Sobre agradar

Se tem uma “obrigação” que acompanha todos nós, desde pequenos, até a vida adulta e se intensifica muito na maternidade é a obrigação de agradar, ou como eu li num livro essa semana, “O desejo de ser aceito”. 

Quando pequenos, o nosso maior desejo é o de ser aceito pelos nossos pais. Aí vem a ideia das criações tradicionais: a necessidade de “obedecer sem questionar, “ficar de castigo”, “deixar mamãe e papai tristes”, entre outras coisas que não vou nem entrar no mérito de ser certo ou errado. 

Quando crescemos um pouco, a maravilhosa (ou não) adolescência, vem a necessidade de agradar e ser aceito pelos amigos. Vamos em festas, pensamos da maneira que a “galera” acha certo pensar, fazemos piadas que parecem ser divertidas e fazem todos rirem, nos vestimos como determina a moda e o grupo em que vivemos.

Viramos adultos e temos que cumprir aquele protocolo da sociedade. Fazer uma universidade, trabalhar, ganhar dinheiro, casar, ter um filho, em seguida ter outro e assim vai. Não vou nem entrar no assunto das pessoas que não cumprem essa lógica e sofrem uma pressão familiar e da sociedade absurdas o que leva muitas vezes a problemas e doenças psiquiátricas. Vamos falar, como é o foco aqui na coluna, sobre a mãe.

A mãe trabalha e tem filho. Começa a sentir uma pressão logo que seu filho recém nascido chega: Vai voltar a trabalhar? Se sim; vai deixar o filho na creche? Vai ficar abandonado e ficar doente toda hora. Vai deixar com a avó? Nossa, essa criança vai ser mimada. Ah, então vai parar de trabalhar? E largar sua profissão e sua carreira pra virar só mãe e dona de casa? E a alimentação? Vai amamentar? Vai virar refém da criança. Ele tá tão fraquinho, precisa de fórmula. Vai dar fórmula? Que preguiçosa. Vai sair pra jantar com o marido? E largar a criança em casa com babá? Então não sai sem a criança. Depois não sabe porque o marido acaba largando. 

E olha que o que eu relatei não chega nem aos 6 meses da criança ainda! Essa necessidade de julgamento dos outros em relação a vida alheia somado a nossa necessidade natural de agradar faz com que entremos no parafuso da mãe culpada e insuficiente. Tudo que fazemos pro nosso filho sempre será pouco. Sempre nos julgamos capazes de fazer mais. Sempre nos cobramos para isso. Agregamos mais e mais funções. Nossos dias começam a precisar ter muito mais que 24 horas. Só que ele não tem. Aí vem a culpa de não estar fazendo tudo que deveríamos estar fazendo. Disso pra o desenvolvimento de doenças psiquiátricas e psicossomáticas é um pulo. 

E é nesse momento que vemos que não dá. Não dá pra fazer tudo que todas as pessoas julgam necessário. Não dá pra agradar todo mundo. Não dá nem pra agradar 100% a nós mesmos. Se a gente escolhe a opção B, automaticamente a gente renuncia a opção A e, com essa renúncia, perdemos tudo que a opção A traria pra nós. Mas muitas vezes não dá pra medir. Não dá pra saber se queremos mais a opção A ou B. Não dá pra saber saber qual a porcentagem de mim quer ficar em casa cuidando do meu filho e qual porcentagem de mim quer voltar a trabalhar. Não dá pra saber qual a melhor decisão. Mas independente do que escolhermos, sempre sentiremos falta daquilo que não escolhemos e precisaremos lidar com essa renúncia, com essa culpa, mesmo que saibamos que foi a escolha mais correta a se tomar. 

O fato é que culpa materna existe. Mas devemos seguir em frente. Sabendo que não poderemos agradar todo mundo. Que sempre faremos o máximo e que ele será insuficiente. 

E que, o mais importante, devemos nos perdoar, nos aceitar e saber que fazemos o nosso melhor, dentro do possível. E tá tudo bem.