#016 – Parte 1: Será o começo do fim de Bolsonaro?

Confesso, turminha: não estava muito afim de levar as mesmas notícias trágicas para vocês – o mais do mesmo: coronavírus, milhares de mortos, pessoas desrespeitando à quarentena e por aí vai. Desanimei um pouco.

Mas nada que um governo bolsonarista não faça que sacuda a poeira e consiga colocar outro tema na manchete que não seja a pandemia. (é rir para não chorar). Não posso provar, mas acho que isso é único no planeta.

A saída de Sérgio Moro, para alguns, é o começo do fim do governo de Bolsonaro. O capital político e eleitoral do ex-ministro foi fundamental para a ascensão do Bolsonarismo. Os Lava-Jatistas são uma fatia importante e considerável do Bolsonarismo. São aqueles cidadãos anti-corrupção, anti-petistas e que viam em Bolsonaro um varredor da corrupção no Brasil.

Com a vazada de Moro do governo, os Lava-Jatistas bugaram, literalmente: ficar ao lado do salvador-ídolo Moro e abandonar o presidente? Apoiar o ex-ministro e dar uma leve cutucada no presidente? Elogiar ambos e bradar pelo bem do Brasil? A questão ficou batendo nos ativistas direitistas pela internet.

Para recomeçar a nossa conversa, trago uma análise primorosa do professor Fabio Malini do que ele chamou de “Operação Russo”: a coletiva de Moro e a repercussão de sua demissão. Ele analisou cerca de 3,3 milhões de tweets das 6h às 17h de ontem. Foram mais de 793 mil participantes.

Se antes havia uma bipolarização, agora o professor diz que há uma divisão em quatro partes: o campo progressista (vermelho e roxo) e o conservador (verde e azul). Para ele, os “conservadores verdes” e os “progressistas roxos” são menos institucionalizados, ou seja, mais distantes dos partidos e da imprensa tradicional.

Os verdes são os conservadores Lava-Jatistas. A esquerda está no vermelho. A rede Bolsonarista no azul. O roxo cabe aos progressistas menos institucionalizados. O amarelinho, bem no canto esquerdo, o professor não explicou.

O professor faz duas reflexões: sem a Lava Jato, não há pauta para os verdes e, segundo ele, quem está nesse nicho tende a se aglutinar no campo mais à esquerda contrário ao presidente. Outro pensamento: para onde vão os roxos, mais focados em uma “outra política”?

Podemos perceber bem no centro o encontro entre o juiz e o presidente – eles formam um nó com outra cor. Eles estão no mesmo grafo porque os participantes únicos responderam diretamente a ambos e não se envolveram tanto com outros perfis.

No geral, tivemos:
-45% de RTs e ATs (roxos)
-17% (vermelhos)
-14% (azuis)
-8% (verdes)
-9% amarelos (mais concentrados no presidente do que no ex-ministro).

Como vimos anteriormente, a saída do ex-ministro Sérgio Moro rachou os perfis digitais da direita – e o levantamento feito pela DAPP-FGV também mostra isso.

O Departamento analisou os dados do Twitter entre 11h e 13h30 de sexta – durante a fala de Moro e depois – e provam que uma fatia da direita criticou a saída e outra parte criticou o ministro.

Quase 70% era base partidária de oposição e cerca de 16% era base partidária de direita.

Interessante ainda que o apoio ao ex-ministro superou o engajamento gerado em suporte ao então ministro Mandetta – mas lá, a direita estava mais unida e digladiava com a oposição não partidária, por exemplo.

Agora a briga foi entre a própria direita bolsonarista.

Disse o estudo: “A análise revela uma divisão entre os perfis que compõem o grupo azul, da base alinhada à direita. Influenciadores como @rconstantino, @anapaulavolei, @leandroruschel e @carlazambelli38 lamentaram a demissão de Moro, destacando que sua é demissão uma perda no combate à corrupção e, possivelmente, um erro do governo. Por outro lado, perfis como @allantercalivre, @danielpmerj, @realpfigueiredo publicaram os primeiros ataques ao ex-juiz e agora ex-ministro, criticando o pronunciamento e o acusando de agir politicamente e reforçando a confiança em Jair Bolsonaro”.

Os Lavajatistas criticaram o governo. Ao que tudo indica, estão ao lado do presidente a linha ideológica-Olavista e o restinho dos liberais de Guedes – mas que devem sair logo menos. Há ainda os militares, porém, a informação é que eles vão desembarcar.

Outra análise bem interessante foi feita pelo Núcleo Jornalismo que, segundo o site, a saída de Moro gerou a maior onda de engajamento político no Twitter desde o início das políticas de isolamento social no Brasil, em meados de março, mesmo considerado pronunciamentos polêmicos do presidente Jair Bolsonaro, manifestações de rua e até a demissão do ministro da Saúde.

Em uma amostragem dos 100 principais tweets – aqueles com mais engajamento (curtidas e retweets) – desta sexta-feira sobre a saída do ministro, mais da metade eram favoráveis a ele, ao passo que apenas 10% tinham apoio declarado ao presidente.

Pipocaram ainda pesquisas sobre a saída de Moro. Começamos com uma divulgada pela XP Investimentos.

Houve uma divisão bem clara na opinião sobre o fato: 44% das pessoas aprovaram a saída do ministro, enquanto 42% desaprovaram.

Quase 70% acredita que a demissão de Moro vai ter um impacto negativo no governo, enquanto que 16% acredita que não terá impacto e apenas 10% acham que o impacto será positivo.

Metade disse que tem uma expectativa “ruim/péssimo” para o restante do governo Bolsonaro – 25% crê em um futuro “regular” e 18% acredita que será “ótimo/bom” daqui para frente. 

Sobre a avaliação do governo, 42% acreditam que ele é “ruim/péssimo” e 31% disseram ser “ótimo/bom”.

Aqui, dois pontos vale analisarmos: os 18% que acreditam que o governo vai ser bom daqui para frente formam o núcleo duro do Bolsonarismo: ovalistas, militares e intervencionistas. No um terço que acredita que temos o governo ótimo/bom, soma-se ainda a esperança dos liberais de Guedes.

Foi divulgado também uma pesquisa pelo BR Político depois do pedido de demissão de Sérgio Moro. 

De acordo com o levantamento, 65% dos ouvidos acreditam na acusação feita pelo agora ex-ministro de que houve interferência política do presidente no Ministério da Justiça.

61% concordam com a aceleração do processo de impeachment do presidente.

66% acham que Moro é um forte candidato à presidência em 2022.

LEITURAS COMPLEMENTARES
Susan Glasse, na The New Yorker, atacando o modo como o presidente Donald Trump está lidando com o Covid-19. Texto impecável.

Washington Post traz uma reportagem bem importante: dezenas de adultos entre 30-40 anos estão sofrendo AVC por causa do Coronavírus.

Pew Research Center mostra que um terço dos norte-americanos adultos acreditam que o Covid-19 foi criado em laboratório.

The New Yorker conta a vida e a morte de Juan Sanabria, o primeiro nova-iorquino vítima do Covid-19.

Você está disposto a abrir mão da sua privacidade para a luta contra o Covid-19? É a questão do texto de Neil Paine no FiveThirdyEight.


Rachadinha de Flávio Bolsonaro financiou prédios ilegais da milícia do Rio. Saiu no The Intercept Brasil.