos se tornaram cruciais para Trump

Donald Trump com o pastor cristão evangélico Andrew Brunson orando no Salão Oval em 2018. Brunson passou dois anos em uma prisão turca sob acusação de espionagem e terrorismo.
Quatro décadas depois de abalar a política deste país, o grupo religioso é hoje um pilar eleitoral do Partido Republicano e do presidente Donald Trump, que busca novo mandato em novembro.

Na eleição de 2016 nos EUA, um em cada quatro eleitores se identificou como cristão evangélico branco, de acordo com as pesquisas. E a grande maioria deles (81%) votou em Trump.
 O presidente “vai precisar disso e talvez de mais ainda para vencer em novembro, logo eles são muito influentes”, disse em entrevista à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) John Fea, professor de História da Universidade Messiah da Pensilvânia e autor do livro “Confie em mim: o Caminho Evangélico até Donald Trump”.Leia na BBC Brasil.

Lava Jato do PCC: “Chefes da facção estão na elite”

Elvis Secco, delegado coordenador geral de repressão às drogas, armas e facções criminosas da Polícia Federal.
(Foto: Kleyton Amorim/UOL)
Em entrevista exclusiva ao UOL, Elvis Secco, delegado coordenador-geral de repressão às drogas, armas e facções criminosas da PF, afirmou que está ocorrendo uma “Lava Jato do PCC”. Segundo ele, a sofisticação da lavagem de dinheiro e o padrão de vida de seus líderes são comparáveis aos envolvidos nos esquemas de corrupção da Petrobras. 

Os tentáculos da facção paulista já chegaram a empresários que nunca tiveram passagem pela polícia e que lavavam dinheiro para o crime organizado há décadas.

Entrevista incrível na UOL

Quais as maiores preocupações das pessoas

Uma pesquisa da Ipsos mostrou quais as maiores preocupações da população mundial em setembro desse ano. Você pode ser a íntegra aqui.

No total, 62% acredita que o mundo está indo para a direção errada. O país com o maior índice é a África do Sul (86%), seguido da Bélgica (78%), Chile (76%) e Espanha (74%). No Brasil, 65% acredita que o plano está caminhando para a direção errada. 

Por outro lado, 80% dos sauditas acham que o caminho está certo. Depois aparece a Malásia (67%), Índia (62%), Austrália (56%) e Canadá).

A maior preocupação do mundo é o Covid, 45% apontou a pandemia.
Depois aparece o desemprego (39%), a pobreza e a desigualdade social (30%) e a criminalidade e a violência (27%).

Vejamos agora quantos % dos brasileiros acham que o tema citado é mais preocupante em seu país.

Covid-19: 38%
Saúde: 38%
Economia e corrupção política: 37%
Desemprego: 32%
Pobreza e desigualdade social: 32%
Criminalidade e violência: 29%
Educação: 25%
Impostos: 14%
Ameaças ao meio ambiente: 11%
Inflação: 9%
Queda moral: 7%
Risco de extremismo: 6%
Manutenção dos programas sociais: 4%
Mudanças climáticas: 3%
Terrorismo: 2%
Acesso ao crédito: 2%
Controle imigratório: 1%
Obesidade infantil: 1%

Leituras complementares

– “Acabei com a Lava Jato porque não tem corrupção no governo”. Essa foi a frase (piada) do presidente. Leia na UOL.

– Um tribunal grego determinou que o partido neonazista Aurora Dourada é uma “organização criminosa”. O inquérito fechou com um processo contra 68 réus, entre eles o líder da  legenda, Nikólaos Michaloliákos. De acordo com o procurador, os membros da Aurora Dourada usaram o partido como instrumento político para atividades ilíticas. Entenda no OperaMundi.

– Um texto publicado no site da Igreja Universal diz que bancada evangélica de esquerda “é um tipo de movimento que surge para tentar deturpar a Palavra de Deus”. Leia na Carta Capital.

– Deputado Alexandre Frota apontou à Polícia Federal a relação direta de Eduardo Bolsonaro com difusão de fake news. Segundo Frota, Eduardo Bolsonaro estaria envolvido com a orientação e a divulgação dos atos, alguns dos quais pediam fechamento do Congresso, do Supremo Tribunal Federal e intervenção militar. De acordo com os dados apresentados por Frota, os computadores de onde partiram orientações para os atos estão relacionados a endereços de Eduardo Bolsonaro ou de assessores dele. Entenda mais no G1.

-Bolívia declara emergência nacional por causa de incêndios na Amazônia. Mais de meio milhão de hectares ardem às portas da floresta, enquanto a crise ambiental agita a disputa eleitoral. Leia no El País.

– Pesquisa da Getty Images mostra que crise climática preocupa mais que a pandemia. Pesquisa revelou que 81% das pessoas esperam que as empresas sejam ambientalmente conscientes em sua publicidade e comunicação. Tudo no B9.

– David Remnick: “Os EUA são uma democracia imperfeita desde a sua fundação”. Diretor da revista ‘The New Yorker’ falou ao El País sobre os desafios norte-americanos nestas eleições.

– Fortuna de bilionários aumentou 27% durante a pandemia da Covid-19. Os industriais viram sua fortuna crescer 44% em três meses; os do setor de tecnologia 41%. Entre os que mais ganharam na pandemia estão, ainda, bilionários da área de saúde. Leia na BBC.

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