Tenham filhos

Eu já sabia, desde os meus 15 anos, que eu teria dificuldade pra engravidar. Tenho síndrome do ovário policístico que resulta em uma insuficiência insulínica e dosagens hormonais femininas e masculinas completamente desreguladas.

Quando decidimos engravidar passamos por aquilo que quase toda mulher passa: A ginecologista tira o anticoncepcional e diz que você tem um ano pra engravidar naturalmente, só a partir daí começa a se pensar em alguma possível dificuldade. Mesmo com meu histórico, passei por esse 1 ano (foram quase 18 meses). Nesse meio tempo, minha pele ficou horrível de acne, não só do rosto mas do corpo também. Na época fazia Crossfit e ganhei muita massa muscular, devido a testosterona alta, o que me fez não gostar do meu corpo “masculinizado”
além de eu não menstruar mais. Eu comprava teste de gravidez de caixa. Uma ansiedade e uma certeza que eu não estava bem.

Por vontade própria, fui a um endocrinologista (que eu amo e sou grata até hoje) que, além de me ouvir, saber que eu não estava bem e me tratar com maestria, mandou que eu mudasse de ginecologista caso eu quisesse engravidar. Encontrei a minha ginecologista atual. Ela me pediu muitos exames. Uns normais e uns bem incômodos. Descobrimos que eu não ovulava. Eu podia esperar 10 anos que, provavelmente, não engravidaria. Chegamos a conversar sobre fertilização in vitro (FIV). Meu mundo caiu. Não, eu não tinha pensado nessa possibilidade. Conversei com meu marido. Pesamos em adotar. Resolvemos então fazer uma tentativa. Entrei num tratamento de reposição hormonal e indução de ovulação para, talvez, em alguns meses fazer a FIV. Mas minha médica ainda acreditava em uma gravidez natural com esse tratamento. Eu não! Nisso, queridos leitores de minha humilde coluna, já estávamos em quase 2 anos e meio de angústia. Pensamos em desistir e adotar. Pensamos também em não ter filhos, afinal, essa era uma possibilidade. Um certo dia, comecei a me sentir mal.
Sensação de gripe, talvez. Liguei pra minha médica e disse que esses hormônios que eu estava tomando não estavam me fazendo bem. Fui ao consultório dela e surpresa: Estava grávida. Foi uma gravidez tranquila, apensar de eu usar medicação para não perder o bebê durante toda ela.

Olhando pra trás, penso nesses 2 anos e meio, 3 anos com a gravidez. Quanto perrengue, quanta ansiedade, quanta angústia. Mas se tem algo que eu posso aconselhar as pessoas é: Tenham Filhos! Se foi um perrengue para engravidar e a gravidez em si, quando o bebê nasce então, tudo aumenta. Sim, é o maior trabalho do mundo! 24 horas por dia 7 dias por semana! Não tem férias! Não tem final de semana. Não tem domingo dormindo até́ tarde e almoçando as 15 horas. Não dá pra ter preguiça e jantar hambúrguer toda sexta. Não tem
um dia que você não tenha que ter feijão cozido na geladeira e ovo para cozinhar. Não tem um dia que você não confira quantos pacotes ainda restam de fralda no armário ou entre em site de ofertas pra conferir os preços de lenços umedecidos.

Não tem uma saída simples de casa sem que você pense na lancheira com almoço, mamadeira e uva passa porque ele ama. Trocador, fralda, pomada, troca de roupa de calor e uma blusa, caso esfrie. Ah, e um brinquedinho.

Não tem uma noite que você não se levante pra acalentar um choro, amamentar ou ao menos para cobrir o bebê que insiste em se descobrir na madrugada fria.

Ah, mas não tem um dia que você não se emocione com o “mamã” que ele solta do nada, com os bracinhos abraçando sua perna e pedindo colo, com a gargalhada com o beijo no pescoço ou com a cabeça encostadinha no seu colo quando o sono vem batendo na porta. Não tem um dia que ele não faça uma coisa nova, aprenda uma palavra, saia correndo pra te dar um beijo “do nada” e peça um abraço. Você se emociona no pediatra porque ele está saudável. Você chora na reunião de pais só de pensar na evolução dele nos últimos meses.

Tenha filhos para você ter a leve ideia (leve porque ainda me surpreendo a cada dia) do que é ser amada incondicionalmente. Do que é ser desejada no meio da multidão. Do que é ser “esquecida” no meio da brincadeira mas ser a primeira a ser lembrada quando o conflito aparece como se você̂ fosse a salvadora da pátria, a super heroína.

Tenha filhos pra abraçar no meio do shopping, pra cheirar o pescoço suado, pra acalentar um choro, pra jogar pro alto para o fazer rir, pra correr na sala ou para ouvir o choro quando você sai pra trabalhar.

Tenha filhos pra perceber que o “muito” que você fazia antes deles, era pouco! Pra entender que seu dia rende demais em 24 horas, que o que você apontava no filho dos outros como malcriação vai acontecer com você, e que a banana amassada sem graça, às vezes, é o melhor que você pode oferecer! E tá tudo bem.

Tenha filhos para você entender que a vida não é apenas isso, mas muito mais! Que todo dia de manhã você tem sim que levantar, porque não é só você no mundo mais!

Tenha filhos pra você aprender o que é amar porque não, a gente não sabe o que é o amor incondicional, o dar sem pedir em troca, sem que esses seres apareçam nas nossas vidas!

Não é fácil. Nenhuma parte, nenhuma fase. Aliás, olhando pra trás percebo que a próxima fase é sempre mais difícil que a anterior. A gente se preocupa, aprende a pensar em mil coisas ao mesmo tempo. Trabalha pensando no filho, brinca com o filho pensando na louça que tem que lavar, lava a louça pensando no almoço de amanhã. Criamos rugas, olheiras, cabelos brancos. Deixamos de comprar coisas para nós para comprar aquele shorts que vai ficar lindo nele!

Aí eu penso naquela pessoa que quase desistiu de ter filhos. Penso como preenchi uma parte do meu coração que estava vazia e eu nem sabia, com muito amor e vida!

E eu digo e repito: Tenham filhos!